08 de julho de 2026
Articulistas

O segredo

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Aos vinte e poucos anos, Paul McCartney escreveu a canção "When I?m Sixty-Four". "Você ainda vai precisar de mim / Quando eu tiver sessenta e quatro?", questiona. "Eu poderia ser útil consertando um fusível / Quando suas luzes apagarem". Nem o próprio autor se imaginaria aos 72 no meio de uma turnê mundial. Qual o segredo?

Aparentemente, estamos diante de uma favorável união de fatores. Genética: talvez. Paixão pelo que faz: certamente. À determinação de seguir rasgando calendários, juntam-se hábitos como dieta equilibrada e exercícios constantes. E amor, claro.

Ah, sim, ter muuuuito dinheiro deve ajudar, mas não sei se é tão preponderante. Colocaria muuuuita grana como fator coadjuvante se comparado a amor, hábito e entusiasmo. Isso porque não faltam relatos de gente deitada nas verdinhas que, lamentavelmente, declina da dádiva de viver.

Uma frase que vejo por aí, atribuída ao filósofo grego Aristóteles, que viveu 62 anos: "A cultura é o maior conforto para a velhice". Não sei ao certo o que significa, mas, sendo McCartney um imparável produtor de cultura popular, talvez aí esteja um ingrediente adicional de sua longa e espetacular estrada: criar cultura e compartilhar com o mundo.

Na verdade, nem precisamos de astros do pop para entender o segredo. Basta olhar nas nossas próprias famílias. Sempre haverá alguém que dura mais e aproveita melhor. E, nesses exemplos, teremos repetidas as combinações já citadas.

Você nem precisa, já na alta maturidade, subir num palco e lá ficar por três horas, cantar três dezenas de músicas e rodar o planeta (ou fazer o planeta girar em torno de você). Só em solo brasileiro, o ex-beatle completará nesta quarta-feira, com show em São Paulo, 20 apresentações. A primeira, em 1990, no Maracanã, ainda deve ser o recorde de público pagante num show de rock no mundo, com mais de 180 mil pessoas. Eu e minha juventude estávamos lá.

Mas 1990 e 2014 são a mesma coisa. Como escreveu o jornalista Julio Maria neste mês ao "Estadão", logo após ver apresentação do astro inglês no Espírito Santo: "O passado revirado tantas vezes seria um perigo que Paul McCartney não arrebentasse as comportas e o fizesse transbordar sobre o presente. Se não há mais passado, nada pode destruí-lo. O homem que está ali pode fazer a mesma viagem mil vezes que ela será sempre nova."


O autor é editor executivo do JC