10 de julho de 2026
Bairros

Bauruenses em dificuldades preservam o dom de sonhar

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 13 min

O que leva uma pessoa a morar no meio do mato, sem água, luz, ou escolher viver nas ruas em vez de ter contato com a família, ou mesmo sozinho numa casa? A questão financeira, sem dúvida, pesa. O fato de ter nascido paupérrimo e de, apesar disso, gostar de ser assim, viver bem com o pouco, pouquíssimo, quase nada, que é o que Deus lhe deu, também pode ser uma das razões. Existem ainda os conflitos familiares, as crises existenciais, as demências e, principalmente, o uso de drogas, que força os dependentes a irem para o meio da rua. Cada qual com sua razão, seu motivo. E é bom conhecer as histórias de quem está levando essa vida. No mínimo, para a gente dar valor ao que se tem.

 

Estudo oficial

 

No início deste ano, em 24 de janeiro, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome revelou  o perfil dos moradores de rua brasileiros. A principal conclusão do amplo estudo encomendado pelo órgão é a de que as pessoas em situação de mendicância são em sua maioria homens alfabetizados e jovens, que abandonaram suas casas por problemas com álcool ou drogas ou por terem perdido o emprego.

 

Mas são muitos os fatores responsáveis, na atualidade brasileira, por levar as pessoas a viverem nas ruas. Sem dúvida, todos eles são reflexo da chamada exclusão social. Os indivíduos que usam a rua como moradia explicam, na maioria dos casos, que não têm vínculos familiares. O desemprego, a violência, o alcoolismo, o uso de drogas, a doença mental, entre outros fatores estão entre as principais causas dessa exclusão. 

 

Os números da pesquisa

 

A análise dos dados recolhidos revela que 82% da população de rua é formada por homens. Mais da metade (52%) tem entre 25 e 44 anos. Quanto à raça, 39,1% se declararam pardos, 29,5% se disseram brancos e 27,9% se identificaram como negros.

 

Do total de indivíduos pesquisados, 48,4% estão fora de casa há mais de dois anos. Dois em cada três (69,6%) dormem na rua, enquanto 22% costumam dormir em albergues ou outras instituições. 

 

As causas definidas

 

Os números mostram o que acontece quando eles estão à margem da sociedade, mas não esmiúça os motivos. Mas o que leva alguém a decidir viver ao relento, sem endereço fixo?

 

 Existem poucos estudos nesse sentido. Um deles foi feito há dois anos em Curitiba, no Paraná. Coordenado pelo doutor em Sociologia Lindomar Boneti, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), revela que são três as principais causas: conflitos familiares, desemprego e fracasso escolar. Lá, ao entrevistar 300 moradores de rua, chegou-se à conclusão de que geralmente as causas estão dentro do seio familiar. 

 

O que encontramos

 

De fato. O Jornal da Cidade encontrou um personagem que frequenta a região da Vila Cardia, Jardim Brasil e Higienópolis vivendo de biscates e preferindo dormir na rua. A razão? Conflitos familiares.

 

Mas o que dizer de uma família inteira que prefere viver como bicho do mato e está feliz assim? A ponto de duas filhas dessa família não pensarem apenas no  que precisam e em si mesmas e dividir o pouco que têm com os demais?

 

E se a pesquisa mostrou que 22% dos moradores de rua costumam dormir em albergues, em Bauru não é diferente. Fomos conhecer um pouco da realidade dessa vida (leia nas próximas páginas).

 

Desavença com a família e... rua!

 

Sempre por volta das onze da noite, Valdeci  está se preparando para ir dormir.  Leia-se: procurando um local onde não chova para armar a sua cama. Cama é modo de dizer. Na verdade, seu leito vem a ser um cobertor para forrar o chão e outro para se cobrir. Tudo o que ele tem na vida leva na bicicleta. Duas enxadas novinhas que, orgulhoso, conta que comprou com o fruto do próprio trabalho. Mesmo tendo documentos, carteira de trabalho, ele vive de biscates que faz na rua como jardineiro.

