08 de julho de 2026
Geral

Fim de ano pode alimentar depressão

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

“Fogos escrevem no céu, os meus planos e desejos, sonhos explodem no peito, a vida é pra celebrar”... A primeira frase da letra de um samba enredo da escola bauruense Acadêmicos da Cartola retrata o fim de ano entre as tradicionais datas de festejos, mas o período de comemoração e balanço de vida pode aflorar sentimentos de frustração, tristeza e ‘alimentar’ o início, inclusive, de um estado de depressão.

 

Entre os psicólogos, o final de ano, sobretudo dos dias que antecedem o Natal até a primeira quinzena do Ano Novo, é uma fase que tem merecido atenção. Entre as pessoas, o estresse e até a correria para preparar e participar das festas nem sempre é percebido. E aqui, como em todo episódio onde mente e corpo não estão equilibrados, o caminho para a depressão pode ter as portas abertas com mais facilidade.

 

Além disso, festejar o Natal e o Ano Novo com todas as simbologias emocionais, religiosas e familiares em si, é uma experiência dura para quem enfrentou, ou ainda enfrenta, o luto. Situação não menos angustiante vive quem ainda está digerindo o rompimento de um relacionamento, ou absorve a consequência de uma briga ou desentendimento mais grave com familiar ou amigo.

 

Para a psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental Mauriceia Quinhoneiro, é preciso refletir sobre o efeito psicológico do período de final de ano para cada pessoa. “São vários sentimentos que podem se manifestar no período. Alguns ficam depressivos pela lembrança de perdas ou o fim de um relacionamento, outros lamentam a distância de algum parente, outros se cobram mais nesta fase por erros cometidos durante o ano, ou se culpam pelo que não fizeram, não realizaram”, adverte.

 

Uma das abordagens é destacar o estado emocional de cada pessoa diante de suas habilidades relacionais. “Neste momento se anunciam os vínculos ou ausência das habilidades de relacionamento de cada indivíduo”, aborda.

 

No hábito da troca de presentes, por exemplo, está embutido o vínculo social, questão que não está presente apenas nas sociedades de consumo, mas em outras formas de sociedade. “Estudos antropológicos revelam que o ritual de troca de presentes está manifestado em várias sociedades tribais, cujas regras gerais resultam numa tripla obrigação, a de dar, receber e retribuir. Esta regra permite, em todas as sociedades, o estabelecimento e a manutenção de relações sociais”, observa a terapeuta.

 

Vínculos

 

Assim, considera Quinhoneiro, “pessoas demasiadamente independentes ou autonômicas, ou, ainda, que estão convivendo com um processo de luto, podem ficar um tanto deprimidas nesta época”, pontua.  

 

Ou seja, para este padrão de convivência social, o não se agregar às reuniões nos encontros de final de ano pode significar se sentir inadequado, “estranho no ninho”.

 

De outro lado, a cada ano novas necessidades são criadas, e nem sempre as pessoas dispõem de tempo, energia e dinheiro para dar conta da profusão de informações do período festivo. Isso envolve, de acordo com a tradição e costumes de cada família, o acúmulo de obrigações em torno de presentes, enfeites, comida farta, bebida e panetones, tudo ao mesmo tempo.

 

“Os apelos comerciais podem transformar as festas de final de ano numa ostentação cafona, com crianças e adultos competindo pelos presentes mais caros e, muitas vezes, desnecessários”, complementa Mauriceia.

 

Para a concentração de simbologias e obrigações, um passo é a organização e reflexão antecipadas para evitar corre corre e pressão emocional.

 

Já para quem enfrenta uma fase psicológica mais aguda, como o luto, respeitar o período com equilíbrio e o apoio dos mais próximos traz esperança, além de alento.  

 

A psicóloga sugere o respeito “ao estado emocional” de cada um. “O espírito natalino pressupõe um espírito crítico. Cabe sempre uma revisão de valores e significados. Para quem está disposto, é uma ótima época para união, celebração e diversão entre familiares e pessoas queridas, oportunidade para renovar afeto e exercitar a gratidão”, menciona.

 

Mas para quem está vivendo a fase “sabática”, no trabalho ou na relação pessoal, não estar disposto à festa também não é problema. “Pode ser um ótimo feriado para relaxar na companhia de bons filmes, livros e muita pipoca”, complementa.

 

Por fim, o “fim” não é o derradeiro em se tratando de Ano Novo. “Fomos condicionados desde sempre a entender e a pensar o tempo de forma cíclica. Daí todo começo de dia, de semana, de mês e, principalmente, de ano, tendem a abraçar os ideais de mudança e renovação. No mais, estamos às voltas com fortes apelos emocionais, destacados pela mídia e pelos costumes, a associar esta época com celebração e renovação”, completa Quinhoneiro.

 

Dinheiro esconde motivo real de brigas 

 

Pesquisa encomendada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revela outra faceta embutida nas relações do consumismo: a briga motivada por dinheiro, ou onde o dinheiro é o “embuste”. O comportamento surge, em especial, também no período de festas do final de ano. 

 

Segundo o SPC, 17% dos casais brasileiros assumiram, no levantamento, que o tema “dinheiro” é o conteúdo ou ‘motivo’ de brigas frequentes nas famílias. A informação foi encomendada em conjunto com o portal de educação financeira “Meu Bolso Feliz”.

 

Conforme os dados, os conflitos aumentam para índice de 22,7% dos entrevistados quando estes estão inadimplentes. Na avaliação da pesquisa feita pelo educador financeiro José Vignoli, o tema “dinheiro” camufla a natureza de outros conflitos.

