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Mortari ao lado de uma de suas obras |
As artes plásticas e as letras de Bauru estão de luto. Perderam, ontem, um de seus mais importantes representantes com a morte de Walther Mortari. O artista plástico, escritor e membro da Academia Bauruense de Letras morreu aos 91 anos, vítima de um câncer de pulmão, e parte deixando importante legado de sua produção de 75 anos de criação ininterrupta. Seu enterro foi realizado ontem, no Cemitério do Ypê.
Um dos artistas que mais retrataram Bauru, sua obra, além do valor artístico, guarda a importância de registro histórico. Mortari deixa a viúva Darcy Figueira Lima Mortari, os filhos Walter José Mortari, Milena Maria Mortari Pereira, Cristiane Lima Mortari Sevilhano, além de nove netos e seis bisnetos.
Nascido em 22 de setembro de 1923, Mortari descobriu o talento artístico cedo, aos 16 anos. Porém, nunca precisou viver da arte. Bancário aposentado, o artista fez da paixão o verdadeiro ofício e criou um estilo próprio, que fugia do acadêmico.
A filha Adriane afirma que Mortari era um entusiasta da vida e canalizava sua energia para a produção artística. “Meu pai foi uma pessoa que viveu intensamente. Ele adorava cores. Aposentou-se muito cedo e dedicou-se às artes plásticas também muito cedo. Ele tinha um ateliê na edícula da nossa casa e lá tinha uma bancada onde fazia as esculturas e finalizava as telas”, relata.
Suas famosas obras eram “apenas” finalizadas no ateliê porque o artista não dispensava pintar Bauru, sua grande inspiração, nas ruas da cidade. “Ele gostava de pintar ao vivo. Pegava o carro, junto com o seo Salvador Ponce ou o seo João Ponce, e saía pela cidade afora. Achava um ponto bonito para retratar, parava o carro, montava os cavaletes e pintava”, conta Adriane. “Ele tinha muita felicidade em ver tanto ponto da cidade para ser retratado e historiado. Hoje existem telas dele de pontos da cidade que não existem mais, que foram modificados”, ressalta a filha.
Sentimento artístico
A produção cultural de Mortari seguiu incontida até os últimos dias de vida. O artista plástico deu lugar ao escritor com o passar dos anos e à produção escrita das histórias que ele adorava contar e também ouvir. “Ele era muito brincalhão, gostava de fazer piada, muito ativo, inquieto. Conversava muito com todos, adulto, crianças... conversava com todo mundo, inclusive com quem ele não conhecia. Gostava de ouvir e contar histórias”, observa Adriane.
A ponte das artes plásticas para as letras foi natural. “No final da vida, quando não podia mais retratar a cidade porque já não dirigia e era perigoso parar para pintar, começou a escrever. Transferiu a sensibilidade artística dele da tela para a escrita. É o que ele chamava de sentimento artístico”, explica a filha. A vivacidade e entusiasmo de Mortari eram traduzidos em seus tradicionais e incontáveis brindes. “A tudo ele brindava”, recorda Adriane. Então, um último brinde ao seu talento.
Só elogios
A artista plástica Sônia Ayres Gabriele, que conviveu com Mortari por vários anos e acompanhou seu trabalho, comenta que o artista produziu uma obra com personalidade, autêntica. “Ele tinha uma técnica muito dele e deixa o legado da arte, porque foi um dos maiores pintores que Bauru já teve. Foi o artista plástico que mais trabalhou em cima da história de Bauru”, define.
Gabriele ressalta que Bauru perde o artista, mas não a arte por ele deixada. “Ele deixou um trabalho pronto. Foi um privilégio para a cidade ter um artista com a capacidade dele. É um patrimônio da cidade e deve ser venerado como foram outros grandes artistas, a exemplo de João Ponce, Salvador Ponce, Angelina Messenberg. A história da arte em Bauru está baseada nestas pessoas. Dentro das artes plásticas, o Mortari está no panteão da cidade”, aponta.
A escritora e poetisa Josefina de Campos Fraga considera que Mortari era artista completo. “O Mortari é o maior ícone da cultura bauruense, fazia poesia, quadras, escrevia contos, pintava, fazia escultura... Tem uma obra de pintura imensa e grande valor. Não conheço dentro do meio cultural bauruense ninguém tão completo.”
Contador de histórias
Artista plástico, poeta, escritor... Walther Mortari foi um contador de histórias e retratou a história. O artista começou a pintar por volta dos 16 anos sem técnica nenhuma, inspirado pelos trabalhos do artista local João Ponce Paz. Alguns anos mais tarde, chegou a Bauru a artista Angelina Waldemarin Messenberg com quem Mortari foi aprender a técnica. Em 1947, junto com João Ponce Paz e mais alguns artistas da região, funda a UBAP (União Bauruense de Artes Plásticas) que, no mesmo ano, realizou seu primeiro Salão. Mortari participou de praticamente todos os salões de arte de Bauru e muitos outros em cidades como São Bernardo e São Paulo, além de exposições coletivas e individuais. O artista dizia que não existe nada mais difícil do que dar nomes aos seus trabalhos. Por isso muitas obras não têm um título.
Fica a obra
O secretário de Cultura de Bauru, Elson Reis, lamentou a morte de Walther Mortari, mas lembrou o legado que a obra do artista deixa para a cidade e as artes visuais brasileiras. “Ele é uma referência não só da obra, mas de pessoa. É alguém que sempre agregou à classe artística e era muito querido no meio. É uma grande perda do ponto de vista do ser humano e do artista. Um ícone das artes visuais em Bauru, foi mestre de muita gente e participou da época de ouro das artes visuais de Bauru. Enfim, é uma perda irreparável. Mas ainda bem que o artista tem a vantagem que fica a obra. E fica este legado”, considera.