Semana passada, fomos informados de duas mortes trágicas de duas crianças esquecidas dentro de carros. A informação foi trágica porque duas crianças tiveram suas vidas ceifadas. Não podemos trilhar o mesmo caminho dos sensacionalistas de plantão e massacrar os pais. É claro que eles têm uma grande parcela de culpa. Aliás, não se deve esquecer de um ser humano, por pior que ele seja, e não se deve esquecer uma criança. Criança que deveria seguir o seu ciclo natural da vida. Foi uma tragédia perder mais duas vidas, ainda mais duas vidas em pleno crescimento e com um potencial enorme.
Nossa rotina pós-moderna controlada pela multiplicidade de coisas que temos que fazer está banalizando a vida. Os limites humanos estão sendo rompidos com muita facilidade. Estamos reféns das agendas, cada vez mais abarrotada de afazeres, com os horários cada vez mais precisos, e com as metas a serem superadas. Nossa vida acelerada revela que estamos inseridos numa sociedade doente e violenta. Doente porque não se tem tempo para nada, nem para a saúde física e emocional e nem para as relações afetuosas. Violenta porque estamos nos tornando máquinas de cumprimento de metas e agendas. Nosso estilo de vida nas grandes cidades revela como nossa rotina é avassaladora e como o estresse cotidiano suga todas as nossas energias, e rouba nossas motivações e desejos mais sublimes. Trocamos o local de trabalho pela casa e gastamos mais tempo dentro do carro ou do ônibus do que nos alimentando com as pessoas que amamos. Aliás, nem temos tempo para as refeições. Comemos com pressa no mesmo ritmo em que vivemos. Engolimos a comida e nem desfrutamos dos sabores. Isso quando paramos para a refeição. Nas grandes cidades, as pessoas comem rápido, às vezes sentam, outras comem em pé e várias comem enquanto trabalham ou dirigem. Muitas empresas cronometram até o horário de ida ao banheiro. Que loucura! Só de pensar dá fadiga.
Nessa correria infernal e desumana, esquecemos de fazer um monte de coisa no final do dia. Mesmo quando fazemos tudo o que estava proposto, ao chegarmos em casa extremamente esgotados, temos a sensação de que vamos dormir com alguma coisa sem fazer. Deitamos e temos a sensação de que muita coisa ficou para trás. E deveria ter ficado mesmo, mas não ficou. Vamos dormir, mas na realidade já estamos pilhados na agenda com suas demandas do outro dia. O sono demora a chegar e quando chega já está na hora de levantar. E a rotina volta como foi a do dia anterior. Nesse ritmo frenético, nos esquecemos de cuidar de nós mesmos, de ligar para algum conhecido que está enfermo, de mandarmos um email para uma pessoa conhecida que está fazendo aniversário, de apertar a mão de alguém, de abrir um sorriso, de desejar um sonoro "bom dia". Esquecemos de coisas essenciais à vida humana. Esquecemos que somos humanos e nos posicionamos nessa sociedade de consumo como máquinas que geram riquezas àqueles que pagam por nossos serviços. Esquecemos dos nossos limites físicos e emocionais e, por vezes, vivemos nos extremos, sem perceber o quão danoso é para nós vivermos assim tão intensamente como máquinas ligadas 24 horas por dia.
O resultado dessa vida louca, nessa semana, foram duas vidas ceifadas. Duas crianças com dois anos que perderam a possibilidade da vida por conta de adultos contaminados por rotinas urbanas e desumanas. Seus pais, cada qual com sua razão, esqueceram as crianças e foram trabalhar. Preocupados com as contas para pagar, com o sucesso profissional talvez. Preocupados com as metas de onde trabalhavam, quem sabe?! O fato é: esses pais são vítimas dessa vida sem sentido que levamos. As notícias dessas duas crianças esquecidas podem ser uma metáfora para refletirmos onde queremos chegar com tanto correria, pois os noticiários nos revelam que não estamos chegando a lugar nenhum. Ou estamos sim, chegando ao extremo de nos considerarmos máquinas e não meramente humanos. Nossa mente está tão cauterizada que agimos como máquinas. As máquinas são descartáveis, a vida, porém, é insubstituível. Aos pais nossos sentimentos e orações e a nós a reflexão profunda sobre a vida e sobre o que estamos esquecendo na nossa rotina. Pensemos!
Jeferson Rodolfo Cristianini