08 de julho de 2026
Articulistas

A educação e a dignidade humana

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Não se sabe exatamente como e quando a escrita surgiu, mas seu nascimento está na origem da civilização. Ela se tornou o instrumento por meio do qual o presente pode transmitir as lições do passado às gerações do futuro e um grande passo em direção à abstração.

O alfabeto apareceu no início do segundo milênio antes de Cristo e mais uma vez, sua origem é envolta em mistério. Os primeiros textos alfabéticos foram semitas e emergiram no território onde hoje está

Israel, ou mais para o sul, no deserto do Sinai. Pela primeira vez, todo conhecimento que poderia ser transmitido fora reduzido a um conjunto de vinte a trinta letras; um conjunto suficientemente pequeno para ser dominado, ao menos em princípio, por todos.

No ocidente a alfabetização universal é uma ideia relativamente recente. A educação primária obrigatória somente passou a existir no Brasil na década de 1930. No entanto, hoje, sabemos que a educação vai além de ler e escrever; ela significa dominar e aplicar a informação e ter livre acesso ao conhecimento, portanto, ela é essencial à dignidade humana. A considero base de uma sociedade livre e é, também, elemento decisivo para a criatividade que representa uma das virtudes mais importantes que um grupo socioeconômico pode ter. Mais do que isso, tornou-se meio importante para o progresso no século 21.

Na antiguidade, a riqueza e o poder se firmavam na propriedade de pessoas, normalmente escravos. No período feudal, na posse da terra. Na era industrial, a riqueza e o poder andavam lado a lado com a propriedade do capital e dos meios de produção. Hoje estão no acesso e no desenvolvimento do capital intelectual, na capacidade de dominar a informação e canalizá-la para fins inovadores.

Os grandes lucros vão para os que têm ideias. As empresas subcontratam a produção e os serviços periféricos para se tornarem proprietárias de conceitos: marcas, logos, imagens e design. Nesse tipo de economia, os que possuem dons intelectuais e criativos estão em vantagem.

No Brasil, o descaso secular com a educação e a perpetuação de um sistema de ensino vergonhosamente falho distorceram os valores de convivência; fizeram prevalecer um estreitamento do horizonte de futuro, exacerbaram a preferência pelo aqui-e-agora em sério prejuízo dos interesses vindouros.

Acrescente-se a isso, como agravante, os efeitos de uma educação familiar deficiente, da qual resultam uma baixa competência no trato com números e letras; o fraco desenvolvimento das faculdades e hábitos mentais ligados à antevisão e à reflexão sobre o amanhã e por fim, uma séria e debilitadora incapacidade de apreciar com realismo as consequências menos imediatas de escolhas envolvendo trocas entre o presente e o futuro. A educação falha tolhe os valores, torna nebuloso o amanhã, é fonte infalível de frustração e mal-estar social, compromete o país e faz explodir a violência.

Sem um maciço investimento em educação de qualidade não há como fazer do Brasil o melhor dos mundos, o grande risco é não se chegar a lugar nenhum: os bons ventos só sopram para os que têm velas a prumo. Não simplesmente a educação básica, mas a avançada, tornou-se necessidade e direito humano fundamental. O investimento na educação é o meio mais importante e por intermédio do qual uma sociedade oferece um futuro digno aos seus filhos.

Escolas, laboratórios, preparação e valorização de professores, fornecimento de computadores e acesso à internet deveriam ser ações prioritárias em países como o nosso. Nenhuma outra intervenção oferece mais perspectivas de aumentar as oportunidades econômicas para todos e de nos fazer avançar na longa e dura jornada para a dignidade humana universal.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru