09 de julho de 2026
Articulistas

As urnas deram seu recado

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 2 min

Não gosto muito dessa frase do título tão popular no período eleitoral. Afinal, as urnas não dão recado nenhum, no máximo anotam o recado que a população registra nelas. Mas desta vez o principal recado das eleições não foi contabilizado nos votos finais e, muito menos, ficaram totalmente registrados nas urnas. Basta pegar os números totais das eleições para ver o tamanho da rejeição ao sistema político-eleitoral brasileiro.

Os "não-votos", como gosto de chamar a soma dos votos nulos, brancos e abstenções, atingiram altas somas, principalmente quando olhamos os números de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas antes de comentar esses dois casos, é preciso registrar que neste segundo turno o percentual de não-votos no Brasil para presidente foi 26,1% (contra 38,2% de Dilma e 35,7% de Aécio). Uma queda de 0,6% quando comparado com 2010.

Porém, os números mais significativos vêm dos dois Estados que tiveram as maiores manifestações em junho de 2013: Rio de Janeiro e São Paulo. Não vou me deter nessa aproximação dos não-votos com as "Jornadas de Junho", mas esse é o caminho que indico para quem quiser analisar as eleições e os acontecimentos que mobilizaram o Brasil ano passado.

Mas vamos aos números. Neste ano, São Paulo repetiu 2010 e elegeu Alckmin como governador no primeiro turno. Em 2010, o governador obteve 11,5 milhões de votos contra 8 milhões de Mercadante e 7,5 milhões de não-votos. Quatro anos depois, Alckmin aumentou seu eleitorado para 12,2 milhões e os não-votos foram para 10,6 milhões. Skaf, o legítimo terceiro colocado, ficou com apenas 4,5 milhões. Ou seja, neste ano, 33,2% dos paulistas resolveram não votar, 8,3% a mais que em 2010. Evidente que parte dos 6,2 milhões que se abstiveram estavam viajando ou em alguma situação que os impediram de votar, mas mesmo assim não fizeram questão de participar da "Festa da Democracia".

No Rio de Janeiro, a situação é ainda mais representativa, uma vez que o grande vencedor foram os não-votos, com 4.348.950 de não-votos contra 4.343.298 de sufrágios para Pezão. Aqueles que optaram não participar das eleições para governador do Rio de Janeiro foram 5 mil a mais do que os que "reelegeram" o governador fluminense.

Com esses números em mãos, políticos e população precisam parar e se perguntar: qual a representatividade de uma presidenta que não recebeu 61,8% dos votos? Como Pezão vai governar, se ele só foi eleito graças a um sistema eleitoral que ignora parte dos votos? E o Alckmin e os políticos de São Paulo, que moral têm entre os paulistas para um terço da população não dar-lhes votos afirmativos?

Neste ano, os eleitores deram seu recado: o sistema político-eleitoral brasileiro está falido e precisa ser refeito com uma ampla reforma política. Resta saber se os políticos vão continuar a ignorar a voz do povo. Qualquer coisa, as ruas estão à nossa espera, sempre!

O autor é jornalista e filósofo