O dia em que Maria Feliz colocou a sua primeira sapatilha de balé, vi o meu texto "Os quatro sorrisos de Maria Feliz" consagrado, pela leveza das mãos e dos passos de uma bailarina menina. É assim que descrevo Dalva Corrêa. É ela a responsável por um sonho que nem eu imaginava viver e participar. Isso aconteceu no 37º Festival 2014 do Ballet Vitória Régia, nos dias 16 e 17 de novembro no Teatro Municipal de Bauru.
Tudo foi mágico e delicado. Dalva se preocupou com cada detalhe do espetáculo, ao começar pelo cenário que tinha a casa rosa de janela e porta azul, igual a casa de madeira onde vivi toda a minha infância em Duartina. O trovador das cantigas de Maria logo na abertura do balé, papel dedicado a mim, foi uma homenagem muito especial as cantigas de teatro em casa do Atucaec, pois tudo começou com a Maria. E teve mais surpresas: as coreografias com autores brasileiros, escolhidos a dedo, o sol e a lua num balanço que subia e descia, a estrela de cristal malvada e ao mesmo tempo delicada nas pontas de balé, o sono de Maria com a cartinha na mão e uma menina dançando uma cantiga de ninar, a vovó saudade espantando a solidão, as notícias do vento fufu, as crianças abrindo o livro original de Maria, o mesmo usado no teatro em casa, os pássaros, as flores vermelhas, rosa e lilás, as estrelinhas azuis e as bailarinas de raios de sol. A primavera trazendo a esperança fez o público se sentir criança outra vez. Tudo parecia ciranda.
Estava lindo e enchia os olhos de lágrimas de alegria. Ver a Maria bailarina (a Bettina) numa cena com o vestido original que todas as Marias do teatro em casa usaram foi emoção demais para o meu coração chorão. Dalva sabia da mágica desse vestido e me deu esse presente encantador. Obrigado por essa homenagem tão ilustre, pois a Maria só poderia virar um balé completo pela sensibilidade de sua alma e também pela brilhante adaptação de Márcia Nuriah, que é fã de Maria a muito tempo.
Dalva foi pioneira em Bauru ao montar uma obra minha no seu tradicional Ballet Vitória Régia. Quando vi Maria Feliz virar um balé completo no Municipal, percebi que a obra já é maior que o seu auto e senti naquele momento que sou apenas um instrumento musical tocado por Deus e vi também que todos aqueles personagens tem vida própria sempre, só para deixar a gente com o sorriso mais feliz.
Manoel Fernandes