 

O nome completo dele  é Valdeci de Oliveira, o “homem da bicicleta”. E ao contrário da maioria das pessoas que fazem bico - ele vive de pequenos expedientes, especialmente no setor de jardinagem -, não tem para onde voltar quando o sol se põe.

 

Viver ao léu

 

Ele come na rua, compra marmitex (“tem o homem da padaria que me vende a R$ 7,00, mais barato e mais reforçada”, ele conta). Mas nem sempre tem o dinheiro para comprar e sempre tem, também, quem lhe nega o dinheiro da marmita. Às vezes passa só a pão e cafezinho doados pela caridade alheia.

 

Mas no geral, ele consegue, sim, o dinheiro de uma refeição. Não gosta de pedir esmolas, nem de aceitar ajuda estranha. Gosta de ter trabalho. E perambula pelas ruas dos bairros Higienópolis, Jardim Brasil e Vila Cardia. Sempre encontra quem precisa de ajuda. Em geral cobra R$ 10,00 pelo serviço de capinar jardim, limpar a frente de uma casa. Quando o serviço é muito e dura o dia todo, cobra R$ 30,00 que é o máximo que consegue amealhar num dia inteiro.

 

As necessidades ele faz contando com a colaboração de vigias de empresas onde consegue ancorar e fazer amizades.

 

Não costuma dormir cedo e escolhe muito bem onde pernoitar. Prefere que seja perto de empresas onde haja vigia. É que já teve uma experiência difícil, roubaram o pouco que ele tinha. “Me levaram bicicleta, todas as minhas roupas e uma carriola de pedreiro”, lembra com tristeza. Banho? “Eu me lavo sempre onde tem água”, garante. E nos dias em que o encontramos para entrevistar estava, de fato, de  roupa trocada em relação à noite anterior quando o vimos indo dormir.

 

Ausência de vínculos

 

Valdeci é o exemplo típico de um morador de rua com ausência de vínculos familiares. Afinal, a  família exerce um papel importantíssimo em nossas vidas, quase sempre é responsável pelo que somos e o que seremos. 

 

Quando esse vínculo desaparece, as consequências costumam ser desastrosas.  Nos dias atuais, a falta de famílias ou o fato de pertencer a famílias totalmente desestruturadas estás se tornando algo corriqueiro. E isso, muitas vezes, é o que leva tantas pessoas a morar nas ruas, por não encontrar em casa um ambiente agradável. 

 

O motivo pelo qual Valdeci está na rua é fácil de saber: “não combina” com a família. Nascido em 13 de maio de 1969, esse bauruense, aos 45 anos e castigado pelo tempo, confessa que tem família. Mas é categórico: não dá certo. Não tem mulher, nem filhos e nem cogita procurar os demais parentes. Faz um sinal de que a porta está fechada. Lamentar? Só o fato de que não sabe ler, nem escrever. Nunca estudou. 

 

 Monossilábico

 

E não pense que tirar essas poucas palavras dele foi tarefa fácil. Valdeci é arredio à reportagem. É de poucas palavras. Olha desconfiado e, mesmo a ajuda que vem, encara com desconfiança. Um exemplo? Uma mulher chega e lhe diz que tem  umas ferramentas antigas se ele quiser para ampliar o leque de utensílios que carrega, já que só tem duas enxadas. Ele pensa, pensa (a gente até acha que não entendeu a pergunta), analisa e depois de longos segundos responde monossilábico: “aceito”. 

 

Valdeci também se sustenta no sonho e na esperança de que em 2015 tudo será diferente. Ele está esperando o “professor Marcos (não sabe o sobrenome) me chamar para morar no sítio dele”. Em troca vai trabalhar, claro, limpando, capinando e fazendo o que for preciso.

 

Esperança, Sonho e Sorriso

 

Esperança, Sonho e Sorriso são nomes de três gatinhos de uma ninhada de seis da gata das irmãs Luana e Rita de Cássia, que têm também dois cachorros, todos legítimos SRD - sem raça definida, ou “puríssimos vira-latas”. Não poderia haver nome mais apropriado para os gatinhos. Rita e Luana são filhas de uma família que vive no meio do mato feito bicho, e têm vários sonhos povoando suas mentes. Acima de tudo, têm muita esperança num futuro melhor.

