08 de julho de 2026
Geral

Chegamos na semana sem culpa!

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.

Várias categorias encerraram suas atividades em 2014, inclusive a construção civil

Carlos Henrique guardou a pá e o carrinho de trabalho, como pedreiro, já na tarde da última sexta; Edson Bicalho já ajeitava, no mesmo dia, a mala para pegar a estrada rumo a Adamantina, onde mora a família; João Andrade está indo para a casa da mãe, de chinelo, sem pressa alguma; Sônia Maria já avisou em casa que só volta para a faxina “no próximo ano”. São os adeptos da “semana sem culpa”, a desaceleração emocional, física, psíquica, antropológica, quântica e sei lá mais o que, mas que todos devemos exercitar nesta época.     

 

Entretanto, apesar do ensejo e da paradeira natural que chega a boa parte das linhas de montagem da indústria, com “contaminação” corriqueira sobre o comércio e os serviços, logo após o fechar das portas na véspera natalina, o conceito de viver a “semana sem culpa” gera muitos culpados. 

 

A começar pela turma da produtividade. Tem uma legião de cidadãos que não desgruda, sequer, das planilhas, dos gráficos e, claro, do notebook e do telefone celular, mesmo nesta época do ano. Mas, mesmo para esse contingente, há uma palavra acolhedora, de compreensão. Com brutal humor, o professor de literatura e língua portuguesa Luiz Evaristo Garcia tem uma frase com “jeito semântico” genial: “Deus, perdoem esses pobres coitados, escravos das metas e da esquizofrenia capitalista, que eles não sabem o que fazem”. 

 

Não se trata de discutir a contribuição pensante de Domenico De Masi que, entre outras publicações, lança olhar mais profundo sobre forma de se fazer o “não fazer nada”, com todas as suas consequências produtivas para o ser, como em “O ócio produtivo”. De forma rasa aqui, apenas para contribuir com a “preguiça positiva”, De Masi discute nova relação entre trabalho, estudo e o lazer: o ócio pode ser instrumento de criatividade.

 

Mas a “semana sem culpa” está longe disso, e, inclusive, se for o caso, até do gasto de energia em concentração para pensar. No máximo, ler o jornal logo cedo, no café da manhã e com os pés descalços (um carinho, sugiro, apenas, aos mortais que ficaram na redação do JC elaborando os textos para os leitores).

 

De papo pro ar   

 

No Facebook, a ideia está se propagando desde que o post foi lançado, aqui da redação. E, para muitos, a sugestão está sendo seguida à risca. Fatima Maria limitou-se a escrever: “Gostei da sugestão”. Eduardo Silva foi ainda mais econômico: “Eba!”, uma prova monossilábica de que o tempo é mesmo de não perder tempo com alguma coisa a não ser não fazer nada.

 

A psicoterapeuta Marilene Krom confessou que precisa aprender mais sobre o assunto. “Que delícia, eu também quero (rs)... aprender apenas a não fazer nada e a observar a vida correr através dos dedos e fazer sozinha bonitos desenhos”, poetizou.        

 

João Andrade contou que vai, bem devagar, para a casa da mãe. “Lá não preciso lavar roupa, nem cozinhar, tem uma rede no quintal”. Na bagagem, Andrade diz estar levando o livro de Stephen King “Sob a redoma”. “Mas é leitura sem compromisso”, enfatizou.

 

O multiatleta e funcionário público Vitor Carrara sugere, em trocadilho, que as pessoas concentrem suas preocupações para o período: “Assim, ficará muito mais fácil não ter culpa alguma, nunca, entre o Natal e o Ano Novo”.

 

O escritor Luiz Martinello convida ao lirismo: “Continuarei na minha rede, que já fica à sombra, ao balanço das horas, tentando segurar nos dedos a poesia que passa...”.

 

Paradeira desde sexta

 

O sindicalista Edson Bicalho atendeu ao telefone no final da tarde de sexta-feira. A entidade que coordena representa 5.000, de um total de 6.000 trabalhadores, como nos segmentos de químicos e usinas de cana, na região. “Estou indo organizar a mala para partir para Adamantina, onde estarei com a família. Fico com o celular ligado, mas, para agir, só se houver emergência. Está tudo tranquilo, apesar das dificuldades na economia, com o 13.º salário pago em nossa região”, comemora. 

