09 de julho de 2026
Geral

Zé do Mel: um "abelhudo" há 45 anos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Quioshi Goto

Após muitos anos de trabalho, Zé do Mel continua em plena atividade

Foi no caminho para o trabalho que José Eufrauzino dos Santos se deparou, pela primeira vez, com um enxame de abelhas. O ano era 1969 e, até então, ele nunca havia visto tantos insetos aglomerados como daquela vez.

De lá para cá, passaram-se 45 anos e José se tornou o Zé do Mel, conhecido em toda a cidade por seu trabalho como apicultor e “retirador” de enxames em propriedades particulares e espaços públicos.

Aos 79 anos, José continua em plena atividade. Sobe grandes alturas – às vezes mais de 20 metros - e se embrenha por caminhos difíceis até localizar as abelhas, que podem ser perigosas caso se sintam ameaçadas.

“É preciso jeito e paciência para lidar com elas”, ensina ele. Atualmente, José não possui mais colmeias e também reduziu o ritmo de trabalho. Atende, por mês, cerca de cinco chamados.

“As abelhas estão desaparecendo da cidade e até mesmo da natureza”, afirma. Pela confiança que tem em seu trabalho, ele diz preferir não trabalhar com roupas especiais que protejam o seu corpo.

Usa apenas um fumegador com fumaça de lenha, que ajuda a reduzir a atividade das abelhas. “Elas têm medo e ficam protegendo a ‘família’ delas. Esse é o segredo para conseguir retirá-las de onde estão”, conta. Mas, mesmo assim, qualquer movimento em falso pode resultar em acidente.

Foi o que ocorreu na semana passada, quando Zé do Mel foi ferroado cerca de 60 vezes ao tentar retirar um enxame de uma residência. Apesar do susto, ele garante que não precisou de atendimento médico. “Hoje, a picada já não tem mais efeito em mim”, revela.


Por acaso!

Como deixou de ser apicultor, José costuma doar as colmeias que coleta para criadores da região. Mas, na época em que mantinha criações em casa, chegou a ter 54 colmeias e vendia mel para toda a cidade.

A profissão, ele diz, começou por acaso, quando ele tinha 35 anos. Ferroviário, era morador do Jardim Prudência e, no trajeto até o trabalho, precisava caminhar por uma área de mata. Certo dia, no final da década de 1960, viu, pela primeira vez, um enxame no local.

Quando chegou ao serviço, José contou a experiência para os colegas e um deles, que tinha algum conhecimento sobre apicultura, começou a ensinar-lhe as primeiras técnicas. “Chegamos a cogitar uma parceria, mas ele acabou desistindo. Depois de um mês, o chefe da estação, que já sabia dessa conversa, falou que tinha um enxame na laje da plataforma. E foi assim que tudo começou”, relata.

Consultas com profissionais do ramo, leitura de livros e a própria prática diária fizeram com que José se tornasse um especialista em abelhas. Nos tempos de trabalho mais intenso, ele chegou a atender mais de 90 chamados por mês.

“Me tornei conhecido na cidade inteira. E consegui conciliar este trabalho com o de ferroviário. Quando me aposentei, em 1983, também parei com a apicultura. Mas continuo lidando com as abelhas. Sou um dos últimos que restaram e não penso em parar”, diz.