08 de julho de 2026
Regional

Lar acolhe aqueles que ninguém quer

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 10 min

“São Francisco de Assis acolhia os leprosos na época dele. O frei Francisco Belotti entende que a lepra de hoje é a droga. Ele acolhe aqueles que ninguém quer. A droga é o mal do século e a nossa missão é socorrer essas pessoas”, explica a irmã Clara Berti do Lar Santa Maria de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru). Segundo ela, a congregação de São Francisco de Assis da Providência de Deus tem o carisma de socorrer, repetindo o abraço de São Francisco de Assis nos leprosos de hoje. 

 

Essa associação mantém o Lar Santa Maria voltado ao público feminino usuário de drogas. O Lar Dom Bosco desde 1992 oferece 70 leitos para recuperação de drogados focado no público masculino. O Lar Irmã Dulce, que é um hospital específico para portadores de necessidades especiais, tem 250 leitos. Parte desses internos vieram do Juqueri quando desativou o hospital em Franco da Rocha. O Lar Madre Tereza, projeto que atende 100 crianças, pós-creche.

 

Éder Azevedo

As mulheres aprendem a recuperar as suas próprias roupas 

 

O abraço de São Francisco de Assis, de acordo com a religiosa, começou na cidade de Jaci, região de São José do Rio Preto. “Foi em 85 quando o frei Francisco Belotti instalou uma casa de recuperação de drogados. Ele não tinha pretensão de ir para outro lugar. Mas o bispo de Lins conheceu o trabalho. Aqui em Pirajuí tinha a Casa do Garoto que hoje é o Lar Dom Bosco, que estava em funcionamento. O bispo convidou o frei para vir para cá e desenvolver esse trabalho, em 92. Foi a primeira missão fora de Jaci. Somos uma congregação religiosa e temos uma entidade civil que é a associação.” 

 

O Lar Santa Maria é uma casa de recuperação feminina com 45 leitos. Cerca de 76 mulheres já passaram pelo tratamento por aqui. “Começamos há quatro meses, no dia 19 de agosto de 2014. Somos quatro irmãs e um frei que compartilha a missão conosco. A equipe técnica é formada por assistência social, duas psicólogas, terapeuta ocupacional, psiquiatra que nos visita uma vez por semana. Enfermeira, técnica de enfermagem período da tarde e noturno, cozinheira e monitora de costura.”

 

Atualmente são 30 pacientes que chegam de todos os lugares, maioria do Estado de São Paulo mas já tivemos uma paciente de Minas Gerais. A procura é espontânea, o lar não recebe internação compulsória. Para conseguir uma vaga, explica irmã Clara há um processo de triagem. 

 

“São quatro unidades de triagem. Em Pirajuí funciona às terças-feiras, a partir das 17h. Em São José do Rio Preto, todos os dias das 17h às 22h. Em Presidente Prudente, todos os dias e no mesmo horário de São José do Rio Preto. Em Estrela d’ Oeste, às terças-feiras às 17h. Essa triagem é masculina e feminina. No total temos 10 casas de recuperação, três femininas e sete masculinas.”

 

O Lar Santa Maria se mantém com a ajuda do Governo do Estado por meio do Cartão Recomeço e com campanhas desenvolvidas pela própria entidade. “Promovemos festas, fazemos promoções junto a comunidade que sempre nos atende.”

 

Tratamento tem duração de 120 dias 

 

Irmã Clara Berti é uma dessas pessoas que encanta logo no primeiro momento. Dedicada e delicada, ela abraçou a causa depois do diploma de jornalista. Desenvolta no falar, ela vai logo dizendo que o tratamento tem quatro ciclos e que cada um deles varia de 30 a 40 dias dependendo da evolução de cada interna. 

 

“Elas chegam aqui muito debilitadas física e emocionalmente, a maioria estava nas ruas. Temos adolescentes de 16 anos e senhoras com 45. Grande parte usuária de crack. Quando elas procuram tratamento já perderam tudo, família, filhos e o vínculos com antigos amigos. Normalmente, os filhos estão abrigados. A mulher sofre mais no processo de dependência, são mais sentimentos do que razão.” 

 

Se na maior parte do mundo as mulheres querem emagrecer, no Lar Santa Maria elas buscam ganhar peso. “Chegam muito magras e a primeira etapa do tratamento é física. Precisam engordar para começar o tratamento emocional. Precisam dormir para recompor as energias. Elas chegam com uma depressão grande e o trabalho é fazer com que elas se recuperem aos poucos.”

