08 de julho de 2026
Geral

Finados: luto é um momento de reflexão da vida

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 6 min

A morte segue como um dos grandes tabus na sociedade pós-moderna, sobretudo no mundo ocidental. Mas o que leva as pessoas a ter tamanha resistência com o fim da existência física e terrena? A perda de um familiar ou de um grande amigo, por exemplo, marca a vida das pessoas, que em geral passam a exaltar mais aspectos positivos do que negativos do ente falecido – muitas vezes, os aspectos negativos são completamente esquecidos e apenas o lado bom da pessoa que se foi é lembrado.

 

Para o Prof. Dr. Florêncio Costa Júnior, psicólogo e professor da Universidade Sagrado Coração (USC), a dificuldade em aceitar a morte é um dos motivos principais para que os aspectos positivos sejam ressaltados.

 

“Essa ideia de valorizar o lado positivo tem uma explicação para a psicologia, e está associada ao sentimento de perda. É uma tentativa de manter uma história que foi embora, de haver uma continuidade. É comum quando se passa por situação de perda por luto patológico, por exemplo, que haja essa valorização, que chega a ser a criação de uma imagem da pessoa falecida”, analisa o docente.

 

“Muitas vezes, o vínculo foi pouco satisfatório em vida, mas há uma tentativa de resgate da memória. Nem todos agem assim. Para algumas pessoas, a perda de um ente querido pode ser uma experiência de libertação. Tudo depende muito do vínculo estabelecido em vida”, menciona.

 

Aceitação

 

Florêncio explica que a cultura ocidental pós-moderna acabou desvalorizando o ato da morte. “A tanatologia é a área em que vários ramos da ciência se debruçam para analisar o fenômeno da morte. E dentro desse campo de estudo, temos que considerar que vivemos em uma cultura ocidental que desvalorizou a morte, criando um referencial negativo relacionado a morte. A morte passou a ser vista como um fracasso. Celebramos a vida, o nascimento, os aniversários, mas deixamos de entender a morte como um processo natural”, pontua o psicólogo.

 

O não aprofundamento do tema acaba levando a um distanciamento da ideia do fim existencial no plano físico. “O fato de falarmos muito pouco da morte tem consequências, e uma delas é essa desvalorização. E tudo que se aproxima da morte tende a ser negado. Uma das coisas que nos aproxima da morte é a velhice, e por ela sinalizar o momento da vida em que estamos próximos do final, acaba se desvalorizando a velhice. Em outras culturas, onde o fenômeno da morte é valorizado, a velhice é encarada de maneira bem mais positiva”, ressalta Florêncio.

 

Distanciamento

 

Até a metade do Século XX, boa parte das pessoas morria em casa. A partir da urbanização dos países ocidentais, o acesso a serviços de saúde tornou-se mais comum, e se isso impactou positivamente no tratamento e prevenção de doenças, acabou por ‘esfriar’ o processo da morte.

 

“Antes as pessoas morriam em casa, e hoje os serviços de saúde acabam mediando o processo da morte”, reforça o psicólogo. “Cada um pode explicar a morte de uma maneira, como as religiões, e eufemismos podem ser usados, mas a morte é um fenômeno natural e que as pessoas tendem a evitar”, resume Florêncio.

 

O professor de Filosofia Fausi dos Santos comenta que a morte em ambientes como os hospitais passou a dar outro sentido a experiência do fim terreno. “Onde se morre hoje? Em geral, nos hospitais. Tornou-se algo distante. E quando a gente fala na morte, fala do outro, nunca em primeira pessoa. Se discute a morte se desfazendo da morte”, avalia. 

 

“Ou então ela é vista como espetáculo, na mídia. Mas é sempre a morte do outro, e fora de uma dimensão humana e existencial. E a ideia de ‘santificar’ o morto é uma tentativa de desvincular daquela pessoa a existência dela, e inseri-la em um outro plano, imaculado, onde ela estará livre de qualquer imperfeição. É uma tentativa de salvar a memória de alguém que faleceu. E isso tudo é reflexo da forma como a sociedade encara a morte, empurrando-a para debaixo do tapete”, reitera o professor de Filosofia.

 

Para Fausi, a desvalorização da vida é nítida nos dias atuais. “As pessoas recorrem cada vez mais a ansiolíticos, álcool, tabaco e drogas. Afasta-se da vida e vive-se uma realidade paralela. Se a vida parece sem sentido, a morte também não terá sentido”, reflete.

 

Repensar a vida

 

O espaço da morte do indivíduo refletia diretamente na aceitação do fim, pondera Fausi. “Antes, a pessoa morria em casa, e havia toda uma preparação para o final da vida. O entorno da pessoa se mobilizava para o momento. E viver o luto é importante, pois é quando se reavalia a vida, os valores e as atitudes. É quando nos questionamos o sentido que damos à vida, o que fizemos até hoje e o que vamos deixar, não materialmente falando, mas no plano existencial. Estamos dando significado à vida?”, questiona.

 

“A busca do elixir da existência eterna vem desde os primórdios do homem, e hoje com o avanço da Medicina se vive cada vez mais. Porém, há um limite. Pode-se chegar a 100, 120 anos, mas um dia a existência física se esvai. O principal já não é quanto vamos viver, mas a qualidade dessa vida”, resume.

 

‘Capitalismo dificulta a aceitação da morte’

 

Fausi dos Santos relata que o capitalismo dificulta a aceitação da morte. “Você não existe enquanto pessoa para o sistema, mas sim como um número, um CPF, alguém que consome. Você é um produto. E esse produto faz circular uma quantidade imensa de capital para manter a aparência, a estética. Mas não se pode ignorar o fim, e a nossa sociedade está doente, basta ver o aumento de suicídios no mundo. As pessoas veem uma vida sem sentido, ao mesmo tempo em que os recursos materiais aumenta, o grau de felicidade está diminuindo, sendo que teoricamente seria o contrário. É o paradoxo do pós-modernismo”, declara Fausi. “Tenta-se suprimir os dilemas existenciais pelo consumo. E a finitude é deixada de lado também”, completa.

 

Já o psicólogo Florêncio Costa Júnior vê os processos produtivos como inerentes à vida social. “A cultura que tem um nível de produtividade, tende a relacionar uma pessoa ao quanto ela produz na sociedade. A nossa cultura tem dois extremos, que é o não-lugar da infância e adolescência e o outro é a velhice. São os dois extremos onde não há produção de bens materiais, mas há produção de sentido, de bens culturais, mas isso é pouco valorizado na sociedade”, relata.

 

A valorização excessiva da juventude e da felicidade material é outro empecilho para encarar a morte. “Nós não temos espaços para discutir a morte. Somos mergulhados em um universo de jovens, corpos sarados, apresentando vida em abundância. O corpo ideal e a alegria tomam conta, ignorando qualquer discussão mais profunda sobre a finitude”, comenta o professor de Filosofia Fausi dos Santos. 

 

“Discutir a morte é discutir a vida. O que estou fazendo na vida? Em sociedades tribais isso está muito mais presente, com rituais marcados, como o batismo. É a morte de uma etapa anterior e o nascimento de uma nova etapa. E a morte como fenômeno físico é encarada de maneira mais natural”, argumenta. “A nossa sociedade é dessacralizada. Ainda há rituais, mas em escala bem menor”, completa. Sobre a religião, Fausi dos Santos avalia que a forma como a pessoa vê Deus é decisiva na hora do fim. “Pessoas que têm a imagem de um Deus punitivo costumam sofrer mais, temem o que pode vir. Já aqueles que levam uma imagem de um Deus que caminha junto, tendem a ter um fim mais tranquilo”, conclui.