07 de julho de 2026
Articulistas

Spinetta

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Hoje só quero dizer que existiu um Luis Alberto Spinetta. Cantor e poeta argentino. E guitarrista sublime. Lírico e intenso. Influenciado diretamente por Freud, Jung, Artaud, Van Gogh. Explosiva combinação. Interrompido pelo câncer de pulmão. Em uma de suas canções, de 1973, canta (com devida tradução): "Hoje que um filho fizeste / Mude já sua mente / Cuide-o de drogas / Nunca o reprima / Todas as folhas são do vento." Tão simples, suave e autêntico. Você vê, ao ouvir, as folhas levadas pelo vento da canção "Todas Las Hojas Son Del Viento".

Nascido em um janeiro de 1950, este expoente do rock portenho viveu pela música e pela mensagem vinda do suor das mãos nas cordas e do coração rasgado. Também liderou uma banda chamada Almendra. E tantas outras. Uma vida e muitos discos. Para nós, brasileiros, desconhecido.

É incrível como nós, tão receptivos brasileiros, seguimos sem conhecer a alma criativa dos vizinhos. Nunca entendi isso. Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, Paraguai. Argentina, Uruguai e Chile. Quem disse que o Brasil está de costas para a América Latina? Parece mesmo. Nossas fronteiras são mentais e os muros, brutais.

Ainda bem que podemos usar a tecnologia e, pelas veias e vias da internet, conhecer um tiquinho que seja do que a capacidade sul-americana é capaz de trazer à tona ? e a música é só uma parte disso. Tem a arquitetura maravilhosa, a culinária "misturística", o afeto quente, a jorrada alegria (ou tristeza funda). Mercosul emocional.

Mas como podemos, brasileiros, passar sem conhecer um artista aqui da fronteira tão sem fronteiras como Luis Alberto Spinetta? Um craque que, em 1973, gravou (de primeira e sem retoques) o álbum "Artaud" (creditado a seu grupo Pescado Rabioso), homenagem ao poeta francês de mesmo nome. Francês cuja obra inspirou peça do ator brasileiro Rubens Correia intitulada "Os Inumeráveis Momentos do Ser", em 1986.

Correia morreu em 1996, um dia antes de completar 65 anos. Spinetta morreu aos 62, em 2002, e o poeta Antonin Artaud, aos 51, em 1948. Hoje só quero dizer: viva a arte que nunca reprime e lança suas folhas ao vento da eternidade.

O autor é editor executivo do JC