 

Depois de dormir bastante e comer regularmente, as internas vão para a segunda etapa do tratamento, trabalhar com o emocional. “A equipe técnica vai trabalhando cada um. Dentro de cada ciclo elas vão evoluindo. Elas chegam sem saber o que são regras. Não têm horário, sem noção de higiene, sem noção de nada que consideramos normal. Porque na rua, elas fazem o que querem na hora que desejam. Com o passar do tempo, elas vão evoluindo.” 

 

Respeitar as regras da casa é o primeiro ensinamento, enfatiza a religiosa. “Aqui elas são responsáveis por arrumar a própria cama, pela limpeza da casa. Elas vão aprender a cozinhar. Quem vai para a costura vai aprender a costurar, a reformar uma peça. As que estão na horta são responsáveis por cuidar da horta. Elas têm que reaprender a ter responsabilidade. Uma pessoa comum tem horário para acordar, tem hora para dormir, entrar no trabalho. Elas têm que saber que se eu chego atrasada no meu emprego, meu salário é descontado. Aos poucos elas têm que ter essa noção. É isso que ensinamos para elas.” 

 

Vencido alguns obstáculos é hora de começar a recupera os vínculos familiares, explica a irmã. “O trabalho é feito junto com a família, desde o momento que elas entram. No fim do primeiro ciclo, elas podem ir para casa passar um final de semana. A família tem que vir buscar. Os parentes são orientados a exigir responsabilidades delas,” diz.

 

A droga escraviza, afirma interna 

 

Jaqueline Lampareli Ribeiro, 46 anos, é moradora de Ibitinga (90 quilômetros de Bauru) morou seis meses na rua. Ela é mãe de três filhos e conheceu o crack por um companheiro. “Eu me separei dele. Ele parou de usar e eu continuei. Estou na terceira internação. Teve uma vez recaída que aconteceu no primeiro dia em que sai da clínica. Estou há dois anos tentando parar. Perdi tudo para o crack.” 

 

Ela diz que está consciente de que o crack escraviza e é cruel. “Envergonhei muito os meus filhos, mas agora quero deixar de ser pedinte. Eu faço pano de pratos e já ganhei um prêmio. Recebi carta de minha filha e isso me deu muita força para continuar o tratamento. A abstinência é algo anormal, dá vontade de ir embora, mas eu estou resistindo. Choro muito, mas com a certeza que vou me recuperar.”

 

Layde Pereira Carvalho, 31 anos, tem quatro filhos, dois deles estão com sua mãe e um com o pai dela que vive separado da mãe. Ela é de Cafelândia e há seis meses ganhou mais um presente, a Laisla Francine Pereira Silva. “Minha filha ficou um mês com a minha sogra que estava com a tutela dela. Eu estava perdendo tudo e então tomei a decisão. Estou na segunda internação. Aqui tem um item a mais, a religião.” 

 

Ela conta que chegou ao Lar em setembro. “Eu estava num buraco, na rua. Pesava 48 quilos e em pouco mais de dois meses, estou com 65 quilos. Eu não comia, usava crack. Quero voltar a ter uma vida normal, criar meus filhos sem a droga.”

 

J.R. tem apenas 18 anos e já viveu situações muito diferentes das mulheres com sua idade. Usou maconha, cocaína e álcool. Para sustentar o vício, ela se prostituiu. Ela confessa que tem medo de ter adquirido uma doença nas inúmeras relações sexuais que manteve na rua. “Eu estou aguardando os resultados. Tenho muito medo, porque quero reconstruir minha vida.” 

 

Filha de pais alcoólatras e com uma irmã que acabou de sair da cadeia, estava presa por tráfico, a menina-mulher confessa que começou a usar drogas por curiosidade. “Sou moradora de Iacanga. Me prostitui para pegar o dinheiro e comprar droga, quero mudar essa situação.”

 

Naiara Rocha Alonso, 22 anos, veio de Bálsamo região de Jaci para se recuperar do vício de crack. “Estou trabalhando na padaria e quando tiver alta quero trabalhar em padaria. Se puder fico aqui mesmo no Lar.” 

 

Dependência não tem único motivo

 

Quando uma pessoa começa a usar drogas, logo os familiares pensam: o que faltou para que ela partisse para esse vício? Onde foi que erramos com ela? Na opinião da irmã Clara Berti, não existe um único motivo para uma pessoa abandonar sua vida e viver nas ruas usando drogas. “É muito difícil definir uma única causa, mas a falta de uma estrutura familiar é o caso da maioria que está internada aqui. Grande parte delas tem na família outros usuários, o que favorece muito.”  

