10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Luciano Dias Pires Filho

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Divulgação

Luciano Dias Pires Filho é comunicador polivalente

As expertises desse comunicador bauruense são muitas - cartunista, jornalista, executivo de marketing de multinacional, colunista, colaborador de vários sites, revistas e jornais. É também produtor e apresentador de um dos mais ouvidos programas de música (recheado com ideias ou vice-versa): o podcast Café Brasil, transmitido pela internet e na Rádio Mundial FM, em São Paulo. É também escritor e, acima de tudo, agora ou nos últimos seis anos, palestrante. Suas palestras já chegaram a reunir mais de 3 mil pessoas de uma só vez. E fala para um público totalmente eclético: engenheiros, executivos, estudantes. Recentemente fez um circuito de 35 dias do Interior do Mato Grosso falando para produtores rurais. Ele tem conteúdo e sabe o que fala e faz. Confira.

Jornal da Cidade - Você se define como ‘animal internético’...

Luciano Dias Pires Filho - Produzo conteúdo e uso de todos os meios para divulgar minhas ideias, vídeos, fóruns, redes sociais, filmo, fotografo, edito, construo, o que eu penso vai para rádio, uso músicas e o que for preciso para dar o recado. E meu site é disponibilizado de graça, uso as redes sociais e até polemizo com os internautas.

JC -  Deixar de cobrar não desvaloriza o trabalho?

Luciano - Nada disso. Não adianta segurar. Tanto que os músicos lançam o álbum primeiro  na internet. A informação tem que chegar a quem quiser, quanto mais conhecido eu fico, mais vão me chamar para palestras, que é  hoje o meu ganha-pão. A divulgação na internet é grande, mas não o suficiente para me atrapalhar. É o contrário.

JC - As ideias são contundentes e sua produção, independente.

Luciano - De fato. Quando cheguei à rádio Mundial com o programa que deu origem ao Café Brasil (no ar há quase 10 anos), sabia o que queria: independência e tocar a música que ninguém toca, não ficar à mercê de interesses comerciais, do que pode e do que não pode falar.

JC - Isso é ser polêmico...

Luciano - Sim, se preciso, chuto mesmo o pau da barraca, não fico em cima do muro. No Brasil de hoje, ter opinião é ofensa pessoal. Você tem que tomar partido, assumir o que pensa. Quem fica em cima do muro é insosso.

JC - Neste ano você declarou voto para o Aécio antes de muitos.

Luciano - Sim e justifiquei claramente. Aliás, em 10 meses meu Facebook, que tinha 12 mil acessos, pulou para 66 mil. Quando declarei a opção foram 100 mil curtidas e nada mais do que 200 mil compartilhamentos.

JC - E houve muita crítica?

Luciano - Sempre há. Mas quando exponho uma ideia eu explico, falo com conhecimento, estudo, e os contra-argumentos têm que ser como os meus, com começo, meio e fim. A pessoa não pode simplesmente dizer não gostei e criticar, precisa saber argumentar, conhecer causa e consequência. Aí até posso mudar de ideia, mas é muito difícil.

JC - Soa como um desafio?

Luciano - É o que me move. Se falar que não dá para fazer, aí é que eu quero descobrir como fazer (risos). Todos os meus grandes trabalhos foram assim: o desafio aflorar a criatividade, me obriga a criar a solução. Aprendi isso lá atrás, aos 17 anos, quando saí de Bauru e fui fazer comunicação visual no Mackenzie. Ao fazer meus desenhos (ele era cartunista do JC e colaborava com a seção Vírgula, com texto e traço, aos domingos). Tinha de fazer, finalizar, entregar no ônibus dois dias antes, que mandava para Bauru, aprendi ali bem novo o que era normatização, cumprir prazo. Mas foi bom.

JC - Foi um bom cartunista?

Luciano - Ganhei prêmios, aliás, com o prêmio que ganhei do Salão do Humor em Piracicaba, por exemplo, mobiliei toda minha casa, e eu estava recém-casado.

