10 de julho de 2026
Geral

13º salário: chance para realizar os desejos e organizar as finanças

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 12 min

Ele ainda não “caiu” na conta bancária, mas o desejo de devorá-lo já aguça a mente... ou... você conta as horas, com ansiedade visível para que ele, o “salvador da pátria”, finalmente chegue ao seu bolso para dar uma aliviada nas dívidas... ou, o pior, ele ainda nem chegou e já “foi embora”, tal a montanha de dívidas que vão fazê-lo evaporar rapidamente. Esses “sentimentos” acompanham o comportamento do consumidor nesta época do ano, com a chegada do 13º salário e seus atributos de “sonhos” e “miragens”. Mas, para especialistas, quem já tem o vício da gastança precisa ser despertado primeiro a partir dos sonhos.

 

Ou seja, pensar primeiro no desejo material pode ser o caminho mais rápido para o despertar emocional na direção de mudanças reais de comportamento em relação ao uso racional do dinheiro.  

 

Isso porque a ausência de educação financeira e de planejamento arraigados em boa parte da população costumam transformar o salário adicional bendito de todo ano em período de angústia, desânimo. Mas, de outro lado, além de ser oportunidade rara para começar a virar o jogo em sua vida financeira, o conceito do 13º salário pode, sim, servir de alento para mudança. A questão é “treinar” a alteração de postura, comportamento, diante do ganho extra.     

 

Se você conversar com um economista, a cartilha básica de “bom comportamento” diante do 13º certamente trará, entre as palavras chaves, o termo planejamento. Mas utilizar o ganho extra de final de ano com sabedoria contém outros elementos igualmente importantes. No divã, um psicólogo não hesitaria, por exemplo, em lhe sugerir uma avaliação sobre qual seu conceito sobre esse dinheiro extra. E aqui surgem distorções nem sempre enfrentadas.

 

Nesse sentido, a rigor, o 13º salário poderia estar ligado, na origem, aos significados de prêmio e reserva. No primeiro conteúdo, a “terapia” sobre o 13º pode advertir o trabalhador para o fato de que o ganho adicional deveria vir, ao final de cada ano, como estímulo pelo cumprimento da jornada durante o ano inteiro, em cada um dos dias úteis de labuta. 

 

Seria a bonificação pela execução do que foi contratado para os adeptos da relação mais prática da convivência entre trabalhador e empresário. Mas o “extra”, ao invés de prêmio, também pode invocar o sentido do retorno por “um pedaço da mais valia” para os simpáticos ao tom mais esquerdo e “ideológico” do termo.   

 

De qualquer forma, associado ou não a um princípio ou conceito, o 13º pode, para os consultores de empresas que lidam com o mercado de trabalho, promover sentimento de satisfação. Sentido que virá em questões concretas, como a realização da viagem tão esperada, ou do presente que se mostrou impossível de ser comprado nos demais meses do ano. 

 

Mas colocar o trabalhador e sua conduta diante do 13º em um divã também pressupõe discutir a oportunidade de reserva, guardar uma pequena parte para os “sonhos futuros” ou, se algo urgente ou imprevisto surgir, ser utilizado para não deixar o cidadão com ‘de calça curta’ diante de uma emergência. E é exatamente na conversa sobre “sonhos” que a educação financeira pode trazer melhores resultados, opina uma corrente de especialistas.

 

“Salvador da pátria”

 

Com pressa e envolvido na ciranda diária de trabalhar para cumprir seus compromissos fixos, pelo menos os impossíveis de serem cortados como alimentação básica, moradia, contas de energia e consumo de água, transporte, etc, o trabalhador, de fato, não tem nem tempo, nem cabeça, para repensar sua “relação” com o 13º salário.

 

E aí, velhos hábitos, ou a falta deles quando a conversa trata de educação financeira, tornam o uso do ganho extra tão angustiante quanto recomeçar o novo dia.

 

O educador, terapeuta financeiro, e presidente do Instituto DSOP de Educação Financeira, Reinaldo Domingos, lembra que o maior entendimento que se deve ter é que para ter o dinheiro como um aliado, “os gastos precisam ser planejados”. 

 

Mas o fato é que, entra ano e sai ano, e educação financeira permanece como tabu tanto quanto ir a um terapeuta. “É preciso ver o 13º como oportunidade para reorganizar as finanças e assumir de vez o controle de sua vida financeira”, enfatiza. 

 

Na “cultura da gastança”, o consultor adverte que não é só observar o quanto se consome com o “dinheiro, o cartão de crédito”. “Esse é outro erro de leitura muito comum sobre gastos. As pesquisas de economia e consumo demonstram que de 20% a 30% do que consumimos no dia a dia já estão exagerados. E isso não é só com gasto supérfluo e não diz respeito a uso de dinheiro em si”, conta.

 

Reinaldo se refere a exageros comportamentais “velados”. “É desde o lanche a mais no meio do dia até a cantoria embaixo do chuveiro, jorrando água e consumindo energia elétrica, até os impulsos. O antídoto é olhar sim para os exageros, revendo comportamentos em casa e na rua”, inicia.  