 

Algumas internas, ressalta a religiosa, culpam os outros. “Foi o meu pai, meu irmão, meu namorado que me levou a usar drogas. Na verdade, é ela que busca, ela que quer, não tem como culpar os outros. Admitir a própria culpa é uma dificuldade para elas. Percebemos que elas começam cedo, pelo álcool, depois partem para coisas mais pesadas e se prostituem. É muito raro quem esteja aqui e não se prostituiu. Acaba sendo muito associado uma coisa com a outra no caso da mulher.” 

 

Temos casos aqui de adolescente que a mãe era alcoólatra a irmã acabou de sair da cadeia e o irmão da Fundação Casa. Tem mulheres que estão na terceira internação. Tem outra que estava com a filha recolhida e ela na rua. Há casos e casos. Esperamos que quando elas saírem encarem a mudança, queremos dar a elas uma nova perspectiva de vida, uma vida nova. Sonhamos que elas façam planos.” 

Mulheres usuárias de crack consomem mais a droga

 

No Brasil existem aproximadamente 370 mil usuários de crack. Os homens lideram a lista, porém as mulheres ocupam o primeiro lugar como as maiores consumidoras, mostra pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz. Enquanto o usuário de crack masculino consome em média 13 pedras/dia, a mulher chega a consumir 21. Na recuperação, as mulheres são as mais difíceis de se conscientizar, porém, não voltam ao vício com tanta facilidade.

 

Na opinião da psicóloga Elza Fátima Salina Lopes Rossi do Lar Santa Maria, as mulheres são mais intensas do que os homens no consumo do crack. “Os homens são mais controlados que elas. Trabalhei 14 anos com recuperação de drogados masculino e nunca tive tanta dificuldade como estou tendo com as mulheres há 4 meses. Nesse trabalho ainda não tivemos nenhum alta. Algumas delas vão para o quarto ciclo, em janeiro.” 

 

Se a recuperação da mulher adulta é difícil, mais ainda é da adolescente, explica a psicóloga. “Elas descobrem ao mesmo tempo os prazeres da droga e do sexo. Usam o corpo para conseguir dinheiro ou crack. Nessa fase elas não estão profissionalizadas e adotam a prostituição como profissão.” 

 

As mulheres chegam a casa mais sofridas, diz a psicóloga. “O emocional delas está danificado no último grau. Mulher já vem com o sentimento de mãe. Quando elas têm filhos e não cuidam deles como deveriam se enchem de sentimento de culpa. Não tem o ditado de que o filho é da mãe e não do pai. O carinho pelos filhos é maior. Elas se culpam demais por não terem sido uma boa mãe.”

 

A soma da culpa com a autoestima baixíssima faz com a recuperação seja mais lenta, explica Elza. “O homem é mais determinado. Quando decide, decide. A mulher demora mais a se conscientizar. Tanto que em quatro meses de trabalho nenhuma ainda foi para o quarto ciclo e não tivemos nenhuma alta. Em janeiro, algumas vão para o quarto ciclo, por isso a dificuldade de analisar.” 

 

O motivo que leva milhares de mulheres a fumar crack são os mais diversos possíveis. “Elas podem ser viciadas em álcool e partir para outras drogas. A busca de uma vida fácil e o prazer sexual proporcionado pela droga. Elas fumam mais porque conseguir dinheiro e drogas é mais fácil para elas. Usam o corpo.” 

 

O estudo da Fiocruz mostra a realidade vivida pela psicóloga no Lar Santa Maria. “As mulheres fumam mais pedras por dia do que os homens, porque elas conseguem muitas vezes por meio da prostituição, mais dinheiro para  a compra. Mas as mulheres também afirmaram sofrer violência sexual, com 44,5% das entrevistadas dizendo que já sofreram abuso, o que resulta no alto índice de gravidez entre as viciadas, 10%.” 

 

Para deixar a dependência, Elza diz que é complicado. “O homem tem expectativa de vida futura. Mulher por conta de se prostituir, usar droga, se sente infeliz e incapaz de dar a volta por cima. É difícil encontrar uma motivação que as faça encarar a recuperação.  No sexo masculino, a conscientização é mais rápida, mas as recaídas andam na mesma velocidade. Voltam ao uso com mais facilidade. Acredito que a mulher, depois que se conscientizar, terá um índice de recaída menor.”