09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: ABDA - o projeto da oportunidade

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Bauru está às vésperas de sediar a maior competição de esportes do Interior de São Paulo, os Jogos Abertos do Interior (em 17 de novembro). O Brasil está próximo de sediar o maior evento esportivo do mundo - Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016. Os Jogos Abertos são famosos por revelar atletas de futuro para o mundo, nas grandes Olimpíadas. A revelação de esportistas de alto rendimento vai além das competições. Na base, precisa de planejamento, investimento e visão. O momento esportivo é ideal para se entender o que está sendo feito aqui, cidade que tem tudo para se tornar o grande celeiro de atletas de alto rendimento. Em três esportes - natação, atletismo e polo aquático -, muita gente não sabe que há aqui uma revolução silenciosa. Essa revolução leva o nome de Projeto Futuro através da ABDA - Associação Bauruense de Desportes Aquático. Um projeto apaixonante. Para ter certeza disso basta ouvir os dirigentes, coordenadores das três modalidades: Áttila Sudar, Daniel Pestana e cabo Alcides dos Santos Gonçalves. 

Jornal da Cidade - Quem são os três?

Cabo Alcides dos Santos - Atletismo -  “Poderia pensar em aposentadoria”. Professor, preparador físico e técnico, pós-graduado em performance corporal, postura. O mais recente a entrar neste projeto. (Uma curiosidade, ele fala a idade, 76 anos, em algarismos romanos - LXXVI - algo bastante desconhecido de seus alunos). 

 

Áttila Sudàr - Polo aquático -  um dos ícones do esporte mundial, ex-jogador da seleção de polo aquático da Hungria campeã olímpica em Montreal, no Canadá, em 1976, e bronze em Moscou, na Rússia, em 1980. Tem 60 anos e, após vir dar clínicas da modalidade em Bauru, aceitou o convite para treinar a modalidade. Trouxe a mulher e dois filhos, de 8 e 10 anos, que já fazem parte das equipes. O maior mora na Hungria e é veterinário. 

 

Daniel Pestana - Natação - Ex-atleta, 28 anos, bacharel em educação física, em fisioterapia, especializado em fisiologia do exercício. Atualmente é coordenador da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos, docente da Faculdades Integradas de Bauru, técnico de natação do Bauru Tênis Clube e assessor técnico desportivo da Prefeitura Municipal de Bauru. 

 

JC - Por que estão aqui?

Cabo Alcides - Eu já estava quase entregando os pontos. Desistindo. Já fiz tanta coisa. E eis que Deus me dá uma nova chance dessas”. (Desistir não é palavra fácil no vocabulário deste homem).

Áttila - Gosto daqui, gosto do calor, não uso nem carro, ando pela cidade com uma Honda Bizz (moto). Esta é uma cidade maravilhosa, se estiver muito quente estou ao lado da piscina, é só dar um mergulho. Para mim é um desafio ajudar os jovens e vê-los crescer. É muito bom. 

Daniel - Estou desde o início (começou a ser gestado desde 2009)  quando o Cláudio Zopone (da Zopone Engenharia) idealizou. É um desafio estar num projeto desses com pessoas identificadas com o lado social, ver o Jr. (também da família Zopone) preocupado em tirar os jovens de caminhos ruins. Isso é fundamental. E o bom é que cresceu muito. Hoje são 16 empresas parceiras.

 

JC - No País do futebol, o que pensam dele e quem são seus ídolos?

Daniel - Sou corintiano mas não sou fanático. Gosto de todos os esportes. Em se tratando de Brasil, torço por todos os esportes, gosto do basquete. Neymar é o ícone hoje, mas eu falo para os jovens nadadores que temos que ter espelhos. E na natação temos muitas referências recentes, boas, o Cielo (César), Tiago Pereira e os mais antigos como Gustavo Borges e Rogério Romero.

Cabo Alcides - Sempre convivi com  futebol, fui preparador do Noroeste, da Portuguesa, do Matsubara, gosto mesmo é da seleção brasileira. Sem dúvida Neymar é o ídolo hoje, mas há um outro exemplo que não podemos esquecer - Rogério Ceni. E tem também os do atletismo - o João do Pulo, Nelson Prudêncio, Jadel Gregório, as nossas referências são positivas. Homens que tiveram acima de tudo a superação.

Áttila - Meu País não está mais bom no futebol, a Hungria foi muito boa no futebol no passado. Sou da terra do lendário Puskas. Mas hoje, além de Neymar tenho como referências Messi e Ibrahimovic. Gostei muito também do Zidane quando jogava.

