Não há o que fazer, corre o relógio a favor do tempo, irrecuperável momento o passado que escorreu por entre meus dedos suados. Não houve memória suficiente para armazenar tantas passagens, porém, aquelas intensamente formadas veem à tona como lixo reciclável.
Poderei eu dizer que foram bênçãos? Duras mensagens e sangrentos instantes que minha alma chora só de pensar, mas não posso negar o frescor das manhãs, os dias de sorriso solto e bocas risonhas, imagens que trazem o cheiro bom dos pães frescos, café na xícara e uma conversa com minha mãe, pensamentos que devolvem as marcas roxas que sumiram regadas com ombros amigos e giz na lousa.
Tempo, tempo, algum tempo que encontrei para degustar uma conversa informal e uma lembrança forçada; pessoas especiais que transgrediram o relógio e apressaram minutos tão importantes em ouvidos atentos; joelhos dobrados com hora marcada para alcançar almas despedaçadas, esperançosas; tempo de guerra e de paz, discussões sem objetivos e palavras no ocaso do momento; sonhos destruídos em eternos hospitais sem estrutura; pesados os encargos que minimizaram o leite das crianças, mas alcançaram grupos dispostos a fazerem diferença.
Receba 2015 a minha mais intensa confiança de que há um Deus que, além de mim, receba as promessas que não pude alcançar, receba silenciosos olhares de quem não sabe o que é futuro, por isso é presente. Receba 2015, por um só instante, o silêncio do aconchego e o barulho divertido das crianças, e será brilhante cada novo dia, mesmo que para uns o caminho seja curto e para outros eternos.
Recebe no horizonte os amigos que ganhei, porque serão companheiros, e encanta os amigos que perdi, porque sofro ainda hoje de saudade.
Não deixe que morra em 2015 a expectativa mais abusada de esperança, e se morrer algum instante, nesta memória já envelhecida, restaura minha alma no momento que não me pertence, cada qual a seu tempo.
Receba 2015 um novo olhar, que não seja político, econômico e nem mesmo pessoal, mas que seja segundo os propósitos endereçados a mim. Creio que 2015 venha, porque sei que não paro as ondas do mar e nem posso segurar o novo amanhecer, se eu puder compartilhar... Que venha!
Claudia Fonseca Menezes