11 de julho de 2026
Articulistas

Um anel, uma sandália ou um vestido?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Naquela manhã de segunda ele abriu os olhos, acordou e sabia que, daquele dia, não podia protelar a execução de sua ?missão?: tinha que comprar o presente de Natal da esposa. Já tinha algumas opções, mas não queria enfrentar o intenso fluxo desta época. "No ano que vem, vou comprar um pouco antes", pensou, assim como pensava e prometia todo ano. Mas ele era assim. Calmo e sossegado.

Tomou seu banho, colocou a camisa que mais gostava, engoliu o café quente que, segundo ele, "era o combustível" para aguentar a semana. Deu um beijo na esposa, pegou um táxi e foi para a praça. Na verdade, ele pegou o seu carro. Na verdade, ele pegou o seu carro que, na verdade, era um táxi.

Chegou na praça central da cidade. Passou uma manhã bem mais movimentada do que todas as outras segundas. Afinal, estávamos a apenas três dias para o Natal. Fez algumas corridas. De resto, trocou umas piadas com os colegas taxistas de ponto. Nesta época do ano, o futebol para. Sem as piadas sobre as ajudas que o Corinthians recebe, a ameça de rebaixamento do Palmeiras, o campeonato morno do Santos e a fragilidade no mata-mata do São Paulo, seu time do coração, o assunto nos pontos de táxis fica bem mais restrito.

No almoço, ele comeu um salgado por ali mesmo. Uma coxinha requentada. Tudo para economizar o tempo e conseguir um extra a mais. Mesmo com seus 76 anos, ele ainda batalhava para dar tudo de bom para a sua família. E para sobrar um ?a mais? no fim do ano para comprar o mimo da sua ?véia?. O que compraria? Um anel, uma sandália ou um vestido? Chegou o começo da tarde e veio um jovem casal. O menino com um olhar tímido. E a menina passando a mão na barriga o tempo todo. Parecia ter descoberto que estava grávida há pouquíssimo tempo.

Montaram no carro. O silêncio era mais do que o normal. Ele olhava pelo retrovisor e via o jovem casal. Lembrava quando fora jovem assim. Lembrava da filha. Lembrava da esposa. Lembrava que precisava comprar o presente dela de qualquer jeito. O anel, a sandália ou o vestido? A faca.

Quando ele menos esperava, o jovem colocou uma faca em seu pescoço e disse: "Passa tudo, tio. Ou eu vou te furar. Passa tudo". "Calma, calma", disse o taxista.

Ele sentia a ranhura da lâmina no pescoço. Na carteira marrom surrada, havia apenas R$ 43,00. Apenas. Foi o que o jovem conseguiu pegar.

Fura. Fura. Fura.

Naquele momento, o sangue escorria de forma quente. "Não deve ser meu. Não estou sentido dor. Apenas um formigamento. Parece que tem um corte. Pequeno. Grande. Muito grande". Ele olha nos olhos da jovem. Ela carrega uma nova vida na barriga. "Ela vai me ajudar". Os olhos dela parecem assustados. Mas não tão assustados para fazer algo. Tampouco para interromper algo. Já tem sangue. Muito sangue.

O casal sai correndo. Naquele momento, ele se sente muito relaxado. Seus sentidos parecem potencializados por um milhão. Escuta os passos dos dois na grama úmida. Ouve quando a faca jogada bate no chão, a 500 metros dali. Sente o cheiro do banco misturado ao do sangue. Sai do carro. As pernas já não respondem a contento. Cambaleia. Vai se esgueirando pelo táxi. Seu sangue fica pelo carro. "Vai dar um baita trabalho para limpar isso". Seus pensamentos já não dão ideia da realidade. Cai.

No chão, olha para cima. "Acho que vou abandonar esse trabalho. Não dá para passar por tudo isso de novo. E, afinal, já estou velho pra isso. Não dá mais. Não dá... mas penso nisso mais tarde. Preciso pensar agora só em comprar o presente dela".

Nem o anel, nem a sandália e nem o vestido. Ela ganha apenas uma ligação. "Temos que falar com a senhora. É sobre seu marido...".

O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia