08 de julho de 2026
Articulistas

A intolerância

Nagib Anderaos Neto
| Tempo de leitura: 2 min

Giordano Bruno - o pensador italiano queimado vivo na Idade Média por ter defendido a ideia da infinitude do universo e de sua transformação contínua - é um exemplo eloquente do obscurantismo e da intolerância daquela época, quando todos deveriam prestar aceitação cega às "verdades" estabelecidas.

Algum tempo depois, Galileo Galilei (1564 - 1642) teve de abjurar para não ter o trágico fim do compatriota. Ele defendia a ideia, absurda para a época, de que a Terra não era o centro do universo. Embora tendo escapado à morte, conviveu com uma prisão domiciliar até o final de seus dias.

Espinoza, como Sócrates, foi condenado pelo poder político local ao se opor às ideias dos dirigentes, por não cultuar as suas personalidades e nem as divindades do Estado, e afirmar ser o conhecimento a verdadeira salvação. Para ele, não poderia haver um Deus propriedade de qualquer agrupamento. Estas páginas trágicas de nossa história servem para uma reflexão sobre a intolerância e suas consequências, pois ela continua tão presente como naqueles negros dias medievais.

Dentre as deficiências psicológicas do ser humano, a intolerância é a que mais dificulta a convivência; é um grande obstáculo para a evolução humana, que necessitará do concurso inestimável do semelhante na jornada de aperfeiçoamento a ser empreendida durante a vida; se não sabe conviver, terá a sua evolução limitada.

A intolerância implica falta de respeito às ideias alheias, inflexibilidade, dureza de juízo. É difícil aceitar as ideias de outras pessoas quando não coincidem com as nossas; fomos educados nessa rigidez comportamental, a qual nos impede de compreender que podem existir ideias diferentes das nossas, e os seus defensores não são nossos inimigos.

A intolerância leva o ser humano a não admitir oposição. Ele vê no opositor um inimigo, sem aperceber-se que a oposição pode ser construtiva, pois nos faz pensar, refletir sobre nossos pontos de vista e concluir que podemos estar errados. Os ditadores não admitem oposição. O opositor deve ser afastado, eliminado, só assim o ditador sente-se confortável.

Os que impõem, os impostores, estão aí, como naqueles negros dias medievais; nos governos, nas empresas, em instituições diversas, nas mentes dos seres humanos, pensamentos retrógrados encarcerando-nos numa rigidez milenar, a qual têm afastado o ser humano de si mesmo e de seus semelhantes. Surpreender esta realidade em si e trabalhar para eliminar esse tipo de pensamento é o único caminho capaz de livrar-nos desse obscurantismo.

Educar as crianças no sentido da flexibilidade psicológica, desde que as ideias antagônicas não firam os princípios básicos da harmônica convivência, significa incutir no educando a tolerância, a qual lhe permitirá respeitar o semelhante e ser respeitado.

O autor é colaborador do JC