JC - Estar casado há 33 anos (com a bauruense Denise Bernardes Perez Pires, namorada de infância) ajuda na carreira?

Luciano - Não sei como é não ter família. Espelho-me em casamentos longos, meus avós completaram 75 anos de casados, meus pais, 60 anos de casados. Saber que a família está aí tira um peso, é uma segurança, ter alguém esperando em casa é ótimo. E sou muito grato por ter, aos 58 anos,  pai e mãe vivos. O pai ainda agitando (ele é filho de Luciano Dias Pires, editor do Bauru Ilustrado do JC).

JC - Tem filhos?

Luciano - Dois, Daniel Perez Pires, de 30 anos, e Gabriela Perez Pires, de 24.

JC - Você saiu daqui cedo, mas tem referências e influências da cidade?

Luciano - Com certeza. A comunicação está no meu DNA. Embora não tenha crescido em jornal, conheci um pouco de redação e seu Luciano acabou me contaminando. Aliás, quero deixar claro que eu era muito feliz aqui, tinha tudo o que minha família poderia me proporcionar. Não me pergunte o porquê, até hoje não sei, mas tive que ir. Deu certo.

JC - Assim como deu certo a troca de profissão...

Luciano - Sim, depois de 26 anos como executivo de uma multinacional, e com essa vontade já sedimentada a nova carreira está aí.  Começou lá no final dos anos 90, fui convidado para apresentar uma dessas palestras (que eram pequenas até então) e me vi diante de mais  de mil pessoas no Via Funchal, uma casa famosa em São Paulo. Havia gente famosa lá (como o Roberto Shinyashiki), e eu era um deles. E o público gostou do que eu dizia. Aí achei que dava para a coisa.

JC - E a mãe?

Luciano - Outra referência importante. Dona Helena era professora do Rodrigues de Abreu (a escola ficava  na frente de casa) e eu fui alfabetizado por ela. Isso sem dúvida foi muito interessante, deve ter tido seu impacto.

JC - Uma lembrança de Bauru.

Luciano - Além de muitos amigos de escola, do Colégio Técnico, minha referência de infância e juventude foi no Luso, o clube. Era lá na Associação Luso Brasileira de Bauru que tudo acontecia. Uma convivência muito gostosa.

JC - De São Paulo.

Luciano - O choque cultural. Saído de um núcleo familiar de cidade pequena para uma efervescência cultural. Eram os anos de chumbo, lutávamos por uma abertura política. Conheci o Henfil, convivi com os caras do “Pasquim”. Estava lá quando morreu Herzog. Fui editor do “Análise” do diretório do Mackenzie. Enfim, um choque em que tive que me virar.

JC - A  sua viagem ao Everest, quando trocou o paletó pela mochila - que deu origem ao livro Meu Everest -, em 2001, foi um divisor de águas?

Luciano - Sim, e como digo, sem heroísmos, sem sustos, sem super-homens escorregando e morrendo no gelo.

JC - Você estimula as pessoas a irem em busca do seu sonho e se diz ‘uma pessoa comum reagindo diante de uma situação incomum’.

Luciano - De fato podia ser você, pode ser qualquer um lá. Basta ter coragem. E que fique bem claro, coragem não é a ausência do medo. É ir buscar o que você quer, apesar do medo.


Perfil

Uma alegria: Rever pessoas

Uma tristeza: Perder pessoas

O que falta na vida: Ser avô

Time: Corinthians

Um desejo de consumo: Ser dono de um teatro

A música (ou gênero) preferida: Boa. Mas se só puder escolher uma, jazz.

A viagem inesquecível (além do Everest): Pólo Norte, em 2006

Um lugar: Campo Base do Everest

Onde espera estar daqui a 10 anos: Morando na Europa

O momento perfeito: Os aplausos no final de uma palestra

Um ideal: Ajudar a ‘desemburrecer’ o Brasil