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De acordo com a pesquisa feita no Estado de São Paulo, 46% da população está tomando banhos mais rápidos para economizar |
Não faz a menor diferença se hoje está chovendo ou não, se você abriu a torneira e o líquido jorra abundantemente e se momentaneamente o rio Batalha, que abastece boa parte de Bauru, voltou aos níveis normais (ou quase). Uma coisa é certa: 2014 vai ficar para a história como o ano em que vivemos o primeiro racionamento de água (leia mais na página 5).
E também é ponto pacífico: depois da situação de carência, a nossa relação com o líquido tem que mudar. E já está mudando. Hoje, uma das maiores preocupações dos moradores do Estado de São Paulo é de ordem prática: economizar com banho e na hora de lavar a roupa. Pelo menos foi o que mostrou um levantamento feito por uma empresa de coleta e análise de dados para pesquisas de mercado.
O levantamento
O PiniOn é uma plataforma que usa tecnologia mobile (via celular) para captar opiniões a respeito de marcas e temas atuais, bem como insights criativos dos usuários no momento do consumo. Hoje essa plataforma já conta com 110 mil usuários cadastrados e mais de 500 mil respostas aprovadas.
“Como trabalhamos na coleta e análise de dados para pesquisas de mercado, experiências de consumo e etnográficas, sugerimos à PiniOn que fizesse um levantamento para saber a opinião da população sobre a falta de água no Estado de São Paulo”, conta Marcelo Volpato, responsável pelo relacionamento com a mídia da empresa Seven PR - Public Relations, de São Paulo, que atua junto com a PiniOn.
O levantamento começou a ser feito em agosto, auge da crise de falta de água na capital, mas como a situação também se agravou no interior, foi expandido para mais 60 cidades. Na nova lista, Bauru e Marília foram incluídas. Também foram consultados moradores de Avaré, Lençóis Paulista e Ourinhos. Foram ouvidas pessoas entre 18 e 64 anos, das classes A, B e C.
Medidas
Como se trata de uma nova plataforma, (leia abaixo), o PiniOn não considera quem participou como entrevistado, e sim chama “respondente”. Mas a análise não deixa de ser importante. E neste caso, o resultado de 500 respostas foi analisado minuciosamente. Chegou-se à conclusão que a maioria dos paulistas, 81% - seja em cidades com maior escassez, caso de Itu, ou de menor escassez, como Lençóis Paulista -, já adotou alguma medida para reduzir o consumo de água. No tópico “principal desafio enfrentado com a escassez”, os itens mais citados foram banho (29%) e lavagem de roupa (19%).
O que é a plataforma com tecnologia mobile
Por meio do aplicativo mobile, as empresas oferecem aos usuários missões que geram recompensas aos participantes, de acordo com a complexidade de cada atividade. O PiniOn possibilita que os tomadores de decisão das companhias possam ter uma visão dinâmica e contínua da opinião dos consumidores e seus públicos, e fornece dados para as empresas que podem ser decisivos na elaboração de suas estratégias comerciais ou mesmo de relacionamento com a clientela.
81% dos paulistas economizam água
Os dados da pesquisa apontam que a maioria dos paulistas já está economizando. E isso atinge os que estão em racionamento ou não. Sensibilizados por matérias e campanhas sobre a escassez do líquido e os problemas dos mananciais, a maioria da população - 81% - está tomando uma ou mais medidas para economizar água.
E a preocupação maior nem é com o fato de não ter a água para beber ou cozinhar (provavelmente esse setor é suprido através da compra de água mineral ou a busca em postos). Isso porque 29% dos participantes da pesquisa citaram como o maior desafio enfrentado com a escassez a hora do banho. E o segundo índice de preocupação é na hora de lavar a roupa: 19%.
Obrigatório
Como as principais preocupações são essas, as medidas tomadas pela população atingem diretamente onde incomoda mais. Por isso, 46% da população está tomando banho mais rápido do que tomava antes e 13% lava as roupas com menos frequência.
De qualquer maneira, o consumo dos paulistas era historicamente acima da média. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o consumo de água ideal por pessoa (considerando todas as atividades, desde beber, usar o vaso sanitário, tomar banho e até limpeza do local onde mora) é de 110 litros por dia.
Ou seja, com essa quantidade de água vive-se muito bem. Só que o brasileiro que tem água encanada e tratada consome, em média, 167 litros por dia.
E no Estado de São Paulo, essa média sobe para 193 litros por pessoa, por dia. O volume significa quase o dobro do recomendado pela ONU. Ou seja, há mesmo um desperdício.
Períodos diferentes
A pesquisa apontou também que 29% dos moradores consultados na capital estavam enfrentando o problema de falta de água sistemática há dois meses. No Interior o número era de 26%, mas o tempo cai 50%, pois somente há cerca de um mês o problema se agravou para muitos.
Dos que responderam à pesquisa, 41% dos paulistanos reclamam que a falta de água é recorrente no período da noite enquanto, os do Interior disseram que o problema maior é no período da tarde. Vêm sendo afetados com a escassez durante a tarde 31% das pessoas ouvidas.
Consciência
Para 34% dos respondentes, sejam do Interior ou da capital, é preciso que a população tenha consciência e colabore mais para conseguir contornar a situação, até que os mananciais voltem ao nível normal. E cerca de 13% enfatizam que as autoridades devem investir mais em infraestrutura para melhorar a distribuição de água.
Culpados
O monitoramento do PiniOn também quis saber a quem a população está cobrando pela crise hídrica. Cerca de 31% responderam que a culpa pelo racionamento é do governo (que não soube estocar, não se preveniu), e 25% da população (que desperdiça demais).
