08 de julho de 2026
Articulistas

Vamos aprender com o papa Francisco

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Uma onda de corrupção e desmando pôs fim ao governo de Getúlio Vargas, de Jango Goulart, do governo militar, de Collor e o desdobramento do caso Petrobras parece levar o atual governo para o mesmo caminho. Corrupção não é coisa do Brasil e nem desta época. É coisa de todos os temos, de todos os lugares e nem deixa escapar a Igreja.

É como a ?Hidra de Lerna?, da mitologia grega, que matava com seu hálito peçonhento e nunca morria porque suas inúmeras cabeças se regeneravam quando eram decepadas. Quando o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa se diz enojado e arrependido, é porque sua reputação, como a dos outros envolvidos, virou uma borra asquerosa, tendo aspirado o bafo da hidra.

O combate à corrupção pela força, como ocorreu com a Revolução Francesa, a Revolução Soviética e tantas outras, inclusive o golpe militar de 64, aqui no Brasil, costuma gerar governos totalitários que se iniciam rigorosamente moralistas e terminam atolados em corrupção. O combate pelas regras democráticas, por sua vez, tem sido pouco eficaz, porque a tarefa reformista deve ser feita pelos representantes do povo, onde poucos estão fora de esquemas corruptos. Sucessos relativos às vezes são obtidos quando aparece uma figura de forte liderança, que pode aglutinar colaboradores íntegros, que felizmente ainda existem, e consegue acordar a força popular.

O papa Francisco está dando o exemplo que o mundo precisa, com a força da humildade. Simples, como o mais simples dos padres, não desejava ser papa. E ao ser escolhido não perdeu a simplicidade. Suas primeiras decisões surpreenderam o mundo e tornaram perplexos e contrariados os cardeais, quando dispensou o carro e os seguranças e seguiu de ônibus com outros cardeais, dispensou o quarto reservado ao papa por um quarto singelo, preferiu usar o solidéu branco à mitra, o anel de prata em vez de ouro, a cruz de aço no lugar da de ouro e o trono dourado por modesta cadeira branca.

Comer de bandejão e outros comportamentos de simplicidade não são demagogia, que é coisa que desmoraliza quando percebida. No caso do papa Francisco, a autenticidade lhe dá força não só entre os fies, mas mesmo entre os dignitários de outras religiões como ficou patente em sua recente visita à Turquia.

O papa Francisco encontrou a Igreja numa situação conturbada, com problemas de pedofilia e de corrupção na administração do Vaticano. Notícias de fevereiro de 2013 diziam: "O Papa Bento XVI abandona o barco em meio a sérios problemas financeiros. A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará." The Economist, com base em dados de 2010, dava que a cifra rondaria os 170 bilhões de dólares.

Pois bem, o papa Francisco promoveu mudanças na gestão financeira, nomeando o cardeal australiano George Pell ministro da Fazenda do Vaticano, exigiu mais austeridade no emprego dos recursos da Igreja e afastou o bispo Franz-Peter Tebartz-van Elst, em Limburgo, na Alemanha, que havia construído uma casa por 31 milhões de euros. Agora, a notícia mais recente diz que o ministro da Fazenda do Vaticano revelou que centenas de milhões de euros foram encontrados "escondidos" em contas de vários departamentos da Santa Sé sem terem aparecido nos balanços da cidade-Estado e que as finanças estão melhores. A partir de 1 de janeiro entrará em vigor um manual de políticas de gestão financeira para o Estado do Vaticano, mandado fazer para disciplinar a gestão. É a força do exemplo que temos que aprender com o papa Francisco.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru