Toda vez que vem a boa notícia do incremento dos ganhos dos trabalhadores via décimo terceiro, vem o alerta que é preciso separar recursos para enfrentar os gastos de início de ano.
Começamos 2015 com os boletos do IPVA. Famílias que possuem filhos em idade escolar têm um encontro com a matrícula e o material didático. Algumas prefeituras lançam o IPTU a partir de janeiro. Profissionais liberais começam a receber os boletos para pagamento das anuidades de seus Conselhos. Isso somente para citar alguns dos compromissos "extras" de início de ano.
Evidentemente que estes gastos a mais são conhecidos dos envolvidos. Contudo, é preciso fazer algo na direção do alívio de caixa das famílias no início de cada ano. Se este alívio fosse colocado em prática, além de permitir maior tranquilidade financeira neste período do ano, a inadimplência seria reduzida.
A Prefeitura de Bauru deu exemplo há alguns anos e deslocou o pagamento do IPTU para o mês de abril. Este exemplo poderia ser seguido por outros setores.
No caso do IPVA, o governo do Estado de São Paulo, além de cobrar um dos maiores percentuais sobre o valor do veículo, ainda coloca pressão sobre a renda das famílias. Oferece desconto para pagamento à vista, mas este pagamento tem que ser efetuado já em janeiro. Com todos os gastos acumulados da virada do ano fica evidente que o contribuinte optará ou pelo pagamento parcelado (com entrada em janeiro) ou pagamento único em fevereiro. Ambas as opções sem desconto.
É possível entender a necessidade de reforçar o caixa do governo do Estado e dos próprios municípios (50% do valor fica no município) no início de ano, mas não considerar as limitadas finanças das famílias e o sufoco financeiro deste período do ano é viver fora da realidade. Afinal, quem elege os dirigentes públicos? Há uma inversão de valores.
O ideal seria deslocar o vencimento inicial para março ou abril e ainda oferecer maior prazo para pagamento. A simples elevação no número de parcelas, para 5, por exemplo, já representaria alívio no caixa das famílias e, certamente, a inadimplência no pagamento deste imposto cairia. Todos ganhariam.
Os deputados estaduais poderiam abraçar esta causa e promover o debate sobre o tema. É questão de entender os anseios dos cidadãos.
Isso vale para os Conselhos de categorias profissionais. A maioria tem folga de caixa, elaboraram seus orçamentos considerando os projetos previstos para o ano seguinte e as suas necessidades operacionais e, deslocar os vencimentos das anuidades para maio ou junho, pouco prejudicaria o desempenho orçamentário.
No caso de matrículas, as escolas poderiam pelo menos parcelar os valores. Algumas fazem isso como exceção, mas poderia ser a regra inicial. Quanto ao material escolar falta um olhar seletivo. Duas listas anuais poderiam reduzir pela metade o valor da compra inicial. Também as escolas poderiam estimular a cooperação entre pais, visando economia na compra em volume.
Enfim, é preciso, como é preconizado em gestão empresarial, "sair da zona de conforto". Da mesma maneira que utilizamos as redes sociais para pleitos importantes, como as que ocorreram no ano passado, é possível uma mobilização visando mudanças em regras que poucos avaliam criticamente. Indico o movimento: "Vamos aliviar os gastos de início de ano"? É uma causa que todos ganham. Reflita sobre isso.
O autor é economista e articulista do JC