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Éder Azevedo |
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UM POUCO DE ALEGRIA - Sofrendo com o falecimento do dono há uma semana, Totó e Madona, uma gata e seus cinco filhotes recebem carinho e cuidados da vizinha dona Maria |
Totó e Madona exibem um olhar tristonho. Os cãezinhos vira-latas de 6 anos esperam fielmente pelo dono. A cena se repete todos os dias, ao entardecer. Era o horário que seu Zé apontava na rua de terra, a caminho de casa.
Com cerca de 50 anos e solteiro, seu Zé fazia bicos como auxiliar de pedreiro e capinava terrenos pelo bairro onde morava, no Jardim Solange. Segundo vizinhos, era um senhor de origem negra, humilde, de poucas palavras e coração muito bom.
Sempre zeloso, dedicava boa parte do tempo com a manutenção e consertos na casa modesta em que vivia. Era comum vê-lo, todos os dias, caminhando com seu fiel companheiro, o Totó. Baixinho, peludinho e dócil: do tipo que abana o rabo a todos.
Já Madona, porte médio e também sem raça definida, assumiu o papel de guardiã da casa e costuma latir para todo mundo na rua. Além dos cães, uma gatinha, sem nome, apareceu há três anos e foi ficando. Recentemente, teve cinco filhotes.
Porém, a história de amor entre seu Zé e seus bichinhos tomou um rumo diferente há 40 dias. Um acidente doméstico o deixou hospitalizado. Ele bateu a cabeça enquanto fazia reparos em sua varanda. Passou por cirurgia, mas não resistiu e morreu na semana passada, no Hospital Estadual.
Na casa dele morava dona Santinha, de quase 90 anos, sua tia. Logo após o acidente, ela foi levada por familiares. Mas Totó, Madona, a gata e os filhotinhos ficaram para trás, abandonados, sem água e sem comida.
Desde então, a vizinha, Maria Gomes dos Santos, 68 anos, e sua filha, Eliane Calixto, se dividem para tratar dos bichinhos. Eliane expôs a situação em redes sociais e conseguiu doações de ração com amigos e conhecidos. Duas vezes ao dia, ela e a mãe vão até a casa e até limpam o quintal.
Adoção conjunta
Mas a preocupação é com os próximos dias. Depois que seu Zé morreu, a família alugou a casa, que só falta passar por pintura antes de receber os novos moradores. “Um parente dele esteve aqui e falou que não poderia levar os bichinhos, pois não tem onde colocá-los. Nem contato me passaram. Qual será o destino deles? A rua?”, questionou Maria Gomes.
Apaixonada por animais, ela contou que mantém oito cachorros e três gatos em sua casa. Por isso, não pode adotar os de seu Zé. Agora, dona Maria procura por alguém que ofereça abrigo, carinho e atenção aos bichinhos. “O ideal é não separar Totó e Madona. Os dois convivem juntos há 6 anos e seria mais um sofrimento muito grande, pois já tiveram a morte do dono”, observa.
Na varanda da casa, um banco branco de madeira, tipo de praça, era palco de muito carinho entre seu Zé e seus animais de estimação. “Lembro dele sentado com Totó no colo e Madona nos pés. Direto os dois ficam olhando para o banco, como se esperassem por ele. Totó chega a uivar de tristeza”, contou dona Maria.
Como adotar
Quem se interessar em adotar os bichinhos de seu Zé basta entrar em contato com dona Maria pelo telefone (14) 9 8128-2011.
Caso de polícia e necessidade de um desfecho
Entre os vizinhos, seu Zé era conhecido apenas por apelido. Por isso, não foi possível, até o momento, localizar os familiares dele. Mas, neste caso, quem responde pelos animais?
O advogado da Ong Naturae e Vitae, José Hermann Schroeder, explica que o parente mais próximo de seu Zé teria que, ao menos, providenciar a adoção dos bichinhos, já que ele não era casado e nem tinha filhos.
“Quando a pessoa morre, deixa uma herança à família, seja ela passiva ou ativa. Neste caso, houve abandono e maus-tratos dos bichinhos, o que configura crime federal, baseado na lei 9.605”, observa o advogado.
Hermann garantiu que registraria um boletim de ocorrência (BO) de autoria desconhecida.
“Com endereço em mãos, a Polícia Civil é capaz de investigar e chegar até um familiar de seu Zé. O caso vira um processo e alguém terá que responder. Já o critério de quem será penalizado é determinado pela Justiça”, diz.
Filme da vida real
O filme “Sempre ao Seu Lado”, baseado em fatos reais, conta a história de um cão da raça Akita, chamado Hachi. Ele foi encontrado em uma estação de trem, ainda filhote, pelo professor universitário Parker Wilson (Richard Gere), que o adota.
O laço afetivo criado entre os dois é tão grande que, após a morte do professor, Hachi passa a esperá-lo na estação todos os dias, por vários anos, até morrer. Esse amor incondicional do cãozinho para com o dono tem explicação.
“Animal sente tudo o que o ser humano sente: depressão, angústia, tristeza. Inclusive, a falta do dono. No caso de Totó e Madona, vai demorar um pouco para eles se recuperarem. Talvez só quando alguém assumir os cuidados e carinhos que eram dados por seu Zé”, explica a delegada da Sociedade de Proteção Ambiental e Animal Mountarat, Damair Pereira de Almeida.
‘Pelúcia’
A mesma insensibilidade de pessoas que abandonam animais por estarem doentes, por exemplo, pode ser atribuída a outras situações. Há até quem compre cachorro ou gato como se fossem “bichinhos de pelúcia”.
“O animal acaba sendo visto como um objeto. No comércio, acontece muito isso. As pessoas adquirem esses animais e não prestam o tratamento correto e de forma responsável. Se o dono não estiver disposto a tomar cuidados básicos com veterinário, alimentação, banho e tosa, acaba os colocando em situação de maus-tratos”, aponta Leandro Tessari, presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Comupda).
O Jornal da Cidade tem publicado em matérias o crescente abandono de animais em Bauru. Uma situação tem chamado a atenção: torna-se cada vez mais comum inquilinos se mudarem de imóveis alugados e deixarem cães e gatos por lá.