08 de julho de 2026
Geral

Travas e estagnação alertam Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Os números da economia, manifestações de vários setores produtivos e pesquisas recentes mostram que Bauru chegou a uma encruzilhada a partir da qual terá de optar por que caminho deseja seguir para se desenvolver com qualidade de vida a seus moradores. Uma espécie de pacto se faz necessário para conduzir a cidade a patamares de estabilidade que façam com que Bauru vença os inúmeros desafios que se apresentam. Os empresários locais e mesmo os de fora já dão claros sinais de cansaço pelas dificuldades extras para investir em novos empreendimentos por aqui. A ausência de políticas claras, de planejamento e as trancas burocráticas e jurídicas, mais o não cumprimento da lição de casa pela prefeitura no enfrentamento do já difícil período de “sobrevivência” com as magras da retração na economia nacional, acendem o alerta para o futuro de curto prazo.

Os reflexos se manifestam principalmente através do encolhimento na renda do bauruense, aferida recentemente pelo IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) (leia na página ao lado), um quadro em que as empresas estão sem força para sustentar sua produção e até mesmo com o fantasma do desemprego rondando as portas de fábricas, o comércio e serviços.

O setor produtivo local, que gera grande parte da sustentação social, reclama de burocracia, demora e passividade institucional como subprodutos das dificuldades para implantação de projetos e investimentos, o que aprofunda estagnação e alimenta fuga de negócios em ampliação ou instalação.

Para representantes da indústria, comércio e serviços ouvidos pelo JC, a cidade precisa reagir com a elaboração, rapidamente, de planos de curto, médio e longo prazo que abram portas para novos negócios. As ações, comentam executivos das diferentes áreas, precisam vir independentemente das decisões na política econômica a serem implementadas pela continuidade do governo Dilma Rousseff.

Em síntese, os setores de produção em Bauru são unânimes em diagnosticar que a perda de massa salarial precisa ser enfrentada por aqui, sob pena de aprofundamento da desidratação de nossa economia no cenário regional e em comparação com outras cidades do mesmo porte no País. A retração econômica em nível nacional é mais forte em Bauru, indica o índice.

O diretor da regional Bauru da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Zeca Simonelli, dá uma contribuição sóbria para nossa posição no cenário. “Nosso agravante é que os dados mostram que vivemos mais do comércio e de serviços em matéria de nível de emprego e renda do que em outros períodos. Bauru já teve setor industrial forte, mas esta relação está migrando para outros setores. Há evidente perda de massa salarial e isso não sustenta a economia, porque o consumo não se sustenta nesse patamar”, aborda.

Para Simonelli, está claro que a recuperação dos níveis de renda, conforme queda confirmada no IDHM de 2000-2010, depende da reativação da indústria. “E essa é uma ação que depende claro da política macro e da retomada do crescimento pelo governo federal, mas também depende de parcelas de ações pelo Estado e aqui, pelo município. Porque mesmo para as oportunidades de negócios existem estamos enfrentando fuga. É grave o cenário e não se vê nenhuma atitude”, acrescenta.

O efeito cíclico atinge a todos. “Atribuo a queda generalizada na produção industrial, com o agravante de piora em segmentos específicos em nossa cidade, como o principal elemento de advertência dessa situação. A indústria é o setor que paga os melhores salários”, lembra Simonelli.

A diferença salarial para as ocupações mais comuns da cadeia de empregos confirma a observação de Simonelli. O piso salarial para vaga de ajudante geral, de limpeza ou administrativo, por exemplo, é de 30% a 40% menor no comércio na comparação para o mesmo posto na indústria.

E o pior: para uma série de casos do segmento de serviços, a distância entre a remuneração para a mesma função é ainda maior. A terceirização (e até quarteirização) é uma realidade que torna o mesmo piso ainda menor que a da mesma ocupação na indústria. E, em Bauru, o setor que tem, nos últimos anos, ampliado em maior escala o número de vagas é o de serviços. O primeiro emprego para a área de cobrança está ‘bombando’. Mas os níveis salariais são muito baixos. 

