A afirmação de que o trabalho da escola requer a participação da família é recorrente e praticamente unânime entre os educadores. Para colaborar nessa discussão, o assessor de gestão estratégica da Secretaria Municipal de Educação, Celso Zonta, e a doutora em psicologia escolar pela Unesp, Marisa Eugênia Melillo Meira, discorreram, em conjunto, sobre o tema, apresentando indicativos que podem contribuir para o desenvolvimento de ações de docentes, funcionários e gestores em direção à construção de processos coletivos de participação democrática visando a melhoria da qualidade de ensino.
De início, eles posicionam – citando os autores Boarini e Martins - que a preocupação em articular programas voltados para o estabelecimento de parcerias entre escola e família com o propósito de melhorar a qualidade das ações educativas é antiga, remetendo ao movimento higienista que se fez presente no Brasil no início do século XX.
“Em um contexto social marcado por elevados níveis de pobreza e dificuldades no processo de integração de grandes contingentes de indivíduos no novo modelo urbano industrial, a escola aparecia como um espaço privilegiado para a aplicação de medidas de caráter higienista extensivas não só aos alunos, mas também às suas famílias consideradas incapazes de proporcionar a seus filhos o ambiente e os cuidados necessários a uma boa escolaridade”, abordam.
Assim, a escola passa a se ocupar também com um trabalho educativo voltado para a criação “de bons hábitos mentais, buscando regrar e normatizar os indivíduos e desenvolver personalidades confiantes, com a capacidade de convívio social harmonioso, comedidos e potencializados para a ordem do corpo e da moral”.
Nessa perspectiva, abordam Zonta e Marisa, a escola precisa da família apenas como um elemento coadjuvante, capaz de reproduzir, por meio de processos de “aculturação”, os valores e hábitos considerados importantes pelos educadores e gestores educacionais.
Porém, para outros segmentos a escola deve manter uma certa distância das famílias, as quais só devem ser acionadas para participar passivamente de reuniões para serem informadas sobre os supostos problemas de seus filhos ou, quando muito, para servirem como mão de obra para tarefas pontuais tais como a arrecadação de fundos ou a organização de festas.
Em outro ponto, Zonta e Marisa Meira discorrem que também muito comum em nossos meios é a concepção segundo a qual os pais devem ajudar seus filhos não apenas nas tarefas escolares, mas ainda na resolução de problemas de aprendizagem. Não raro é possível encontrar professores reclamando que já acionaram os pais repetidas vezes e que, ainda assim, os alunos continuam apresentando dificuldades na apreensão dos conteúdos escolares. Tal postura evidencia uma expectativa nem sempre desvelada e assumida de que os familiares possam funcionar como uma espécie de “professores particulares”.
Para ambos, a escola necessita “aprofundar sua relação com pais e responsáveis porque aprender a conhecer suas necessidades, particularidades e interesses é o verdadeiro ponto de partida para a construção de projetos políticos pedagógicos capazes de sustentar processos educativos qualitativamente superiores que garantam o efetivo cumprimento de sua função social, qual seja, socializar os conhecimentos científicos para as novas gerações”.
Conflitos x confrontos
“É preciso aceitar as diferenças, compreendendo que ser diferente não significa ser errado”, posicionam Celso Zonta e Marisa Meira. Assim, qualquer situação pode comportar variadas formas de expressões, sentimentos e comportamentos e todas elas podem ser consideradas legítimas, desde que respeitem os acordos livremente estabelecidos entre os indivíduos.
Por um lado, a escola precisa compreender que a tarefa de educação dos filhos, qualquer que seja a classe social, não é fácil nem tranquila. “No caso das famílias mais pobres há que se considerar ainda que a miséria impõe muitos sofrimentos que podem produzir sentimentos de desesperança e descrença, inclusive em relação à escola. De outro lado, as famílias devem compreender que ensinar adequadamente os alunos é tarefa complexa, que requer uma série de condições que nem sempre estão asseguradas. Muitas vezes professores, gestores e funcionários têm que lidar com a falta de recursos materiais, baixos salários, ausência de espaços de estudo e apoio para suas ações e também enfrentam sofrimentos e sentimentos de impotência”, mencionam.
Desta forma, eles consideram essencial a aproximação entre esses “dois mundos” através do diálogo permanente, diário e incansável, capaz de produzir novos sentidos e sentimentos compartilhados no interior de relações humanizadoras em prol de uma educação de qualidade para todos.
