No começo de outubro, durante reunião do comitê regional da OMS (Organização Mundial de Saúde) para as Américas, em Washington, foi lançado um plano de ação para conter a obesidade em crianças e adolescentes, que alcançou proporções epidêmicas nas Américas. Agora, a OPAS (Organização Pan-americana da Saúde) vai unificar os esforços e assumir a liderança deste plano de ação.
Estudos concordam que os fatores mais importantes que promovem o aumento de peso e obesidade, assim como as doenças não transmissíveis conexas, são o alto consumo de produtos com pouco nutrientes e muito açúcar, gordura e sal, além de consumo regular de bebidas açucaradas e atividade física insuficiente. O consumo de bebidas açucaradas, por exemplo, tem forte associação com doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.
Uma tendência comercial atual associada à epidemia de obesidade é a grande oferta e o aumento do consumo per capita dos produtos energéticos com poucos nutrientes na população de baixa e média renda. O consumo desses produtos é cinco vezes maior e o de refrigerantes e quase três vezes maior em comparação ao de países desenvolvidos. A publicidade desses produtos para crianças e adolescentes aumentou, influenciando as preferências alimentares, as compras e os padrões alimentares dessas populações. As oportunidades de atividade física diminuíram, devido à falta de planejamento urbano, violência e ao fato de a diversão eletrônica estar substituindo cada vez mais a atividade física recreativa.
Quanto mais cedo o indivíduo fica com sobrepeso e obesidade, maior é o risco de permanecer assim com o avançar da idade. A obesidade em idade precoce têm consequências adversas para a saúde, pois aumenta o risco de asma, diabetes tipo 2, apneia do sono e doenças cardiovasculares, além de afetar o crescimento e o desenvolvimento psicossocial durante a adolescência.
O Plano de Ação da OMS para combate à obesidade infantil tem várias metas, entre as quais destacam-se o incentivo do aleitamento materno exclusivo até seis meses de idade, melhoria de ambientes de nutrição e atividade física nas escolas e políticas fiscais e de regulamentação do marketing e rotulagem dos alimentos.
A estratégia para a melhoria de ambientes de nutrição e atividade física nas escolas incentiva as intervenções na escola, para modificar o comportamento alimentar e prevenir o sobrepeso e a obesidade. O Programa "Meu Pratinho saudável", desenvolvido com metodologia e apoio científico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, se baseia em um método facilitado para melhor compreensão das crianças e adolescentes em idade escolar quanto aos melhores ingredientes e porções a serem colocados no prato, além de ter como base atividades lúdicas, que são incorporadas às atividades escolares.
A experiência exitosa do programa já comprovou que, depois de apenas um ano, alunos de uma escola estadual da zona oeste da capital paulista melhoraram seus hábitos alimentares, passando a comer mais frutas e verduras e reduzindo o consumo de doces, biscoitos, macarrão instantâneo, refrigerantes e frituras, além de terem aumentado o tempo destinado à atividade física. Com educação e orientação nutricional, os alunos tornam-se multiplicadores junto a pais, familiares e colegas. Com isso, São Paulo se alinha às metas da OMS no combate da epidemia de obesidade infantil que preocupa e assusta as Américas.
A autora é médica, coordenadora do Programa Meu Pratinho Saudável, do Hospital das Clínicas da FMUSP em parceria com a LatinMed