 

“O dinheiro vem disfarçado nas discussões. Se falta dinheiro para uma saída, o problema pode ser percebido como falta de romantismo. Se não sobra dinheiro para compra de roupas novas, o problema pode ser entendido como desleixo do parceiro”, aponta.

 

Assim, o dinheiro, de fato, é o pano de fundo e não o causador de conflitos. E a questão não surge somente nos lares onde falta dinheiro para suportar as despesas ou sonhos de consumo. A questão também está presente nas famílias onde há “receita em abundância”.

 

Ou seja, quando a renda do casal é alta, também é elevado o nível de desentendimento sobre onde ou no que gastar. Assim, o homem costuma reclamar de gastos que considera supérfluos da mulher e esta, de sua parte, por vezes critica que desperdício ou “pão durice” do marido. 

 

Em síntese, o estudo mostra que a ausência de transparência em relação aos gastos e também aos ganhos, na família, pode resultar em endividamento. A pressão dos filhos para compras nem sempre necessárias é uma das causas. É o hábito, equivocado mas de difícil controle, de pais cederem a apelos emocionais, mesmo quando o “desejo” do filho é apenas de natureza consumista. 

 

Uma saída, apontam psicólogos, é inserir o filho, desde cedo, nos conceitos de educação financeira. Outra etapa desse processo é gerar a participação dos filhos nas reuniões em que os pais discutem os gastos e os planos. Assim, no tempo, a educação inclui noção do “ter”, do “quanto vale” e do “posso” ou “não” para cada caso e período. 

 

Dualidade de sentimentos ‘de época’

 

Para muitos, realizar amigo secreto e organizar o encontro de família é uma atividade extra extremamente produtiva e que gera enorme satisfação. Mas para outros, o acúmulo dessas tarefas adicionais gera estresse, sobrecarga que se acumula com os compromissos do dia a dia que não podem ser deixados de lado. 

 

A observação é do psicólogo Alexandre Bez, especialista em relacionamentos, ansiedade e síndrome do pânico. “É comum que haja um pequeno estresse, que pode ser avaliado como um fator positivo, afinal, motiva o indivíduo a lidar com as tais tarefas. Entretanto, para muitos ocorre o efeito inverso. As ocupações com as festividades e os compromissos decorrentes do Natal e do Ano Novo produzem sentimentos negativos, potentes desencadeadores de ansiedade, angústia e depressão, sendo liderados, principalmente, pelo estresse”, lança. 

 

Assim, Bez pondera entre sonhos e delícias, de um lado, e peso e pesadelo, de outro. “É comum inúmeros sentimentos manifestarem-se neste período, como alegria, tristeza, tensão, prazer, ansiedade. Portanto, é preciso que cada pessoa tenha o foco voltado para si e permaneça atenta às suas emoções, avaliando em que medida elas surtem efeito positivo ou negativo em suas vidas”, orienta. 

 

Para os que têm de enfrentar momentos de melancolia por não mais contarem com um ente querido, o psicólogo sugere a receita básica: aproximação com quem amamos e sentimos amor. “Neste momento, está em jogo não apenas o presente, mas toda a experiência acumulada nos anos anteriores. Alguns se sentem depressivos por não ter mais seus entes queridos, fator que desencadeia lembranças, tristeza e melancolia. O ideal, neste momento, é estar cercado de pessoas de quem se gosta e aumentar a interação com elas ao máximo possível”, amplia.

 

Pertencimento 

 

Mas Bez recomenda que mesmo essas pessoas não se isolem. “Seja um amigo, um namorado ou um vizinho, esteja ao lado de companhias agradáveis. É importante não se afastar das comemorações para não deixar que elas passem em branco. Para muitos, ainda funciona um belo ritual de compras ou quem sabe, se envolver em uma ação beneficente, que dá a sensação de pertencimento a uma comunidade e bem estar”, menciona.

 

Outra situação, igualmente comum, é de famílias com pais separados. Pode haver estresse, ou no mínimo desconforto, na “negociação” de com quem o filho vai estar na comemoração. “Como neste caso é inevitável passar por este delicado assunto, a sugestão é que os pais já estejam preparados para enfrentar estes pequenos dissabores e evitem supervalorizá-lo. Em casos de relações amigáveis, o ideal é deixar o cronograma preparado com vários meses de antecedência”, orienta. 

Fobia e ansiedade

O período de balanço impõe para alguns um verdadeiro martírio e, para outros, o surgimento de novas cobranças, além da autocobrança exercida por cada um. E isso pode ser resultante de metas que o indivíduo traçou e não realizou, seja por qual razão.

 

“Todos estes fatores podem gerar uma crise. Portanto, é preciso ter cuidado com as expectativas que sempre causam reações de angústia. Em casos específicos, algumas pessoas chegam a desencadear uma fobia a esta data, que tem como mote a angústia aos compromissos festivos”, elenca. 

 

Para isso, a sugestão é objetiva: relaxar. “Fazer uma caminhada, ir ao parque, respirar ar puro e avaliar a situação da forma mais calma possível. E sempre, fazer atividades que tragam a sensação de prazer pessoal. Há indivíduos em que o nível de ansiedade é muito alto, portanto, nestes casos o ideal é o acompanhamento médico para eventual prescrição de ansiolítico”, complementa. 

 

Estar disposto a se analisar e modificar, respeitando a própria capacidade, é fator essencial. “Não se esquecer de evitar a ansiedade antecipatória. Não sofrer antes do tempo, pois o Natal é um acontecimento maravilhoso e ideal para se apaziguar as frustrações do passado ocorridas nesta época ou em torno dela”.