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Quioshi Goto |
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Funcionários se aglomeraram na frente da Ajax durante a tarde de ontem |
A CPFL cortou a energia da empresa Ajax na madrugada desta terça-feira (9), antes do horário previsto, que era para o período da manhã. Os funcionários que trabalhavam naquele momento foram dispensados do trabalho e retornaram para casa.
O corte causa ainda mais apreensão aos dirigentes e trabalhadores da empresa do ramo de baterias, instalada no Distrito Industrial 1.
Apesar dos apelos que têm recebido por parte de variados setores da cidade, a companhia que detém a distribuição de energia em Bauru e região não abre mão de receber o que está cobrando.
Além da situação com a concessionária de energia, as dificuldades estruturais da empresa vão além e por isso os funcionários da Ajax reclamam da falta de pagamento de parte dos salários de novembro, que venceu na última semana, e do 13.º salário, cuja primeira parcela deveria ter sido quitada em novembro.
Ao todo, a indústria conta com 1.100 empregados em Bauru. Como já foi informado pelo JC, a Ajax passa por um período de recuperação judicial.
Consultado pela reportagem do JC às 20h de ontem, o consultor de negócios da CPFL em Bauru, Luiz Antônio de Campos, reafirmou que o corte seria realizado. “Podemos fazer o corte a qualquer momento, porém, não o fizemos até agora (começo da noite de segunda-feira) para evitar qualquer tipo de confronto. Havia muita gente em frente à empresa à tarde. Se não houver a possibilidade de corte à noite, faremos pela manhã de amanhã (hoje)”. Porém, um funcionário da companhia esteve na empresa por volta das 2h de hoje para realizar o serviço de corte.
Impasse
A Ajax, por sua vez, questiona os valores cobrados pela CPFL. “A empresa não concorda com as multas e penalidades que estão sendo impostos. Tendo em vista a legislação da Aneel, que prevê cinco anos para sair do mercado livre e retornar ao mercado cativo, pagando R$ 1,3 milhão por mês de conta com penalidades e impostos, no decorrer de cinco anos teríamos que desembolsar aproximadamente R$ 80 milhões.
Uma empresa que está em recuperação judicial, que é o nosso caso, não pode arcar com uma valor deste”, comentou Silvia Regina Rodrigues, responsável pelo setor jurídico interno da Ajax. “Foi cobrado um valor de quatro a cinco vezes maior, sendo que no site deles (CPFL) existe a previsão de custo por megawatt consumido, o que a gente quer é pagar pelo que realmente foi consumido”, alegou.
Segundo Silvia, a conta de energia do mês de setembro é de R$ 1,84 milhão, e sendo que o consumo real somado aos impostos é de R$ 522 mil. Já o mês de outubro tem conta de R$ 1,54 milhão, com consumo e impostos sendo, na verdade, R$ 556 mil. “O restante são penalidades. É com isso que a Ajax não concorda”, ressaltou. As duas contas estão em aberto e a CPFL esperava, até o fim da tarde de ontem, para que pelo menos uma fosse quitada, o que não ocorreu.
Na lei
A CPFL diz que já negociou com a Ajax por duas vezes em menos de um mês e que não pode deixar de efetuar o corte, por se tratar de uma medida da Aneel – agência reguladora do setor energético no Brasil. “A CPFL está cumprindo a legislação. Já houve um grande esforço da Regional de Bauru da CPFL em negociar com a Ajax outras vezes, e mais uma vez nenhuma parte do que está em aberto foi paga”, explica Edson Renó Amaral, gerente de Departamento da concessionária na Regional de Bauru.
“Na verdade, nós (CPFL) somos mais um credor da Ajax, mas existem outros. Não dá para a empresa responsabilizar a CPFL pela situação. Além disso, eles estavam na compra livre de energia, e como estavam devendo lá, voltaram a comprar da concessionária após decisão judicial. Não tínhamos energia disponível para atender a demanda deles naquele momento, e tivemos que comprar e repassar pelo valor de mercado”, comenta Clauber de Marchi Pazin, gerente de Serviços de Campos da CPFL na região de Bauru.
Funcionários da Ajax informaram, na noite de ontem, que, nesta segunda-feira, a unidade não teve produção, pois não haviam recebido parte dos vencimentos de novembro e o 13.º. A Ajax informou que depositaria ontem a parte que faltava dos salários de novembro. Sobre o 13.º, a empresa confirmou que houve parcelamento após acordo com o sindicato e anuência dos trabalhadores.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Bauru e Região, Cândido Augusto Gonçalves Rocha, teme que os trabalhadores sejam usados como “escudo” para os problemas da Ajax. “Durante a semana passada, tivemos que paralisar as atividades por conta do não pagamento do 13.º. A empresa, então, propôs um pagamento de maneira parcelada, a cada dez dias pagando uma quantia. Diante das dificuldades, os trabalhadores aceitaram, até para que se tentasse garantir o pagamento do salário. Na sexta-feira, para surpresa de todos, a empresa pagou parte da produção e o restante ficou em aberto, porém, até agora ninguém recebeu essa parte que faltava”, afirmou.
Repercutiu na Câmara
Praticamente todos os vereadores manifestaram contrariedade ao iminente desligamento da energia da Ajax. Um dos discursos mais contundentes foi de Renato Purini (PMDB), que chamou de extorsão a multa de R$ 1,3 milhão por mês que tem sido cobrada pela CPFL.
“Tentaram propor que a empresa pagasse R$ 300 mil, que seria o valor referente à multa que recai sobre a concessionária. Aceitar isso, no entanto, seria a confissão de uma dívida que não existe. Querem matar a Ajax, que é genuinamente bauruense, e não podemos deixar. Se está acontecendo aqui, pode acontecer em outros lugares”, alertou o parlamentar.
O peemedebista disse ainda que, se for necessário, os vereadores se somarão aos trabalhadores da Ajax na corrente para impedir o corte de energia, agora marcado para hoje.
Moisés Rossi (PPS) também criticou a intransigência da concessionária. “Não adianta destruir a empresa. Se ela parar de produzir, aí é que ela não vai pagar nada. Precisamos de uma mesa de negociação, que crie condições para que a Ajax continue trabalhando e, ao longo do tempo, honre com suas obrigações”.
Fabiano Mariano (PDT) afirmou que a CPFL precisa demonstrar compromisso com os 1.100 postos de trabalho da empresa. Roque Ferreira (PT) observou que a garantia do sustento das famílias dos empregados é uma questão de direitos fundamentais.
Líder da oposição, Lima Júnior (PSDB) cobrou do prefeito postura mais enérgica para tentar impedir as demissões. “O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) e o federal Arnaldo Jardim (PPS), que nem de Bauru é, estão sensibilizados. Cadê o prefeito vindo a público para conclamar as forças vivas da cidade?”, questionou.
Markinho da Diversidade (PMDB), que responde pela liderança do governo, respondeu que o prefeito já fez apelos à CPFL nesse sentido.
Na calada da noite
Segundo o porteiro da Ajax, o único funcionário que restou do expediente noturno, por volta das 2h um caminhão da CPFL estacionou próximo ao poste e um funcionário desceu para romper o fornecimento de energia.
"Simplesmente o passageiro desceu com um cabo, desligou o equipamento no poste que abastece a empresa e saiu. Sequer desligaram o caminhão", lamentou.
Ainda de acordo com o funcionário, um encarregado ainda teria tentado conversar, mas a ação foi extremamente rápida.
Foram pra casa
As dezenas de funcionários que trabalhavam na hora do corte foram dispensados do expediente, exceto o porteiro.