 

‘Pessoas perderam a noção de sonhar’

 

O educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos aceitou de pronto, por telefone, a sugestão de levar o 13º para o divã. E na conversa terapêutica ele sugere um exercício emocional, antes do financeiro, para a descoberta do prazer em guardar e gastar.

 

“As pessoas perderam a noção de sonhar. O desafio da educação financeira moderna não é trabalhar a partir de planilhas e de exercícios e conceitos para ensinar sobre o controle de gastos e do quanto recebemos. Mas o caminho é pelo emocional. As pessoas precisam ser estimuladas sobre quais são seus desejos e sonhos. Então você abre perspectiva para a faxina financeira comportamental”, explica.

 

Para Domingos, “ao construir essa relação a partir dos sonhos, a terapia financeira consegue colocar em cena a discussão sobre uma equação: o que ganho, menos os sonhos e depois o que gasto. Se você não conseguir sensibilizar a pessoa de que seus sonhos podem ser realizados, é mais difícil ver em quanto tempo isso é possível ser feito. E isso vale para sonhos simples ou mais caros. A questão é o comportamento diante disso”, prossegue o especialista.

 

A consultoria tem trabalho nesse sentido, conta Reinaldo. “Estimular a motivação para os desejos das pessoas, para seus sonhos materiais. Sem sair do racional, da planilha, elas continuam sem sonhar. Aí sim, acessado o emocional você começa a pensar em tempo, se esses sonhos serão realizados em um, dois ou 10 anos. Não importa, o sonho está lá acessado e sobre eles será pensado o que tenho de ganhar e como vou usar o dinheiro”, completa.

 

“Veja: a pessoa conta que tem vontade de trocar o carro, mas fica travada e não guarda nada todo mês para fazer isso. Acessar o emocional e comportamental para atingir em seguida os hábitos de consumo, mas a partir do desejo de realizar. Este é nosso caminho”, indica o consultor em seu livro “Terapia financeira”.      

 

Dica racional: objetividade

 

Para o consultor de RH Cleber Andriotti Castro, a dica objetiva sobre o uso do 13º é simples: “Se a pessoa já está endividada, deve evitar a todo custo gastar o valor recebido com compras extras. O ideal é que se utilize o 13º salário para quitar essas dívidas. As taxas de juros no Brasil são altas e têm subido ainda mais nos últimos meses, em função do crescimento da inflação. Por isso, fugir delas é o melhor a ser feito”.

 

Caso não haja contas em atraso, pelo menos uma parcela considerável do 13º deve ser guardada, pondera o profissional. Cleber Andriotti Castro é consultor empresarial e financeiro, sócio/consultor da Andriotti & Castro Consultoria, docente na pós-graduação da FGV, palestrante e formado em administração de empresas.  

 

“Sempre há gastos extraordinários, como presentes para as festas de fim de ano. Mas com um pouco de criatividade é possível comprar presentes para a família e ainda poupar”, comenta.

 

Mas o que deve fazer quem não recebe o 13º? Para esses profissionais, Andriotti diz que o ideal é que “eles separem um valor todo mês para que consigam, ao final do ano, suprir a ausência dessa quantia extra. Assim, conseguirão ter uma folga financeira que os permitirá pagar sem sustos as temidas contas do início do ano, como Imposto de Renda, IPTU e IPVA, por exemplo”. 

 

Já no período de férias, em que cada vez mais famílias buscam viajar, deve-se ter em conta que alguns benefícios, como vale-alimentação ou vale-refeição, são suspensos. Ou seja, neste caso parte das férias deve ser utilizada como substituta do salário para honrar os compromissos da casa. Aqui, de novo e sempre, planejar é essencial. 

 

Comportamento sobre o consumo

 

A sedução pelo consumo pode gerar, como enfatizam os especialistas tanto em economia e comportamento, o impulso, muitas vezes, na direção da despesa supérflua, desnecessária.

 

E é neste momento da decisão da compra que reside a maior dificuldade, o controle no limiar da racionalidade. “Talvez, neste exato momento, muitos leitores já estejam a postos  para cumprir o ritual de todos os anos: se valer do 13º para realizar inúmeros desejos de consumo”, traz a terapeuta cognitivo-comportamental Mauriceia Quinhoneiro.

 

Mas, afinal, que motivações estão por traz dessa reação nas pessoas? “Idealizações e crenças disfuncionais de inadequação, não estima ou inferioridade impedem que muitas pessoas consigam manter uma relação saudável com os bens de consumo. Elas se tornam dependentes de aquisições supérfluas para se sentirem aceitas e integradas em determinados grupos sociais impostos como referência de valor e status”, aborda.

 

Assim, além do prejuízo em termos de saúde emocional e relacionamento interpessoal, compradores compulsivos, ou quase, acabam também acumulando dívidas e amargando significativo prejuízo financeiro, prossegue a psicóloga.

 

“Felizmente sempre é possível resistir aos encantamentos efêmeros dos inúmeros produtos e serviços disponíveis, especialmente nesta época,  e exercitar o autocontrole  em prol de um consumo eficiente e, quiçá, sustentável”, defende.

