09 de julho de 2026
Nacional

Brasileiro é solto por guerrilheiros

Reynaldo Turollo Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Reuters

Arlan Fick, ao lado da mãe, do pai e da irmã: ele foi mantido em cativeiro por quase nove meses

Após quase nove meses mantido em cativeiro por guerrilheiros no Paraguai, Arlan Fick, 17 anos, filho de brasileiros nascido no país vizinho, foi libertado na noite de quinta-feira (25) em um povoado no departamento de Concepción, a cerca de 40 km de onde ele vive com a família.

Arlan foi sequestrado dentro da fazenda de sua família em 2 de abril, numa ação violenta do Exército do Povo Paraguaio (EPP), movimento armado, dissidente de um grupo de esquerda marxista. Durante o sequestro, dois guerrilheiros e um policial morreram baleados.

O grupo pediu US$ 500 mil para libertar o jovem. Ainda em abril, o dinheiro foi entregue pela família, que disse ter hipotecado suas terras, mas ele não foi solto. O único sinal que a família tinha de que Arlan estava vivo era um vídeo divulgado pelos guerrilheiros em outubro.

Em entrevista concedida na manhã de ontem a jornalistas paraguaios na porta de casa, ao lado do pai, da mãe e da irmã, Arlan disse que foi bem tratado e que, no cativeiro, se tornou amigo de outro refém que ainda está em poder da guerrilha, o policial Edelio Morínigo.

Os dois reféns, segundo Arlan, passavam o tempo tomando tereré (bebida feita com erva-mate e água gelada) e ouvindo música, mas sem acesso ao noticiário.

“Me trataram bem, não me faltou nada, comida estava excelente, água abundante, quando chovia eu não me molhava, não passei frio, nada”, disse, conforme vídeo do site paraguaio ABC Color.

A família vive em Paso Tuyá, no departamento de Concepción, desde a década de 1980. O jovem, que não tem cidadania brasileira, classificou a volta como “um segundo nascimento”.

Conforme Arlan relatou aos jornalistas, membros do EPP o fizeram caminhar pela mata com um pano sobre o rosto, até soltarem-no em uma estrada asfaltada próximo a Yby Yaú. Ele parou na primeira casa que encontrou e pediu para usar o telefone.

O pai dele, o agricultor Alcido Fick, contou ter suspeitado do telefonema, porque recebera muitos trotes desde o sequestro. “Eu lhe perguntei em alemão, ele me respondeu em alemão, e vi que era meu filho”, disse Alcido, que é natural do Sul do Brasil.

Questionado pelos jornalistas, o agricultor não quis responder se a família vai permanecer no Paraguai nem se houve participação do governo brasileiro na libertação.

“Quero agradecer a todo mundo que esteve orando, pedindo por minha liberdade. A todos os paraguaios, todas as pessoas que estiveram esperando minha libertação, graças a Deus, depois de muito tempo, pude sair bem e são”, afirmou Arlan.

Responsável por organizar caminhadas e páginas em redes sociais pedindo a libertação de Arlan, Rosinei Fick, irmã dele, usou o Facebook para convidar os moradores da região para uma missa que seria realizada nesta sexta.

O Itamaraty afirmou que acompanhou o caso e que a família não solicitou assistência após Arlan Fick ter sido solto. A reportagem não conseguiu contatar a Polícia Federal brasileira em Assunção para falar sobre o caso.

Paraguai elogia Brasil por ação

O governo paraguaio valorizou ontem o apoio do Brasil no combate à guerrilha do EPP, horas depois da liberação de um jovem, filho de brasileiros, que esteve sequestrado durante quase nove meses, o sequestro mais longo registrado no país. 

O ministro do Interior do Paraguai, Francisco de Vargas, visitou Arlan Fick em sua propriedade no departamento de Concepción, a 400 quilômetros ao norte de Assunção, para transmitir o apoio das autoridades à família após a conclusão de um caso que retomou as críticas à insegurança na região.

De Vargas afirmou que órgãos de segurança brasileiros colaboraram na luta contra o Exército do Povo Paraguaio, em resposta a informações de meios de comunicação locais que apontaram a importância da ajuda do país vizinho na liberação do jovem.

“Em toda campanha contra o EPP temos tido a colaboração do governo do Brasil através de seus órgãos de segurança, mas não vou entrar em detalhes”, disse o ministro a jornalistas.

“Não apenas sobre este tema em particular (o sequestro de Fick), mas estamos em contato permanente. Sempre se mostraram preocupados e sempre colaboraram conosco na área de inteligência”, acrescentou. 

O Paraguai também tem recebido apoio da Colômbia para combater o grupo.