11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Exéquias ao amigo e afilhado na Academia Bauruense de Letras, Walther Mortari


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9de dezembro de 2014. Nesta data Bauru perdeu, aos 91 anos, o seu mais completo artista. Pintor, escultor, poeta, cronista e dono de uma humildade sem limites...
Conheci Walther Mortari ainda menina. Morávamos na antiga rua 29 de outubro e a casa de meus pais era em frente à sua. Mas a vida sempre nos leva a novos caminhos quando, como secretária municipal de Cultura, participei de uma exposição sua na Agência dos Correios e me encantei com o seu estilo. A partir daí, estreitamos a nossa amizade e fui agraciada com a ilustração de meu livro "Redemoinhos na Areia" por suas pinturas sobre os primórdios de Bauru. Não sei se foi a nossa amizade que o levou a se interessar pela literatura, mas tornou-se um literato de "mão cheia" e começaram a fluir as crônicas, versos e histórias maravilhosas que, com orgulho, revisei e foram publicadas.
A sua produção mais marcante e duradoura sempre foi a pintura e deixou inúmeras telas retratando a Bauru do passado e do presente. Sua obra corre o mundo em Salões Oficiais de Arte, em Pinacotecas e em Coleções Particulares no Brasil e no exterior. Suas telas podem ser visitadas em galerias nos Estados Unidos, Alemanha, Israel, Suriname e Guiana Francesa, entre outros países. Com muito orgulho, prefaciei o seu livro "Reminiscências", do qual destaco o poema "Para Mudar".

Pendurei meu pincel no cabide do tempo
Como se fora velho casaco puído
Já farto de tantas esfregadas e lidas
E cansado de servir calado
A mão fugaz de todas as tendências...


Enrolei as telas velhas, novas e aquelas
Ainda apenas esboçadas em pensamento
E com o barbante do esquecimento
Arrumei tudo bem aconchegado no fundo,
Bem no fundo do velho baú da desesperança.

As tintas, velhas tintas, até já ressequidas,
Enfileiradas qual sebe primaveril
Levadas para o vazio sem inspiração
Quedam no incomensurável céu de idéias novas.

Para se começar um futuro, novo futuro,
Há que se pendurar todos os pincéis no tempo
Lançar o grito de guerra
Quebrar as velhas lanças
Pisotear velhos escudos
Ferir tradições e tradições
Marchar firme para o ponto de vista
E recomeçar tudo, tudo, tudo, de novo...

Ave mestre! O mundo não será mais o mesmo sem você.
Carinhosamente,

Josefina de Campos Fraga - Academia Bauruense de Letras - Cadeira 19