08 de julho de 2026
Articulistas

Sobre nuvens e profundezas

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Aos 79 anos, o filósofo canadense Barry Stroud esteve no Brasil para transformar em palavras aquilo que muitos sentem na prática. "As pessoas querem preencher seu tempo com coisas e com tudo junto: consumismo, individualismo e carreirismo. Tudo o que fazia uma vida mais rica, como admirar uma obra de arte ou manter um bom contato com a natureza, vai ficando para trás".

À Eleonora de Lucena, na "Folha" de terça-feira, Stroud detalhou sua visão de mundo a partir da realidade nos EUA, onde leciona: "As pessoas gastam tempo nenhum em reflexão. Raramente se vê pessoas sozinhas andando sem estar com fones nos ouvidos, telefones..."

Crítico da dispersão e da superficialidade que vê como reinantes nos dias que correm (e como correm!), ele ressalta: "Hoje é clicar. Não é mais falar, olhar e fazer coisas junto. Vidas são menos ricas ? não economicamente".

Busquei uma voz contrária ao filósofo justamente para exercitar e compartilhar o que ele defende: a reflexão. Encontrei Walcyr Carrasco e seu texto na revista "Época" publicado dois dias antes da entrevista de Stroud à "Folha". Escreve Walcyr o artigo ?A internet e a união familiar?: "Graças à rede, agora sei que tenho família em Curitiba e reencontrei dezenas de primos". E emenda: "Há aspectos pavorosos na nuvem. Mas também existem coisas belas, como a união familiar. Meus dois irmãos e eu criamos um grupo no WhatsApp."

E aí, leitor? Será que, como já escreveu a web designer Lidia Freitas, internet aproxima quem está distante, mas afasta que está por perto? Será que, mesmo vendo atos solidários por todos os lados, estamos tão individualistas assim? No fim das contas, talvez tanto o docente canadense quanto o autor brasileiro estejam com fatias de razão. O fiel da balança é o tal livre arbítrio. Aquilo que faz a gente reequilibrar as forças, assumindo responsabilidades reais. Que as escolhas sejam por uma vida menos rasa, mais profunda e mais feliz.

O autor é editor executivo do JC