08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Cigarras e borboletas


| Tempo de leitura: 3 min

Os campos de Bauru eram cheioa de pequenos rios de águas limpas, tímidas e lerdas que desciam os mansos declives entremeios a capins ralos, árvoes e trilhas de areias brancas, onde emas andavam como camelos, em cujos dorsos as vezes repousava um papa-capim.

Dessa paisagem nada restou, nada foi guardado, apenas minhas lembranças, tenho lembrança de ter vivido no cerrado e ter vivido o cerrado em um tempo em que vi o cerrado passar por mim, isso foi como um vento que passou e foi, mas eu também fui porque não tive escolha, encolhi em um canto e vi o cerrado passar por mim e vi também pessoas passarem.

Sinto mais pelo cerrado e sua passagem sem volta do que pelas pessoas, as pessoas deixam outras pessoas, deixam histórias, nomes e cultura, o cerrado não deixou nada. Quando o cerrado era o império da natureza, homens apedeutas verdadeiros brutos sobreviviam descascando árvores para vender a casca, o cerrado foi vendido assim aos pouquinhos, vendido no varejo, não tinha uma placa: venda à granel.

Eu fui menino que vi a dança das copaíbas e faveiros com sua copas reviradas pelo vento abrigar cigarras na primavera, eu fui menino que vi cigarras entorpecidas com polem das flores abraçar troncos ásperos e cantar até rachar as costas para trocar de casca. Fui menino quando a curiosidade venceu o asco e o medo e assisti à sorrelfa o ritual das psicodélicas e coloridas borboletas baterem asas na casual alegria de romper o casulo e com seus voos bêbados desviarem dos ramos para pousar no refrescante breu da sombra.Tudo foi vendido, de rios e nascentes até casulos secos e vazios, cascas de cigarras, venderam os galos que encerravam a noite e escancaravam o dia, e os curiangos que anunciavam o escurecer para fechar o dia e abrir a noite.

Um menino que ainda não sabia sonhar também foi vendido. Nos dias de chuva braba os tatus saíam dos buracos para nadar na enxurrada, lá os capiaus usavam cascas de jatobá para ascender o fogo no fogão, nos tempos de habitar o cerrado os maiores perigos eram enxame de abelhas, picada de cobra, tapa de onça e abraço de tamanduá.

Zuadão no céu era passagem de enxame, tinha que deitar no chão e ficar como um pau de cerca até não escutar mais nada.

Na raleza do cerrado o sol passeava cedo.

No verão das chuvas, as partes baixas do cerrado se enchiam de água e formavam grandes lagoas, eram rasas, porém extensas, com água muito limpa e mansa que induzia grandes áreas de savana a uma placidez contagiante. Dava pra ver no remanso e semblante cândido daqueles córregos eventuais e que suas águas não queriam ir embora.

Enquanto não chegava o inverno e a seca, naquele pequeno santuário a vida explodia em diversas formas.

Quando menino eu me banhei nessas lagoas e me confessei no imenso átrio do cerrado, comunguei com árvores e moitas de cipós que serviam como abadia a uma santa cruz, onde um andante tombou vencido pelo compromisso com a indigência e virou mandador de chuva para as beatas do cerrado.

Houve um tempo no cerrado em que paisagem verde opaca com árvores, arbustos e capim bebiam o sereno da noite e refletia a luz do sol, hoje isso é feito por um verde brilhante, monolítico, desértico e de muito mal gosto.

Ali já não há mais silêncio, o silêncio foi quebrado por choros que vêm de longe, lá não há mais a nostalgia das tardes onde o sol e alcateias ensaiavam bailados vespertino antes de se esconderem.

Foi nesse tempo que me enlouqueci pelo cerrado e me senti sadio, foi ali que andando pé-anti-pé deixei rumores de passos nos areiões cinzentos.

Foi lá que saí da minha ignorância, mas ainda não encontrei o conhecimento, estou entalado na incompreensão das coisas que vejo e não entendo, entre essas coisas está a inteligência humana que teme o que não existe e não vê, mas destrói o que lhe é essencial à própria vida.

O engenho de moer cerrado roda 24h por dia.

Lázaro Carneiro