 

E, antes que o leitor se apresse em fazer um julgamento, achando que estamos diante de duas miseráveis e infelizes,  aqui vai um alerta: elas, que vivem com o pai e a mãe, têm estampado no sorriso exatamente o que se pode imaginar: são alegres e estão satisfeitas por estar exatamente  onde estão e onde moram. E, quando falam disso, parecem duas menininhas. Mas Rita de Cássia Alves da Silva já tem 30 anos e a irmã menor, 24.

 

Quando a gente pergunta para elas se querem sair do local onde estão - praticamente morando num curral, com o casebre de lona preta improvisado, num perrengue de dar dó, sem água, sem luz, sem o mínimo de energia, ao relento, tomando banho de caneca de água fria,  no meio de um matagal -, elas se apressam em responder: “Não mexa com isso, não. Vivemos bem aqui”, diz Rita, para contar que o pai gosta de sair mudando-se. E elas, que estudaram um pouco, até a terceira série, querem fixar residência por ali mesmo, no campo, em liberdade.

 

Tranquilidade rural

 

Mas e ir para uma casa de vocês? Elas não acreditam que isso seja possível. Além disso, o local onde estão, no meio de um mato próximo a um pasto, onde são criadas algumas dezenas de cabeças de gado e cabritas, as deixa mais tranquilas.

 

“É que o dono da terra mora no Japão e o encarregado daqui disse que ele não vai mexer com a gente não, nós não incomodamos, além disso, ele é muito, muito, muito rico mesmo”, explica Rita. Para ela, essa é a referência maior de riqueza, ter uma propriedade numa região da cidade que já foi rural e agora está ficando encravada de chácaras e ranchos. 

 

Embora os quatro membros da família sejam bem conhecidos da região, optamos por não revelar onde se encontram. Até porque eles todos querem mesmo essa privacidade. “Quando começam a chegar muito perto e a mexer com a gente, o pai, que é meio sistemático, já quer mudar”, diz Rita, a mais comunicativa das duas irmãs.

 

Catador de reciclável

 

O pai é “seu” Carlos Alves da Silva, catador de reciclável. Do ofício de sair logo cedo catando as coisas pelas ruas e vivendo da caridade alheia, ele garante o sustento das filhas e da mulher, Maria Deusa. Apesar do clima amistoso com que nos recebe, fica a ressalva: elas são bastante desconfiadas. Chegamos só até a cerca de arame farpado, onde há uma “porteira” improvisada. Distante uns 30 metros da choupana que serve de casa.

 

Lá a mãe fica de longe, olhando com timidez e ressabiada. Mesmo estando acompanhados por um amigo da família, ela parece bastante desconfiada.

 

O amigo é o jovem Donizete Jerônymo Júnior, que prefere ser chamado Júnior Jerônymo. O vendedor é uma espécie de anjo da guarda da família e em quem eles parecem confiar bastante. 

 

Quando chegamos para fazer a matéria, Rita vai logo justificando: doou uma boa parte do que recebeu de Júnior para outra família carente ali do bairro. 

 

É de emocionar a solidariedade de quem quase nada tem. Com jeito, sempre dá para repartir um pouco com os outros. Da mesma forma que repartem a comida com os cães e gatos.

 

E para sua subsistência, a merenda, como dizem, é feita em fogão improvisado, 

 

Eles sonham com a volta para casa

 

Por mais que haja felicidade em viver com pouco, como o caso da família Alves da Silva, não é esse o sonho da maioria das pessoas. Ao contrário. Muitos caíram na chamada “sarjeta” e só estão nas ruas por conta de uma fatalidade: esbarraram num determinado momento da vida no vício, seja no álcool ou nas drogas. E a dependência química os levou para fora dos lares.

 

Mas se querem fazer o caminho de volta, podem encontrar no Albergue Noturno de Bauru o aliado. Ali, próximo à rodoviária, todas as noites, dezenas de pessoas esperam a chamada para entrar em busca de uma  cama limpa, onde tomar banho e onde passar a noite. 