 

Quinhoneiro sugere alguns ‘passos’ para aqueles que estão dispostos a fazer as pazes com o 13º e mantê-lo por perto por mais tempo.

 

Aprenda diferenciar desejo de necessidade. “Vestir-se bem, para muitos, pode ser uma necessidade. Porém, dá pra viver perfeitamente bem sem aquela outra calça cujo tom é bem parecido com outra comprada no mês passado”.

 

Dispense a síndrome da injustiça e a inversão de valores: “Trabalhei tanto este ano que eu mereço aquela bolsa caríssima, mesmo estando acima do meu orçamento”. A terapeuta argumenta que, na verdade, o maior prêmio para nossos méritos é a atenção, o reconhecimento, a colaboração e os abraços daquelas pessoas que escolhemos para compor a nossa vida. Se ainda assim sobrar dinheiro para a tal bolsa, ótimo. Se não, ótimo também.

 

Parece óbvio, mas veja esta dica: pense antes de comprar. “Ceder ao primeiro impulso pode ser um grande erro. Dê uma volta, duas voltas, três voltas. Considere outras possibilidades e, se mesmo assim achar que a vale a pena, retorne ao ponto inicial e realize a compra. Nesses casos, é muito comum a mudança de planos”, sugere.

 

Caso não estejam tão seguros quanto ao autocontrole, não andem com cartão de crédito ou grandes quantias de dinheiro no bolso. Bons negócios e oportunidades não vão fugir de você de um dia para outro. Se for o caso, retorne no dia seguinte, ou não”, acrescenta Quinhoneiro.

 

Assim, “aprenda a usufruir dos prazeres gratuitos, ou quase, que a vida nos proporciona. Com boa vontade e criatividade é possível se divertir sem precisar ir à falência. Muitas vezes, o menos é mais, e ostentar tende a ser cafona. Seja simples!”, pondera. 

 

Por fim, Mauricéia lembra que a saúde emocional depende também de uma boa saúde financeira. “Gastar mais do que ganha e não manter reservas para projetos a médio e longo prazo é tão nocivo quanto renunciar totalmente aos prazeres e privilégios que poderiam ser proporcionados pelos rendimentos conquistados. Trata-se de uma questão de equilíbrio. Dinheiro e bens de consumo devem estar a nosso serviço. Nunca o contrário”, finaliza. 

 

Em busca da faxina financeira: eliminar e planejar

 

Para quem já está com a corda no pescoço e o salário é bem inferior ao “valor” dos sonhos, a continha racional tem de levar em conta as despesas ocasionais já conhecidas.

 

Ou seja, é preciso elencar quanto terá de ser gasto com festas de Natal e Ano Novo, férias escolares e familiares, matrícula da escola, IPVA, IPTU, material escolar. Tudo isso deve ser colocado no orçamento, não tem jeito.

 

Assim, feita a “faxina financeira” inicial, cortando gastos, comece a planejar desde já. Para o consultor Reinaldo Domingos, o caminho a ser trilhado leva em conta, sempre, fazer escolhas dentro de seu padrão de vida.

 

“Só sabe quanto pode gastar, sem ficar no vermelho, quem sabe exatamente quanto entra e quanto sai do bolso mensalmente. E, com base nisso, define quanto e com o que pode gastar. Mesmo quando é necessário entrar em um financiamento para a realização de determinados sonhos que não são acessíveis de outra forma, é importante avaliar se as parcelas, de fato, caberão no orçamento, levando em conta todas as outras despesas e demais sonhos de curto, médio e longo prazos”, cita.

 

Portanto, antes de ir compulsivamente às compras de fim de ano, faça um diagnóstico da sua situação financeira. “Relacione todas as despesas fixas e variáveis para descobrir o comprometimento dos seus ganhos com as dívidas. Investigue para onde está indo cada centavo dos seus ganhos. Só assim conseguirá saber quais são os gastos supérfluos que podem ser eliminados. Verifique se está endividado, ou seja, se já tem mais despesas do que seu bolso suporta”, elenca o consultor. 

 

Por fim, certifique-se de que, mesmo estando no azul, vai conseguir pagar as compras que pretende fazer nesse final de ano, cujas parcelas se arrastarão pelo ano seguinte, somando-se aos gastos extras com impostos e escola.

 

Para quem já tem perfil investidor, o décimo terceiro é oportunidade para incrementar o investimento. “50% pode ser destinado para alguma aplicação que a pessoa já possua e outros 50% pode servir para planejar um salto em direção à sua independência financeira, investindo, por exemplo, em previdência privada”, cita Domingos.

 

E lembre-se: fim de ano também é tempo de fazer planos para o futuro. Aproveite para reunir a família, inclusive as crianças, para conversar sobre o que querem realizar nos próximos anos, sugere o consultor. 

 

“Definam três sonhos prioritários que tenham diferentes prazos a serem realizados - curto (até um ano), médio (até dez anos) e longo (acima de dez anos). Esse será um fator de motivação para ajustar e conduzir o orçamento familiar”, conclui.