08 de julho de 2026
Articulistas

O muro

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Há exatos 25 anos o povo de Berlim, munido das ferramentas que pôde encontrar, derrubou o que os ocidentais chamavam de "muro da vergonha" e, os países do leste europeu de "proteção antifascista". A barreira de 150 quilômetros, durante 28 anos separou a Alemanha. A reunificação foi possível com a perestroika, a reorganização do sistema econômico soviético iniciado por Mikhail Gorbatchov. O último presidente da União Soviética, para os comunistas, é o responsável pelo caos que acompanhou a decomposição do marxismo-leninismo-stalinismo. No Ocidente ele é respeitado pela sua decisão de ter renunciado ao uso da força para reprimir as aspirações democráticas dos cidadãos dos países satélites. A Porta de Brandenburgo, que era o símbolo da divisão de Berlim, leva no topo a célebre quadriga romana, batizada de "A coragem da liberdade". Hoje, em Berlim, oito mil balões iluminados reconstituem uma fronteira luminosa no que antes foi um trecho do muro. O show musical em comemoração termina com o coral "Ode à Alegria", da Nona Sinfonia de Beethoven.

Estive em Berlim no último ano antes da queda. A estatística informava que 389 pessoas haviam sido mortas na tentativa de atravessar a fronteira. Ainda se viam mães e avós munidas de binóculo acenando lenços para os parentes que ficaram do outro lado. O muro era mais baixo do que imaginava. Na verdade eram dois, separados por uma terra de ninguém, com cercas de arame farpado e terreno minado. A vigilância era feita em torres, por guardas armados de fuzis e metralhadoras. À noite, diziam que a faixa iluminada poderia ser vista da lua. O muro era o maior mural de grafite do mundo, cheio de recados políticos em todas as línguas, declarações de amor, frases poéticas, portas e escadas falsas pintadas. Era um "metamuro", como resumia uma das frases. Outro escrito soava profético: "Um muro é bello quando dura poco". Também guardei na memória o símbolo dos anarquistas: o "A" dentro de um círculo, com a perna direita em forma de flecha saindo do círculo.

Hospedei-me num hotel de nenhuma estrela, bem em frente ao Canal do Exército. Um lugar até aprazível, com salgueiros e bancos que serviam de base ao encontro de casais gays e prostitutas. O canal tem sua importância histórica porque nele atiraram o corpo de Rosa Luxenburgo depois de espancada e fuzilada por milicianos. A mártir do socialismo é homenageada com uma placa à margem do canal, com um poemeto de Bertold Brecht chamando Rosa de "vanguarda dos operários alemães, morta por ordem dos opressores. Oprimidos, enterrai vossas desavenças!" Sempre vi rosas frescas ao pé da placa.

Graças ao passaporte brasileiro e à perestroika que entusiasmava o Ocidente, pude passar para o lado Oriental no "Chekpoint Charlie". Nada a fazer do lado de lá. Um lugar triste, cheio de prédios baixos enegrecidos pela falta de pintura. Matei a curiosidade com a Alexanderplatz, tema do filme de Rainer Werner Fassbinder. Depois de 70 anos de avanços, o socialismo começava a perder espaço político para a democracia e o capitalismo. Os demais países socialistas do Leste Europeu também lutavam para se democratizarem. A Primavera de Praga e, antes, a repressão na Hungria vaticinavam o que Hegel já havia chamado de "fim da história", com a Revolução Francesa. À medida que se revelam os padrões de vida, à medida que as populações se tornam cosmopolitas e melhor educadas, e à medida que a sociedade conquista uma condição de maior igualdade, o povo começa a exigir não apenas mais riquezas, mas reconhecimento do seu status. Nesta perspectiva, o comunismo estaria em desvantagem em relação à democracia liberal, pois não abriria espaço para satisfazer o desejo individual das pessoas de obter reconhecimento. O cientista político norte-americano Francis Fukuyama (O fim da história e o ultimo homem - 1992) afirmou que, destruídos o socialismo e o fascismo, o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade. Não contava ele com uma nova "ideologia" a desafiar a democracia liberal ? o fundamentalismo islâmico.

O reverso é que também não se legitima impor o liberalismo à força para os povos que ousam desafiá-lo. Temos que respeitar as diferenças ? este, talvez, o maior desafio do século XXI. A globalização tem criado uma ideia de mundo sem fronteiras. Todos praticando a democracia liberal. Antes, o "eixo do mal" era personificado pelo socialismo soviético. Agora, encontra um novo foco, os terroristas do Oriente Médio. A história continua.

O autor é jornalista e articulista do JC