E o impacto desse quadro na renda é mais forte, conforme aponta o histórico do IDHM. A taxa de crescimento de Bauru (3,3%) foi quase a metade da média nacional (6,7%) - cujo indicador também é ruim - em padrão de vida (renda).   

Desequilíbrio

Para o representante da Fiesp, o desequilíbrio se manifesta com maior força quando o poder público municipal não aponta plano de ação consolidado e, claro, para, ao menos, colaborar em sua parcela de competência. Aliado a isso, as incertezas quanto a ocupação, instalação e aprovação de projetos agravam o combalido espírito empreendedor. “Temos de um lado o esfacelamento da capacidade industrial do País. Temos de outro lado, a qualificação de mão de obra cada vez mais difícil e a perda da massa salarial. E ainda uma situação de dificuldades no parque municipal. É preciso dar condições de competição para a indústria não sair, ou ir para outro lugar onde é mais fácil se instalar e produzir”, adverte.

Paulo Roberto Martinello, da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), engrossa a ala dos que defendem a reação local. “O comércio também passa por dificuldade grande. E isso reflete insegurança em relação ao negócio no momento, ao período de estagnação econômica e a esta fase de indefinição na transição na continuidade do governo”.

Segundo Martinello, a queda em renda e, por consequência, consumo gera outro problema: contratação de mão de obra. “O interessado prefere uma ocupação no ramo de serviços, para trabalhar com outra forma de jornada, e o comerciante tem dificuldades em melhorar o piso salarial diante de sua enorme dificuldade em fazer caixa e cumprir seus compromissos com uma tributação elevada”, complementa.

O diretor da Acib aponta para o aumento no número de cadastros de pessoa jurídica à procura de parcelamento de débitos fiscais e tributáripos. “O número cada vez maior de empresas com dificuldade para honrar seu compromisso permanente reflete isso”, reforça.

“Há morosidade em abertura de empresa e falta de clareza para que o empresário atue com segurança, tranquilidade para se dedicar a fomentar o setor. Temos também de analisar a política de restrições para instalações e analisar o que poder ser feito para abrir oportunidade e não espantar quem está querendo participar da economia local”, finaliza.


Secretário alerta para incerteza em ocupação

“A cidade está enfrentando as consequências da estagnação econômica, mas também paga seu preço pela desarticulação em torno de uma ação organizada para novas instalações em indústria e fomento a setores como a construção civil. Temos de reunir empresários, Legislativo, Executivo, entidades de classe, a comunidade acadêmica, Ministério Público e montar um plano emergencial de fôlego que possa eliminar barreiras, como a restrição para empreendimentos e negócios, olhando para as questões ambientais e de regularização, mas sobretudo eliminando entraves. Olhar o empresário, o empreendedor como inimigo, adversário da cidade, não ajuda, só aprofunda a crise”.

A abordagem é do secretário de Desenvolvimento Econômico Arnaldo Ribeiro que acumula, desde ontem, o posto de chefe de Gabinete do prefeito. Em nota enviada à redação, Ribeiro comentou que compreende a aflição dos empresários, mas aponta para outro flanco. “Estou bastante preocupado com a desarticulação da sociedade em torno dos negócios. Temos de reunir empresários, por os projetos na mesa e dialogar com as instituições fiscalizadoras nas áreas de instalação, licença, meio ambiente e de diretrizes de contrapartida para olhar para os novos negócios como oportunidade e não obstáculo”.

O secretário ressalta o ponto que mais preocupa. “O Poder Público tem de fazer sua parte, fomentando o setor, definindo novos projetos para instalação e expansão industrial e eliminando obstáculos como a burocracia e o tempo de resposta para regularizações ou autorizações de negócios. Mas o que mais afugenta o empresário hoje é a falta de regras para a flexibilização em torno da ocupação legal de áreas que envolvem questões ambientais no entorno da cidade. É preciso eliminar entraves com diálogo. Mas hoje o empreendedor está só com a faca no pescoço e ouve só o ‘não’”, enfatiza.