Mão dupla
Escolas e famílias devem se valorizar mutuamente. Entretanto, não se pode esperar que alguém valorize aquilo que não conhece. Para essa questão, Zonta e Meira sugerem que “o primeiro passo é o desenvolvimento de ações concretas que garantam que as famílias tenham o maior número possível de informações sobre o trabalho das escolas e que essas conheçam de fato as famílias de seus alunos”.
Mas, para alcançar essa meta, é preciso desenvolver atitudes baseadas em empatia, “que permitam a cada um reconhecer e aceitar as diferenças e dificuldades do outro sem nenhum julgamento de valor. Tarefa difícil, mas não impossível”, sustentam.
Para os consultores, “um bom caminho a ser percorrido pela escola é o combate firme a todas as formas de discriminação e preconceitos que afetam negativamente a vontade de estudar dos alunos e a disposição de participar das famílias, e muito frequentemente, resultam em agressões e tumultos”.
Para aprofundar um pouco sobre a existência de preconceito na realidade educacional brasileira, eles citam pesquisa empírica de Collares e Moysés (1996). Em relação aos alunos, essas autoras destacaram como principais: as crianças pobres não aprendem porque são doentes; desnutridas, têm disfunções neurológicas; não têm habilidades perceptivo-motoras; apresentam todo tipo de comportamentos inadequados; têm carências psicológicas e culturais e dificuldades de linguagem.
Modelos
Tanto escolas quanto famílias não podem ser pensadas como se fossem uniformes, independentes de contextos sociais.
Com base em dados do IBGE é possível afirmar que atualmente no Brasil existem inúmeras configurações familiares e que o perfil da família tradicional, constituída por marido, esposa e filhos vem cada vez mais diminuindo. Em 1987 esse modelo representava 71% do total de arranjos familiares no Brasil, diminuindo para 57,6% em 1995 e para 50% em 2005.
Mas, longe de reconhecer e respeitar essa diversidade, nos meios educacionais frequentemente recorre-se ao “modelo de família normal”. As “outras” configurações que dele se desviam parcial ou totalmente são consideradas “desestruturadas”. Mas, o que seria normal, ideal?
É importante que se compreenda que esse modelo familiar considerado ideal nada tem de natural. “Como analisa Barroco (2004) esse modelo considerado “ideal” é o de uma família fetichizada que na verdade jamais existiu nessa forma tão saudável e serena quanto se propaga”, argumentam.
Para os educadores, toda família, independentemente de sua configuração, “pode propiciar espaços e oportunidades de desenvolvimento para suas crianças desde que os adultos cuidem bem delas e cumpram adequadamente suas funções educativas. Do mesmo modo, a escola não pode ser pensada a partir de um único modelo”, falam.
De outro lado, Zonta e Meira abordam que é preciso, ainda, reconhecer que cada escola apresenta especificidades conferidas pelas experiências, valores e conhecimentos dos diferentes atores que a constituem: professores, alunos, gestores, funcionários, famílias e comunidade na qual está inserida.
“Com essas reflexões queremos evidenciar a necessidade de termos como referência escolas e famílias concretas, com todas as suas possibilidades e limites, riquezas e dificuldades, deixando de lado modelos idealizados que apenas contribuem para o progressivo afastamento e o consequente esfriamento das relações”.
Ou seja, boas relações são fundamentais. Mas Zonta e Meira salientam que é preciso ir além. “É preciso nos perguntarmos sobre que tipo de relações se quer construir com as famílias, já que elas podem se constituir tanto em fontes de independência, autonomia, reciprocidade e tomada de consciência, quanto em dependência, dominação, alienação e subalternidade”.
Para eles, quando escola e famílias não se envolvem de maneira firme e consciente com a construção de relações recíprocas de respeito, cooperação e solidariedade reforça-se o circuito de alienação.
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A diretora da Escola Etelvino Rodrigues Madureira, Denise Santos Ramirez, está satisfeita com a participação da maioria dos pais, entre os 524 alunos, de 6 a 9 anos, que coordena. “A maioria trabalha fora, mas participa das reuniões. E sempre checamos aqueles que não comparecem e reforçamos o convite. Se tenho necessidade, chamo pai para uma conversa individualizada sobre indisciplina ou desempenho do filho”, conta.
Ela comenta que “tem chamado e os pais têm correspondido aos chamados para dialogar com a escola. “Costumo compartilhar com os pais que tenho minha responsabilidade como diretora, mas alerto que eles têm de participar”, comenta. De sua experiência, Denise salienta: “Às vezes a agressão, a rebeldia, é o filho pedindo socorro e atenção dos pais. Pai ausente não vê seu filho crescer e perde uma oportunidade mágica de crescer de novo com seu descendente”, finaliza.