 

Bicalho lembra que 90% das empresas, inclusive de outros segmentos por ele não representados, pararam já a partir do último final de semana. “A sexta-feira, 19 de dezembro, foi o último dia útil de 2014 para a maior parte das indústrias e boa parte dos segmentos. A antecipação de entregas e de finalização de produção é natural e a semana sem culpa é tradição nos setores, que retornam somente no dia 5 de janeiro ao batente”, conta. 

 

As exceções ficam por conta de serviços como de vigilância, saúde, entregas, entre outros. No serviço público, por exemplo, o Judiciário também encerrou as atividades na sexta. Os plantões cuidarão apenas de emergência. Na Câmara Municipal, o expediente ficou reduzido para das 8h ao meio-dia, com serviço apenas nas segundas e terças antes ao Natal e Ano Novo. “A agenda de projetos foi cumprida com rigor, dentro do exercício e os últimos dias do ano são de preparação para o novo biênio, com posse dos novos integrantes da Mesa Diretora em janeiro”, conta o presidente cessante Sandro Bussola.          

 

Psicólogas alertam: ‘Descansar é um dever’

 

“Você tem o direito e, ainda mais, o dever de descansar”. Quem aborda a questão é a psicóloga Aline Roveda. “Vivemos num mundo onde, para sobreviver e pagarmos as contas, além de realizar nossos sonhos, somos ensinados a trabalhar e batalhar ininterruptamente. E é cada vez mais difícil falar não às solicitações de parceiros de trabalho, superiores, colegas, clientes. Então ficamos conectados 24 horas, sempre atentos às notificações das redes sociais, e-mails e dos aplicativos. E aí quando a gente para?”, pergunta.

 

Roveda continua: “A gente não para, a gente continua, continua e continua, até estarmos bem cansados ou estressados, afastando amigos, família, tudo pelo trabalho que, a qualquer momento, pode simplesmente não existir mais. Mas nos esquecemos de uma coisa muito importante: recarregar a bateria! A do celular recarregamos a todo momento, mas e a nossa? Em que momento você recarrega a sua bateria?”. 

 

Assim, a psicóloga sugere que, nesta época, da semana sem culpa, é propícia para a reflexão. “Tempo de Natal, ano terminando, momento de reunião familiar, reunião dos amigos, confraternização no trabalho. Por que não aproveitar para recarregar a sua bateria agora? Nosso corpo tem um limite e, se não paramos ele, em algum momento, se encarrega de nos parar”, adverte. 

 

Assim, se você quer produzir mais, “se você quer se desenvolver mais paradoxalmente tem um importante dever: o de parar, o de descansar, o de ficar deitado numa rede vendo uma revista de coisas diferentes da sua profissão; de assistir um filme engraçado; de passar uma noite assistindo uma temporada de seu seriado predileto; o de sair da sua rotina para que o seu cérebro desligue de obrigações com datas e prazos permitindo que ele volte recarregado. Pare! Aceita o desafio?”, finaliza Roveda. 

 

A também psicóloga Edinéia Morilha ratifica que, nessa época, “já estamos cansados, estressados e esperando os dias para nada fazer. Portanto, ficar de papo pro ar, dormir e acordar sem o despertador, simplesmente não fazer absolutamente nada, são fundamentais”. 

 

Morilha adverte para patrulhar o pensamento na direção da “culpa”. “Vão dizer que sou folgado, que deixo as coisas para traz, vou me cobrar por ficar sem produzir. Nada disso. Esses são pensamentos comuns a quem leva em conta questões como: preocupação excessiva com a opinião dos outros; sentir-se mal quando recebe algo, pois, na verdade, não se considera digno de aceitar o que os outros dão; quem fala repetidamente sobre o que motivou a sentir culpa; tem raiva reprimida; dificuldade em assumir responsabilidade pelos próprios atos; sente-se rejeitado; responsabiliza o outro pelo próprio sofrimento; sente-se vítima em algumas ou muitas situações; se pune ficando doente”. Ou seja, sabota a si próprio na esquizofrenia de realizar, quando o tempo é para não fazer nada.