Nos últimos 30 anos, 2.160 pessoas contraíram o vírus HIV em Bauru. Os dados foram divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde para alertar sobre a importância da prevenção da doença, já que o aumento das infecções entre jovens, principalmente homens que fazem sexo com outros homens, voltou a preocupar as autoridades.
Hoje, data em que se comemora o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, a secretaria dá início à 7.ª edição da Campanha Fique Sabendo, para estimular a população a realizar o teste anti-HIV (leia mais abaixo). De acordo com a pasta, em 30 anos, 1.578 homens foram diagnosticados com a doença na cidade, quase o triplo das 582 mulheres infectadas.
Apesar de o número de novos casos ter caído consideravelmente desde 1995, quando a Aids teve seu ápice em Bauru, as autoridades temem uma nova onda de contágio dentro dos próximos anos. O alerta já vinha sendo feito ao longo do ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Programa Conjunto das Nações Unidas HIV/Aids (Unaids).
Agora, é uma realidade que já vem sendo constatada em Bauru, conforme revela o médico Marcelo Pesce Gomes da Costa, infectologista e patologista clínico do Centro de Referência em Moléstias Infecciosas (CRMI) do município.
“É uma percepção geral e bastante preocupante. Temos recebido muitos pacientes novos, alguns com bom grau de instrução e condições financeiras, que trabalham e até estão na universidade. Ou seja, são pessoas que têm acesso à informação e aos meios de prevenção, mas não estão tomando os devidos cuidados”, alerta.
A despreocupação quanto ao uso de preservativos, segundo Pesce, vem se consolidando entre jovens, que não viveram a década de 1980, quando uma geração inteira viu amigos próximos e grandes artistas, como Cazuza, definharem até a morte devido à Aids. Além de o número de novos casos ter diminuído nos últimos anos, os avanços no tratamento da doença também contribuíram para que se criasse uma falsa ilusão de que a epidemia acabou. “Hoje, felizmente, a qualidade de vida de um paciente soropositivo é outra. Ele consegue ter uma vida normal por muito tempo, podendo, inclusive, nem mesmo morrer em decorrência da Aids”, acrescenta o infectologista, destacando que a grande variedade de terapias antirretrovirais, atualmente, permite que a maioria dos doentes quase não sofra mais com efeitos colaterais.
Mudança
E, de acordo com ele, o grupo que mais se expõe aos riscos da doença são os homens que fazem sexo com outros homens, sejam eles homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros. “O comportamento do sexo masculino tende a ser mais promíscuo, com múltiplos parceiros. Ao mesmo tempo, a probabilidade de contágio em relações sexuais anais é maior”, frisa.
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Erasmo Salomão/ Ministério da Saúde |
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Salvador: campanha preventiva nos carnavais de 2014 ocorreram em muitas cidades, inclusive na capital baiana |
Mas não significa, contudo, que os demais grupos estejam livres de ser infectados. Além de Aids, segundo Pesce, muitos pacientes têm chegado ao Centro de Referência em Moléstias Infecciosas também com quadro associado de sífilis, doença que também pode provocar sérios problemas de saúde de não for devidamente tratada.
“O comportamento, principalmente dos jovens, frente ao uso da camisinha precisa mudar. Exatamente por nunca ser extinto do organismo do paciente, o vírus HIV está ficando cada vez mais resistente aos medicamentos. Corremos o risco de começarmos, em algum momento, a ter dificuldades para tratar a doença. E não queremos voltar a assistir o que assistimos na década de 1980”, finaliza.
Em 8 anos, novos casos caem 31,2%
Embora a onda de novos casos registrados em 2014 preocupe, entre 2005 e 2013, a taxa de infecção pelo vírus caiu 31,2% em Bauru. No mesmo período, segundo o Unaids, novas contaminações pelo HIV cresceram 11% no Brasil e recuaram 28% no mundo.
Em Bauru, foram contabilizados 77 novos pacientes em 2005 e 53 no ano passado. Nas últimas três décadas, o recorde de contaminações na cidade foi registrado em 1995, quando 148 pessoas foram diagnosticadas com o vírus HIV, quase o triplo de 2013.
“Creio que, ao longo dos últimos anos, a rede pública de saúde tem sido eficiente na luta contra a Aids, inclusive quanto à prevenção”, opina Rogério Rodrigues, diretor voluntário da Associação de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab).
Ele também cita o amplo acesso ao tratamento com os medicamentos para mulheres grávidas, com a finalidade de prevenir a transmissão do vírus HIV de mãe para filho. Mas ele também concorda que as campanhas de orientação têm falhado em relação aos jovens, que continuam mantendo relações sexuais desprotegidas.
“Muitas vezes, encorajados pelo uso de álcool e drogas, eles acabam se colocando em situações de risco, sem usar preservativo seja com parceiros fixos ou eventuais”, analisa.
Sapab
Há 22 anos, a Sapab atende pessoas infectadas pelo vírus da Aids em Bauru. Hoje, a entidade abriga 12 soropositivos de ambos os sexos na Casa de Apoio Adulto do Núcleo de Apoio PositHIVo (NAP), que oferece atendimento integral durante as 24 horas do dia. O Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes, conhecido como Lar Social Cori, também tem capacidade para atender 20 crianças e adolescentes, mas não há abrigados infectados sendo atendidos atualmente. A Sapab oferece, ainda, o Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosos e suas famílias (Seid), com capacidade para atender cerca de 60 pessoas, mas apenas 10, hoje, são soropositivas.
Campanha Fique Sabendo promove mutirão de testagem gratuita para HIV
A Secretaria Municipal de Saúde inicia, hoje, a 7.ª edição da Campanha Fique Sabendo, que se estenderá até o próximo dia 5. Com o tema “Tire o peso da dúvida! Saber faz a diferença”, a iniciativa é coordenada pela equipe do Programa DST/Aids e Hepatites Virais, com apoio do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e Centro de Referência em Moléstias Infecciosas (CRMI).
Os testes podem ser realizados nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Unidades de Saúde da Família (USFs) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), onde também serão oferecidas orientações com distribuições de preservativos.
A coordenação da campanha garante sigilo das informações sobre os resultados de todos os exames. Durante a semana, as equipes envolvidas atuarão em atividades externas, com foco na população mais vulnerável à doença, em locais como Centro de Referência Especializado da Assistência Social para a População em Situação de Rua (Creas-POP) e Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD).
Neste ano, a novidade é que, além dos tradicionais testes rápidos que utilizam gotas de sangue, a campanha contará com testes rápidos para diagnóstico do HIV a partir de fluido oral. O procedimento, realizado pelo CTA, favorecerá a oferta do teste às pessoas resistentes à coleta de sangue.
No CTA, que fica na rua Quinze de Novembro, 3-36, testes para HIV e sífilis serão realizados das 7h30 às 15h. O resultado fica pronto em cerca de uma hora. Pacientes cujos exames apresentarem alterações serão acompanhadas pela unidade onde realizou o teste, até ser vinculado ao órgão de referência assistencial.