09 de julho de 2026
Articulistas

Falha Nossa!

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 2 min

Todos estavam estupefatos. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Aquela senhora, a mais idosa do grupo, aceitara o convite para ir ao teatro. Grande coisa, dirá o prezado leitor. Será que idoso não pode ir ao teatro? Não só pode, como deve. Mas aquele era um caso especial. Além de ser a mais velha dos excursionistas do Interior do Estado de São Paulo que visitavam o Rio de Janeiro, ela era, também, a mais beata, a mais carola e a mais pudibunda. E a peça a ser vista era, simplesmente, "Oh! Calcutá!". (Para quem não se lembra, tratava-se de um espetáculo de nudez que deu muito o que falar. Começara exatamente com todos os artistas nus no palco). Tentar juntar os princípios que nortearam a vida daquela senhora com um espetáculo daquela natureza era a mesma coisa que tentar misturar água com óleo. Aliás, quando o organizador começou a perguntar quem iria ao teatro, só não foi feito um bolão porque ninguém se arriscou a cravar o "sim" como a resposta que ela daria.
No momento em que ia começar o espetáculo, o grupo estava focado no palco, mas sem deixar de prestar atenção na referida senhora. A reação dela era imprevisível: poderia fechar os olhos, levantar-se e ir embora ou até mesmo desmaiar. Quando as cortinas se abriram, lá estavam os 12 atores ? seis rapazes e seis moças ? tão pelados como quando vieram ao mundo. Não usavam, sequer, a tradicional folha de parreira.
A nossa protagonista enfrentava a situação com muita naturalidade. Manteve-se impassível, como se estivesse vendo "Branca de Neve e os sete anões" ? todos muito bem ajambrados, até com excesso de roupas. Na realidade, os excursionistas sofreram uma grande frustração. Afinal, eles esperavam assistir a dois espetáculos ? um no palco e outro na plateia ? pagando apenas um ingresso. Durante o indefectível jantar, após o teatro, ela se manteve calada, incólume às interrogações contidas nos olhares dos seus conterrâneos.
Já no hotel, uma amiga aventurou-se a perguntar à nossa heroína qual a sua opinião a respeito da peça? Sem perder a pose, ela deu uma resposta tão simples quanto surpreendente: "Eu pensei que se tratasse da biografia da Madre Teresa de Calcutá!"
Todos deram uma risada contida. Haveria sinceridade nas suas palavras? Ou ela se passara por inocente (ou ignorante?) para ver o referido espetáculo sem causar celeuma? A dúvida tomou conta de todos. E persiste até hoje!

O autor é colaborador da coluna Opinião