 

Ninguém quer mostrar o rosto. Quase 100% deles têm vergonha da situação em que se encontram. Durante o dia o Albergue acolhe os que se internam voluntariamente e estão à espera de vaga nas instituições de recuperação, do tipo “Esquadrão da Vida”. 

 

É o caso de Ronaldo Aparecido de Souza, que, quando conversamos, estava na instituição há apenas uma semana. E aceitou falar com o Jornal da Cidade por afinidade. É que o primeiro registro que teve na carteira de trabalho foi justamente como entregador de jornal. Isso, lá em 1994. 

 

Ronaldo foi por conta própria procurar ajuda, quer uma internação para se livrar do vício. Tem consciência de que precisa fazer o caminho de volta. Até por ter perdido mulher e não ter contato mais com os filhos. Tem três filhos, um deles já adolescente, de 14 anos, e mais a Brenda, de 7, e Vítor, de 4. Logo que o menor nasceu, largou tudo atrás de drogas. Agora não quer mais essa vida. Quer lutar para recomeçar. Em 2015, quer estar limpo “para cuidar e ser exemplo para meus filhos”.

 

História parecida é a de Leandro Luis da Silva, 27 anos, ajudante de serviços gerais, sem filhos, que estava há mais de um mês na instituição. Pensa muito na mãe, na irmã, no irmão, quer ocupar a mente, pensar no caminho de Deus e mostrar que pode honrar a família. “Eu estava na rua, só os ‘amigos da droga’ que não são amigos, isso não é vida para mim”. 

 

Esse aquariano de 14 de fevereiro, nascido em Duartina, hoje faz trabalhos terapêuticos e exibe com orgulho o quadro que pintou com motivo natalino. Aliás, as paredes do Albergue estão cheias de trabalhos de terapia ocupacional dos abrigados. Uma das formas de vencerem o vício, porque para eles, é só uma questão de tempo e cada dia é uma vitória.

 

E nessa vitória, além da ajuda de profissionais como médicos e psicoterapeutas, os abrigados contam também com o amor dos voluntários, que começam antes de servir o jantar com uma prece. 

 

A oração do dia em que estivemos lá, além de pedir uma noite tranquila para todos os que estavam chegando, exortava a pensar que a vida de cada um pode melhorar, especialmente se aprendermos a não culpar os outros. Enfrentar o problema sim, acusar, culpar, jamais. Bem no estilo “atire a primeira pedra quem não pecou”, um dos preceitos bíblicos do aniversariante do Natal, Jesus Cristo.

 

Serviço 

Albergue Noturno, rua Inconfidência, 7-18, telefone: (14) 3222-4881

Projeto “Criança Felizzzzzzz” - Ajude Você Também

Facebook: Junior Jerônymo

https://www.facebook.com/junior.geronimo.9?fref=ts

https://www.facebook.com/pages/Projeto-Crian%C3%A7a-Felizzzzzzz/1436891876591530?fref=ts

 

A história por trás da história

 

Para termos esta imagem de todos reunidos (nas fotos), a reportagem do JC contou com a ajuda do amigo da família, o Junior. Ele conseguiu reunir todo mundo e teve acesso ao barraco que lhes serve de casa. Junior chegou até a família (através de um amigo que foi doar um botijão de gás) por fazer outro trabalho social, totalmente voluntário, com a ajuda de mais amigos. 

 

Na raça e na coragem, ele começou a fazer festas para crianças carentes da periferia de Bauru, há dois anos, no Mutirão Primavera, fazendo ovos de Páscoa. Cerca de 30 crianças participaram.

 

A festa seguinte já aumentou para 67 crianças, no Dia das Crianças; e numa das últimas (também do Dia das Crianças) conseguiu reunir 200. Os doces e guloseimas ele consegue de presente da população. Bem como os presentinhos. O empresariado também colabora.

 

De um tio, dono de confecção,  ganhou as camisetas que identificam os voluntários que o ajudam nas festas. E, através de um amigo, topou com a família de “seu” Carlos e dona Deusa.

 

E Júnior fica quieto? Não, lá está ele amealhando coisas para ajudar os quatro integrantes da família. Imagina se o rapaz, que resolveu ajudar as crianças do bairro em que morava e hoje realiza uma megafesta, não iria assumir essa empreitada?