O Brasil não volta a crescer a não ser quando enfrentarmos o problema do sucateamento da indústria nacional, graças ao fato de ter sido submetida a políticas inadequadas (com destaque para as de câmbio) há pelo menos duas décadas. O problema se agravou nos anos mais recentes quando lentamente a produção nacional foi sendo substituída pelos importados.
Apesar de algumas críticas inspiradas no velho complexo de "vira-latas" que ainda resiste em nossa sociedade, não é por falta de competência do nosso parque manufatureiro que se operou aquela substituição. Foi porque tomaram do setor industrial as condições isonômicas de competição: a alta tributação que pesa sobre o produtor não pode ser inteiramente descontada na exportação; um sistema de tarifas efetivas complica as transações; não funciona mais um mecanismo de "draw back" eficiente; por longo período não se manteve a taxa de câmbio razoavelmente competitiva; e estimulou-se o aumento do salário real muito acima da produtividade, de forma que o setor industrial, primeiro, perdeu a demanda externa que tinha ? ele era exportador eficiente, sempre foi respeitado no comércio mundial. Perdeu, depois, a demanda interna.
Hoje, cálculos mostram "a grosso modo" que nos últimos dez anos foi subtraído da indústria brasileira um montante de recursos equivalente a 300 bilhões de dólares. Se não corrigirmos essas políticas, não vamos voltar ao crescimento: o governo pode fazer o que quiser, mas sem o revigoramento da indústria a economia brasileira não voltará a prosperar. Espero que a presidente Dilma mova seu governo nessa direção. Devemos entender que ainda há um período tormentoso que atinge toda a economia mundial; a Europa continua afundando; os EUA tem uma recuperação lenta, embora um pouco mais firme; a China está reduzindo o crescimento; há uma contração do crescimento econômico no mundo inteiro.
Nosso baixo crescimento não é por conta disso, apenas, mas não se pode fingir que a depressão mundial não nos afeta; o problema é que nós fizemos os nossos erros próprios; o pior de todos quando abandonamos o setor industrial como um todo, procurando dar respaldo a alguns poucos setores ? obviamente importantes ?, mas não ao conjunto da manufatura brasileira. Política industrial não é para reduzir importação. Precisamos de um conjunto de políticas coerentes para aumentar as exportações e as importações; somos um mercado de consumo de mais de 200 milhões, mas o complemento externo não pode faltar para que possamos produzir competitivamente, tanto para exportar quanto para absorver as importações, que não são apenas produtos finais, mas componentes que integram a produção nacional que participa das exportações.
É preciso, então, repensar todos esses problemas: é claro que temos que dar proteção a alguns setores da produção nacional, inclusive nos programas de investimentos, mas com moderação, como se fez no passado. Podemos dar uma margem ao produtor nacional, de até 15% e quem não conseguir acompanhar isso vai ter que ampliar sua produtividade, porque não vamos prejudicar todos os projetos para exigir que qualquer que seja a válvula, ela tenha que ser fabricada no Brasil.
O autor é economista, ex-ministro da Fazenda, e articulista do JC