10 de julho de 2026
Política

Analistas preveem 2015 "apertado"

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 5 min

Com a reeleição de Dilma Rousseff (PT) confirmada na noite de domingo, o mercado financeiro reagiu de forma negativa ontem, dando mostras de que a decisão do povo brasileiro nas urnas não foi bem digerida por investidores externos. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) cai 2,77% nesta segunda-feira e as ações da Petrobras caíram 12,33%. Já o dólar comercial subiu 2,68%, cotado a R$ 2,523 na venda.

João Rosan

Reinaldo Cafeo foi um dos economistas que o JC ouviu ontem

O JC ouviu ontem os economistas Reinaldo Cafeo e Carlos Sette, a coordenadora do curso de ciências econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Salete Rossini Lara, e o empresário José Luiz Miranda Simonelli (Zeca Simonelli), diretor regional da Fiesp em Bauru. Todos foram unânimes em apontar necessidades de mudanças no rumo econômico do País e entendem que 2015 será um ano difícil e ao mesmo tempo decisivo para os rumos do setor produtivo brasileiro.

Atual ministro da Fazenda, Guido Mantega deixará o cargo em dezembro, em decisão já anunciada antes da campanha. O novo ministro ainda não foi definido, mas, ontem, a ‘Folha de S. Paulo’ e o portal UOL trouxeram  a informação de que Luiz Trabuco, presidente executivo do Bradesco, pode ser convidado a assumir o posto. Seria uma tentativa do governo de acalmar o mercado, colocando uma pessoa diretamente ligada ao segmento bancário.


‘Governo precisa passar confiança’

“Se a Dilma não mudar a política econômica, continuaremos com os problemas dos últimos três anos. O primeiro passo é reverter a desconfiança que existe no setor produtivo e no mercado. Depois, o governo terá como desafio retomar o crescimento econômico, até para manter o nível atual de emprego. Um terceiro ponto é o controle do déficit da nossa conta corrente externa, hoje na casa de R$ 80 bilhões. É preciso reduzir esse déficit na balança comercial. E, claro, ter um ministro da Fazenda que passe essa confiança também. Não adianta só o governo fazer marketing, tem que ter resultado, e, em 2015, será preciso apertar o cerco. O remédio é amargo, mas necessário. O ponto-chave é a redução da inflação, pois é a inflação que tira o poder de compra, reduz a margem de lucro das empresas. Hoje, o setor produtivo está sendo muito penalizado, e é setor que gera mais tributos e empregos. Os sinais de mudança no rumo da economia precisam ser rápidos.”

Carlos Sette, economista

‘2015 será de combate à inflação’

“Havia uma expectativa de mudanças no rumo econômico após a eleição, e o Aécio sinalizava isso com mais clareza. Agora, as mudanças precisariam ser feitas seja quem fosse o vencedor, e a Dilma precisa agir na direção de resgatar a confiança do mercado. A dose pode ser menor, mas o remédio é o mesmo. Ela pode até não agir agora, mas sinalizar que vai agir em breve. O próximo ano será de combate à inflação e teremos portanto um crescimento baixo. O modelo atual do governo não controla os gastos públicos, e isso vai ter que mudar em 2015. Há a expectativa de um resgate maior da austeridade. Mesmo que no início isso traga alguns reflexos negativos, no primeiro semestre, será necessário para que o País volte a crescer a partir do segundo semestre e reestabeleça o crescimento a partir de 2016. Para isso, no ano que vem, o governo tem que conter a inflação, sacrificando o consumo. Não vejo como uma situação caótica, estou otimista, o governo da Dilma pode fazer essas mudanças de forma mais demorada do que seria o Aécio, por exemplo, mas pode executar com sucesso.”

Reinaldo Cafeo, economista


‘Preocupação é a instabilidade do mercado’

“É difícil fazer uma análise com base apenas no primeiro dia após a eleição, onde a Bovespa e as ações da Petrobras caíram e o dólar subiu. É preciso assentar a poeira e analisar a médio prazo, e ver o que o governo pretende fazer.  Neste momento, o Brasil está em recessão técnica e a maior preocupação é com a instabilidade do mercado, e independente do resultado, todos vão continuar trabalhando. O setor produtivo sofre com essa falta de confiança na economia, pois as empresas dependem de recursos e investimentos, que estão em baixa. Essa possibilidade do presidente executivo do Bradesco assumir o Ministério da Fazenda particularmente não me agrada. Entendo que ele poderia ir para o Banco Central, porém, a Fazenda deve ser comandada por alguém do setor produtivo, como indústria ou comércio, uma pessoa que tenha mais ligação com a gestão do setor produtivo do Brasil, que sente o impacto negativo da falta de confiança na economia.”

Zeca Simonelli, diretor regional do Fiesp


‘Temos uma crise velada’

“O cenário econômico vai depender muito dos rumos da política nos próximos dias. Esses escândalos da Petrobras, denúncias de corrupção, tudo isso tira a confiança do mercado, que já mostrava descontentamento com a Dilma quando ela subia nas pesquisas e o contrário quando o Aécio Neves ia bem. Entendo que a economia tende a se equilibrar, porém, isso deve demorar um pouco. Os próximos seis meses serão complicados. Deve haver alta de preços que foram contidos até agora. No primeiro semestre de 2015, devemos ter aumento em tarifas como energia, gasolina e isso reflete na inflação. O governo precisa iniciar rapidamente as mudanças, pois, do jeito que está indo, estamos à beira de uma crise, e a consequência direta seria uma alta do desemprego. Os juros da Selic não correspondem ao mercado, vivemos uma crise velada, onde a inflação real não aparece claramente nas estatísticas. o governo segura informação.”

Salete Rossini Lara, coordenadora do curso de economia da ITE