(Puskas foi o maior nome da seleção húngara que encantou o mundo, quando ganhou os Jogos Olímpicos de 1952, em Helsinki, na Finlândia e provocou a primeira derrota da história da Inglaterra no Estádio de Wembley, em Londres - 6 a 3, em 1953).

 

Sobre Jadel Gregório e os Jogos Abertos...

Cabo Alcides - Ele deverá vir competir aqui e é ótimo que o público, que o jovem veja grandes nomes em ação. Isso estimula. Vamos estar lá para aprender com os grandes. Vamos entrar por enquanto só para participar.

Áttila - Do  polo aquático só vamos ter jogos demonstração (dia 24) entre nós mesmos. 

(A expectativa é para que no futuro o polo, que tem times no interior em Jundiaí, Santos e agora Ribeirão Preto, possa ser incluída não apenas como modalidade de exibição.)

 

Áttila, você próprio é o espelho, orgulho...

Áttila -  Sim, mas o mais importante é o aluno prestar atenção no mestre, se esforçar, ter disciplina, crescer, isso é um orgulho. Por exemplo: quando cheguei há dois anos, perdemos o primeiro jogo para o Paineiras (do técnico cubano Frank Diaz) por 28 a 1. As crianças não sabiam nadar, nem passar bola, nem o que era uma jogada de homem a mais. Há poucos dias ganhamos de 15 a 13, contra  o mesmo time e mesma equipe. Essa é a evolução.

 

Você são disciplinadores...

Áttila - Sou muito exigente e mais ainda na questão do horário, pontualidade. Cheguei aqui e estranhei: marcava para as 8h e chegavam às 8h30. Tinha um treino às 14h e o primeiro a chegar era às 14h30. Isso mudou. É uma questão de respeito...

Cabo Alcides - ...Se não paga castigo, vai rodar o campo correndo (no polo vai nadar borboleta) vai correr atrás do que o outro fez, nadar mais,  tirar o atraso, tem que ter disciplina, tem que ter respeito.

Daniel - Claro que horário é fundamental, ser rígido também. Mas penso que nos dias de hoje não precisamos de tirano, técnico tem que saber conversar, entender o atleta e tirar o melhor dele.

 

Falando nisso... o que esperar da natação nos Jogos Abertos?

Daniel - Já estamos com promessas, embora não tenhamos os melhores índices, mas os atletas mais bem cotados são os que participaram do Troféu José Finkel, o Campeonato Brasileiro Absoluto de Natação, o Carlos Eduardo Lanças e a Delie Fernnada de Moraes. Eles já estão dando retorno.

 

E no geral para o futuro, o que esperar?

Áttila - Daqui a dois anos? Ganhar muito mais campeonatos e revelar atletas, de ponta, se não for atleta da seleção adulta, três a quatro jogadores juniores, sub-18 na seleção.

Cabo Alcides - Ter velocistas em condições de competir bem no nível nacional e internacional. Penso que a vocação de Bauru é para ter bons velocistas, um excelente revezamento.

Daniel - Vamos ter bons atletas, com bons índices, tenho certeza. Participando cada vez mais de competições só evoluiremos. Mas o mais importante é continuar investindo na base, dar uma esperança para esses jovens.

(Esperança é a palavra-chave dos três, que valorizam muito a família... e o investimento da ABDA (hoje são 16 os parceiros) e até por ser o mais novo, sonha em ver um atleta revelado por aqui disputando uma Olimpíada - “não no Rio, claro, mas no futuro breve.”

 

O que é o Projeto Futuro

 

 O Projeto Futuro foi idealizado por um empresário bauruense, que, por ter sido jogador de polo aquático, quis dar a outros as mesmas oportunidades que teve no esporte. Isso muitos já sabem. O que poucos sabem é que colocado em prática em quatro anos já ampliou sua atuação, não ficou só na natação e polo, hoje atua no atletismo também. E as duas modalidades iniciais já têm trazido medalhas. Não era para ser diferente. Criado em setembro de 2010, o Projeto Futuro visa à inclusão social de crianças de baixa renda e a formação de atletas de alto rendimento nas modalidades de natação e polo aquático, bem como a integração de seus participantes e colaborados com a comunidade, gerando oportunidades de crescimento intelectual, econômico e social. E deu origem a uma Associação - a ABDA - Associação Bauruense de Desportes Aquáticos. Quase dois anos depois o projeto já atendia 1.500 crianças, sendo 90% de baixa renda. E quatro anos depois, desde que foi lançado, os atletas já ganham medalhas fruto do incentivo.