09 de julho de 2026
Geral

Cresce participação das mulheres em casa, nos estudos e no trabalho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A lendária “queima de sutiãs” de Atlantic City, em que ativistas norte-americanas protestaram contra a opressão a que as mulheres estavam submetidas, completou 46 anos. Mas, até hoje, o sexo feminino - não mais tão frágil - continua conquistando novos espaços na sociedade. E elas sabem que ainda há muito a alcançar.

 

Segundo estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres bauruenses estão estudando mais, ocupando mais espaço no mercado de trabalho e contribuindo mais para as finanças da casa. Ainda que continuem ganhando menos do que os homens, também conseguiram, nos últimos dez anos, reduzir esta diferença.

 

Houve diminuição, ainda, no número de adolescentes grávidas entre 15 e 17 anos. São dados expressivos que compõem as “Estatísticas de Gênero - Uma análise dos resultados do Censo Demográfico 2010”, produzidas pelo IBGE em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e a Diretoria de Políticas para Mulheres Rurais e Quilombolas do Ministério do Desenvolvimento Agrário (DPMRQ/MDA).

 

De acordo com o levantamento, que compara dados dos censos demográficos de 2000 e 2010, o número de mulheres com ensino superior em Bauru cresceu 85%, ante o aumento de 73% entre os homens. Em 2010, elas eram 21.576 e eles, 17.125 pessoas formadas. 

 

“É algo perceptível, inclusive, nas pós-graduações. Hoje, em boa parte das áreas, a maioria dos alunos é composta por mulheres”, comenta a economista Salete Rossini Lara, coordenadora do curso de ciências econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE).

 

À medida em que elas passaram a estudar mais, houve redução de 31,7% no número de meninas entre 15 e 17 anos que engravidaram precocemente. Em 2000, eram 1.685 garotas e, em 2010, 1.150 adolescentes com filhos na cidade.

 

O estudo também aponta que as mulheres se inseriram ainda mais no mercado de trabalho, aumentando, inclusive, sua contribuição para as responsabilidades financeiras da casa. Em 2010, elas respondiam por 39% do total da renda familiar, ante os 33% contabilizados dez anos atrás. 

 

Salário menor

 

Da mesma forma, o percentual de mulheres responsáveis, sozinhas, pelo sustento dos filhos também cresceu - de 22% para 37% das famílias bauruenses. Nestes casos, quase sempre, elas não possuem marido.

 

Os salários da mulher, no entanto, ainda continuam inferiores aos dos homens, ainda que ela tenha conseguido diminuir esta diferença ao longo da década. Em 2010, passaram a receber 63,3% dos rendimentos masculinos, ante os 56,46% pagos em 2000.

 

Além de mais conhecimento e independência financeira, a mulher também conquistou, em sua história recente, garantias importantes, como o reconhecimento de direitos trabalhistas às empregadas domésticas e a Lei Maria da Penha, que reconheceu como crime a violência doméstica.

 

É o que destaca a historiadora e feminista Lídia Maria Possas, professora doutora e coordenadora do grupo de pesquisa “Cultura & Gênero”, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília.

 

“Houve um grande avanço, mas os papéis de gênero ainda são muito arraigados. A mulher ainda continua sendo alvo de violência no âmbito privado e de preconceito no seu dia a dia. Qualquer falha que ela tenha pode vir associada a um tom jocoso pelo simples fato de ela ser mulher. Também por ser mulher, ela pode ter mais dificuldade para conseguir, por exemplo, uma promoção no trabalho”, analisa.

 

Menos culpa, mais pressão

 

Para a historiadora Lídia Maria Possas, ao longo dos anos as mulheres conseguiram se livrar, em algum grau, da culpa que carregavam por não se dedicar mais exclusivamente aos afazeres domésticos e às atribuições maternas. Mas, em contrapartida, se viram diante de um cenário extremamente hostil, em que precisam demonstrar maior eficiência para competir de igual para igual com os homens em um mercado extremamente concorrido. 

 

Da mesma forma, sofrem pressão social se decidem não ter filhos. Ou, quando decidem tê-los, precisam se desdobrar para desempenhar as funções de mãe, trabalhadora e mulher. “Mesmo quando são casadas, quase sempre encontram resistência dos maridos, que se negam a compartilhar as responsabilidades da casa. Essa mudança de papéis ainda não aconteceu como deveria”, finaliza. 

 

Índice de mulheres com carteira assinada é maior que de homens

 

Outra novidade trazida pelo estudo do IBGE é que o índice de mulheres com carteira assinada já superou o dos homens. Hoje, do total de trabalhadoras do sexo feminino, 59,3% possuem emprego formal, enquanto este percentual, entre eles, é de 58,7%.

 

Já entre os que trabalham por conta própria, os homens ainda se mantêm como maioria. Mas, ao longo da década, elas tiveram um pequeno avanço (de 14,4% para 15,2% do total de mulheres ocupadas), enquanto o número de empreendedores do sexo masculino sofreu redução (de 24,8 para 22,3% entre os homens ocupados).

 

“Está havendo uma mudança muito grande no mercado de trabalho. As conquistas são inegáveis, até porque nós, mulheres, lutamos muito para isso”, pondera a economista Salete Rossini Lara.

De acordo com o levantamento, do total de trabalhadoras em Bauru, 1% está empregada na agricultura, 10,2% na indústria e 88,9% no setor de comércio e serviços.

 

‘Sempre lutei pela minha independência’, diz bancária 

 

Aos 18 anos, mesmo com o conforto financeiro oferecido pelos pais, Alessandra Vieira decidiu que queria trabalhar. Ao mesmo tempo em que cursava a faculdade de direito, conseguiu um emprego como secretária, depois foi vendedora em uma loja de perfumes e, hoje, aos 33 anos, trabalha como bancária.

 

Sete anos antes, ela havia se tornado mãe de Pedro. O relacionamento com o pai da criança não deu certo e a jovem, ainda morando na casa dos pais, decidiu que queria ter independência não apenas financeira, mas também, de vida.

 

“O Pedro tinha dois anos quando quis morar sozinha. Os meus pais assumiam muitas responsabilidades em relação a ele e eu vi que iria acabar me tornando ‘tia’ do meu próprio filho. Eu sempre lutei pela minha independência e entendi que aquela era a melhor decisão que eu poderia tomar por mim e por ele”, comenta.

 

Apesar de contar com uma contribuição financeira do pai do menino, ela conta que a maior parcela dos custos e toda a responsabilidade sobre a criança é, de fato, dela. Hoje, é ela quem leva e busca o filho na escola, assim como nas atividades de que ele participa, como natação, futebol e terapia psicológica.

 

De volta para casa, faz o jantar, brinca e lê histórias para que o pequeno adormeça. “Sou muito feliz com tudo o que fiz e faço. Queria ter mais tempo para o meu filho, mas consigo entender que o tempo que eu passo longe é para garantir que ele tenha a melhor vida possível”, diz.