Já no item “falta de solução”, 65% culparam o governo e as companhias de abastecimento. E a pesquisa ainda embute uma crítica: 80% acham que o governo, de modo geral, pecou pela falta de informação. Ou seja, a maioria queria ser alertada da situação bem antes para não precisar adotar a medidas extremas, como houve em muitos casos.
Tecnologia é aliada para as soluções
Doutor em engenharia civil, coordenador do grupo da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) de trabalho - para desenvolvimento de normalização referente a sistemas de medição remota do consumo de água - e responsável pela estruturação e implementação do Programa para Conservação da Água, o Deca ProÁgua, Osvaldo Barbosa de Oliveira Júnior tem conhecimento para decretar: o grande vilão do consumo doméstico é o chuveiro. Mas também é ele quem aponta a solução: tecnologia e mudança de hábitos precisam andar juntas para reduzir o consumo do líquido.
“Precisamos atuar em duas frentes, a primeira é mais simples porque se trata de reduzir a vazão, a quantidade de água. Basta instalar um chuveiro com redutor de vazão (ideal para grandes condomínios e apartamentos no caso de chuveiro a gás) ou instalar duchas e chuveiros em casa com tecnologia de baixo consumo”, explica.
“O segundo ponto já é mais difícil”, ele também concorda: mudanças de hábitos são sempre mais complicadas. Mas há uma pesquisa que comprova que o banho médio do brasileiro dura de 8 a 10 minutos e o consumo de água pode cair pela metade se a pessoa abrir, se molhar, fechar, se ensaboar, abrir e enxaguar. Não vai levar mais do que 5 minutos.
Xixi no banho
No capítulo banho, por sinal, Osvaldo lembra que aquela indicação muito polêmica de que cada pessoa deveria fazer xixi no banho é muito válida. “Se você gasta no mínimo 12 litros na descarga, a água que vai embora pelo ralo não compromete, então a urina pode ir também. Numa casa de três ou quatro pessoas, todo dia, faça as contas: a economia é bem significativa.”
Bacia sanitária
O engenheiro lembra também que muita gente desconhece, mas desde 2003 há bacias sanitárias com duplo acionamento e que podem gastar apenas 6 litros de água por descarga, para o caso de líquidos. Assim, se a pessoa necessita de maior vazão, aciona o botão que dá uma vazão de 12 litros.
Este é o uso correto da tecnologia. Caso da lavagem de roupa. As lavadoras automáticas mais recentes têm também a opção para o consumidor lavar com pouca água. Antigamente elas só eram acionadas com toda a capacidade de água. Hoje não, os ciclos são mínimos, com baixo consumo de energia e com a opção de lavagem com pouca água.
Reuso
Ele recomenda o que todo mundo já sabe, mas nunca é demais bater na mesma tecla: reutilizar a água para lavar quintais. “Guardar mesmo. E ir usando aos poucos, em quintais, em canis, em bacias e vasos sanitários, mesmo para limpar pisos, no caso de cerâmicos (tem muita gente que tem a casa toda, os quartos com pisos cerâmicos) é o ideal. Até porque a água da lavagem de roupa já tem produtos químicos que facilitam a limpeza, isso é ótimo”.
Água de hortaliças
Muitos bauruenses, por exemplo, deixaram de consumir verdura em folhas para não gastar água abundantemente com o enxágue. Só que uma forma muito boa é limpar usando uma solução de uma colher de chá de cloro para cada litro de água. Deve-se colocar as folhas de alface numa bacia e deixá-la de molho por no máximo 10 minutos, daí é só escorrer e temperar a salada como quiser. O cloro é um excelente germicida, e nessa dosagem não oferece risco ao consumo. A água deve ser guardada também para reuso, pois o cloro é ótimo para limpeza geral.
Tradição do cloro
O cloro indicado para limpeza doméstica, embora seja eficiente não é igual ao amoníaco, que é o mais indicado para canis. Também não se deve misturar o hipoclorito de sódio (2,5%) com amoníaco, nem com outros produtos de limpeza. Mas sua eficiência é inegável. Tanto o hipoclorito de sódio quanto a água sanitária são muito eficientes no combate a doenças potencialmente transmissíveis pela água.
Limpeza de canil: um caso à parte
Em tempos de pouca água, como fazer a desinfecção do espaço onde ficam os cães de estimação na casa? Mesmo que não se tenha um canil, todo mundo que tem um animal precisa estar atento à limpeza, especialmente da urina e das fezes.
O veterinário Franklin Mamoru Kasama diz que na sua clínica o movimento continua igual. Os donos continuam levando seus filhos para tomar banho, consultas, normalmente. O racionamento de água não diminuiu nem aumentou a freguesia. Mesmo assim ele está consciente de que a falta de água e consequente piora na higiene dos bichinhos pode trazer mais riscos e atrair mais insetos, especialmente os mosquitos transmissores da dengue e da leishmaniose.
Assim, ele indica para as fezes que se faça a retirada imediata e se limpe a área onde ela foi depositada. Já no caso da urina, Franklin indica germicidas á base de amônia que têm maior eficácia no combate aos mosquitos.
Mais dicas para poupar água
Ao escovar os dentes: Molhe a escova de dentes e feche a torneira; coloque água num copo para bochechar. O consumo cai para menos de 1 litro.
Ao lavar a louça: Durante 15 minutos com torneira aberta, o consumo é de 117 litros. Passe o detergente na louça com a torneira fechada e enxague tudo depois: consumo cai para 20 litros.
Ao lavar o carro: Com mangueira durante 30 minutos, consumo é de 560 litros. Use um balde e passe pano. Consumo cai para 40 litros.
Limpeza de ambientes: Varrer, utilizar balde com água e passar pano úmido são opções ambientalmente mais corretas. Não é necessário lavar áreas externas a calçada. Nos móveis: use pano seco.