Inserido na primavera embora contaminado por resquícios de um outono que teima em não ir embora e de um verão que parece chegar antecipado o 27 de outubro de 2014 amanhecerá aliviado depois do cansativo segundo turno eleitoral marcado pela agressividade estratégica dos marqueteiros nunca antes vista neste país e com desfecho eleitoral absolutamente óbvio, como se descobre sempre a cada final : o vencedor venceu, o perdedor perdeu e cada eleitor já começa a esquecer em quem votou. Encerrada essa batalha compromissos e programas específicos da campanha perdedora esfarelam-se na derrota, desprezados como inúteis seus milhares de votos. Em contrário, compromissos comuns e aqueles destacados na campanha vencedora se tornam expectativas dependentes de vontades políticas para futura implantação. Mudanças como se sabe não são imediatas, costumam ser lentas e, muitas vezes, nem ocorrem. Esse dia será de muito calor, ainda sem chuvas e sem água nos reservatórios e nas torneiras, com a mesma aparência de um outro dia qualquer desta época do ano. Mas será bem diferente em face do ocorrido na festa republicana da véspera.
Não se percebem ambientes propícios para abalos. Nesse dia as pessoas despertarão e retomarão praticamente sem grandes alterações as rotinas de suas vidas. Estudantes estudam, trabalhadores trabalham, aposentados desfrutam, mesmo com dificuldades, a dignidade do justo ócio e agentes públicos em todos os níveis atuam e velam pelos negócios públicos dos quais somos tanto carentes como dependentes. Apenas a classe política integrada por vencedores e perdedores diante dos frescos recados das urnas quebrarão rotinas e se esforçarão para entender seus reais significados e se ajustar a uma nova realidade perquirida telescopicamente na linha futurística do horizonte. Geralmente pouco se enxerga, o mesmismo poderá se repetir e por aí vamos, como sempre acumulando expectativas e sonhos até um próximo processo eleitoral. Os mandatos conquistados servem para tudo e os mandatos perdidos e não conquistados, apesar de seus milhares de votos, nada valem e aparentemente não desfrutam de qualquer força.
Entretanto não é bem assim. Os votos dos perdedores, em princípio, são válidos e têm o mesmo peso e validade dos votos dos vencedores ainda que não signifiquem conquistas de investiduras. De cada um desses votos se pode recolher, através dos nomes sufragados, opções políticas livremente manifestadas e a inutilidade que carregam frustram cada eleitor e o encaminham para imaginária linha da marginalidade política, porque, fundamentalmente prevalece a manifestação de vontade da maioria. Esse estado de frustração e marginalidade, todavia, merece ser enfrentado e superado por um processo firme e coerente de mobilização incentivada e patrocinada pelos perdedores, uma vez que os milhares de votos recebidos a eles conferem justa legitimação que, além de afastar a marginalização, justifica a continuidade da participação política e acaba por revelar o sentido maior e mais digno dos processos eleitorais enquanto confere aos vencedores legítimo direito à investidura e aos perdedores legítimo direito de acompanhar, fiscalizar e influir na atuação daqueles. O dia depois de amanhã, no fundo, é dia de festa que marca uma vez mais o renascimento de mesmo e eterno binômio situação-oposição, essenciais ao bom processo democrático. Torçamos, pois, para que ambos sejam eficientes e desde o primeiro dia depois de amanhã já comecem a cumprir suas respectivas missões políticas para ventura da pátria.
O autor é advogado e articulista do JC