08 de julho de 2026
Geral

27% da população de Bauru é negra

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, comemora-se o Dia da Consciência Negra. Em Bauru, 95.080 pessoas se autoidentificam como negros ou pardos. O número corresponde a 27% da população total da cidade. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisadores da área, contudo, acreditam que a quantidade é maior, “derrubada” por ainda haver aqueles que não se identificam como afrodescendentes.

Para fins comparativos, o mesmo índice no Estado de São Paulo chega a 34%. Já no Brasil, os negros somavam 50% da população na época do levantamento (veja mais no quadro abaixo).

Os dados integram o último levantamento do tipo, realizado em 2010 pelo quando o número de habitantes no município chegava a 343.937 – em 2014, a estimativa era de 364.562 moradores em Bauru.

Apesar de parecer baixa, a quantidade de afrodescendentes é considerada representativa por pesquisadores da área. Eles apontam que os negros têm se mostrado cada dia mais presentes no cenário político e econômico da cidade, e defendem que o número só não é maior por conta da forma como muitas dessas pessoas ainda se autoidentificam hoje.

Fragilidade?

Docente do departamento de Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador da área, Juarez Xavier avalia que a forma como a cidade foi ocupada é um dos fatores que influenciam diretamente nos resultados contabilizados pelo IBGE.

“No primeiro momento, havia forte presença negra aqui. Depois, houve uma migração intensa, entre 1860 1930, que mudou essa composição. E o fato de ter uma ferrovia ajudou muito nessa mobilidade”, aponta Juarez.

Ele destaca, ainda, que esses tipos de dados numéricos estão muito mais ligados ao nível de consciência política ou de consciência étnico-racial que um determinado setor de uma determinada região possui, durante a autoidentificação, do que propriamente aos dados macroambientais.

“Na Bahia, por exemplo, há uma afirmação mais forte de preto ou pardo. Talvez, em Bauru, ainda haja uma certa fragilidade nessa consciência étnico-racial. Tendo a crer que muitos desses fatores de identidade cultural têm a ver com esses ciclos migratórios que ocorreram. Mas, mesmo assim, 27% já é significativo”.

A autoidentificação teve início na década de 80, quando os primeiros registros étnicos-raciais passaram a ser contabilizados oficialmente pelo País. Porém, apesar dos avanções, ainda de acordo com Juarez, estudos realizados por discentes da universidade nos últimos meses têm mostrado que a presença do negro em Bauru ainda é concentrada nas periferias.

Visibilidade

Filho de ferroviários e negros, Sebastião Clementino  da Silva, o Macalé, que hoje é professor de geopolítica e geografia urbana na Universidade Sagrado Coração (USC) critica a falta de políticas públicas voltadas à comunidade negra na cidade.

“Temos um conselho municipal, mas ainda falta visibilidade. O negro dificilmente ocupa uma posição de ponta no nosso mercado de trabalho. Também acho que devia haver mais ousadia da própria comunidade negra”, afirma Macalé.

Para ele, assim como para Juarez, a política voltada à criação das cotas em concursos têm ajudado a transformar esse cenário aos poucos. “Havia uma dívida histórica, que vinha desde o fim da escravidão. Não deram condições de trabalho para o negro. Muitos se marginalizaram. As cotas, o Fies (Financiamento Estudantil) e o Prouni (Programa Universidade para Todos) têm diminuído essas diferenças”, ressalta Macalé.

Juarez reitera que a população afrodescendente, apesar de ainda não ocupar tantas posições efetivas de destaque em Bauru, hoje possui lideranças políticas como, por exemplo, um vereador (Roque Ferreira), uma vice-prefeita (Estela Almagro) e um secretário municipal (Chico Maia).


Aula pública na Rui Barbosa abre o Dia Nacional da Consciência Negra

Diversas atividades foram programadas pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra para lembrar o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado hoje. A abertura ocorrerá às 10h, na praça Rui Barbosa, com uma aula pública ministrada por membros do conselho, com o tema “O despertar da consciência de um povo através da consolidação de sua identidade”.

A programação se estende até as 20h, quando haverá um encontro ecumênico no Teatro Municipal (veja mais no quadro abaixo).

A última atividade do mês da Consciência Negra será a entrega do Prêmio “Zumbi dos Palmeiras”, na Câmara Municipal, em data ainda a ser definida.