10 de julho de 2026
Articulistas

Yo soy un hombre sincero

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O mundo esperou 53 anos por uma reaproximação
entre Estados Unidos e Cuba. David e
Golias vão, fi nalmente, se reaproximar com o
rompimento do embargo econômico que castigou
os habitantes da ilha com privações de itens essenciais,
como alimentos. Os cubanos resistiram bravamente,
acreditando no discurso do comandante
Fidel Castro de que estavam construindo uma pátria
mais justa, com iguais oportunidades para todos.
O fi m do embargo econômico ainda depende
da aprovação do Congresso americano. À intermediação
do papa Francisco e do governo canadense
seguem-se os clamores do mundo ocidental pela
extensão da democracia a países que ainda a desprezam.
Durante meio século, Cuba representou
a resistência dos ideais socialistas a nações hegemônicas
que centralizavam a economia no mundo.
Durante a Guerra Fria, até que foi fácil com os
subsídios oferecidos ao petróleo pela extinta União
Soviética. Os russos ainda compravam o açúcar
cubano a preços acima dos praticados no mercado
internacional. A chamada "crise dos mísseis", de
outubro de 1962, quase arrasta o mundo à Terceira
Guerra Mundial, com a utilização de armas atômicas.
Nikita Krushev planejou a instalação de bases
de lançamento de foguetes em Cuba, no nariz dos
norte-americanos. Kennedy não poderia permitir e
iniciou-se uma queda de braço que pôs o mundo
em suspense. Felizmente Kennedy e Krushev compreenderam
que suas vaidades pessoais poderiam
liquidar o globo. Os mísseis foram retirados.
A queda do muro de Berlim e o desaparecimento
da URSS modifi caram o panorama em Havana,
somente recomposto, e mal, com o petróleo dos
bolivarianos da Venezuela, à presença de capitais
chineses em Cuba, e a exploração do turismo. Hoje,
a mais importante fonte de divisas de Cuba são as
remessas de quem fugiu da ilha e "fez a América".
Faz parte de o sentimento latino ajudar mamães e
papais, tios e sobrinhos que não tiveram a coragem
de enfrentar os 150 quilômetros de mar caribenho
até Miami, em balsas feitas de câmaras de ar remendadas.
Entram de 1 a 5 bilhões de dólares por
ano na ilha, enviados pelos que moram nas várias
Little Havanas, da Flórida e de outros estados.
Nem tudo deu errado no regime marxista-leninista
escolhido por Fidel Castro, seu irmão Raúl e
Che Guevara. Antes da Revolução de 1959, Cuba
era quintal dos Estados Unidos. Centro de jogatina,
lazer e prostituição explorados pela máfi a americana.
O ditador Fulgêncio Batista, apoiado pelos
americanos, exercia poder autoritário à custa de repressões
terroristas e a corrupção permitida como

"estratégia" de estado. A vida nababesca de alguns
contrastava com miséria profunda da maioria. Cuba,
hoje, é país com 99,8% da população alfabetizada.
A expectativa de vida é maior que a dos brasileiros:
77 anos e seis meses. O Estado deve garantir condições
mínimas para uma sociedade civilizada. A
negação desta verdade tem sido o erro fundamental
de alguns países democráticos. Na outra ponta, o
equívoco dos comunistas é a instalação do "Estado-

-babá". Esquecem que os cidadãos devem buscar
seus fi ns de vida por sua conta e risco, falhando
ou acertando. Cuidar de todos desde o parque infantil

à aposentadoria é um erro. Consome grande
parte da riqueza nacional e não serve aos cidadãos,
embora o regime possa deles se servir. Os irmãos
Castro há tempos têm feito gestos de abertura econômica,
segundo o modelo chinês, mas mantendo
incólume a política autoritária. O presidente Obama
vê o bloqueio econômico como forma inefi caz
para derrubar o castrismo, mesmo porque a maioria
dos habitantes da ilha nasceu durante o regime e
está acostumada à escassez. Os norte-americanos
são utilitaristas. Seria Barack Obama "un hombre
sincero", como o da letra da canção-símbolo Guatanamera?
A presença chinesa em Cuba como parceira
comercial pode implicar numa perda direta
maior do que a representada pelo poderio militar
no caribe, que os EUA querem garantir. A vontade
do Departamento de Estado também é de aumentar
o tempo de internet dos cubanos numa operação
de "corações e mentes". Mais expostos ao modo
de vida americana, cubanos poderiam vir a aderir
ideologicamente ao mundo do consumo e do individualismo,
identifi cando-se com a superpotência.
Por enquanto, a única a se erguer é a "mão invisí-
vel" do mercado, o que não é novidade desde Adam
Smith, em 1776.

O autor é jornalista e articulista do JC