08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Estranhos e suspeitos


| Tempo de leitura: 2 min

Deixo claro que não compactuo com a violência. A velocidade e "precisão" com que foram identificados os "autores" dos atos violentos contra o Semanário Charlie, seguida de execução imediata, assim como a onda de convergência das análises e dos incentivos à reações em nome da liberdade de imprensa, parecem-me estranhos.
Veículos de comunicação que ao mesmo tempo que ignoraram graves violações de direitos humanos e compactuaram com violências contra populações vulneráveis de repente afirmam a sacralidade dos direitos humanos (principalmente do livre pensar) e conclamam a grandes manifestações. Netanyahu abrindo a gigantesca manifestação em Paris é, no mínimo, paradoxal: fazem parecer imaginários os massacres na Palestina. Causa estranheza, inclusive, a ausência do pessoal da Casa Branca.
No mesmo dia, centenas foram mortos na Nigéria, mas parece que não abalou senão a poucas pessoas. Simultaneamente, jornais impressos e canais de televisão divulgaram ad nuseum a comoção que tomou conta de Paris. Quem falou da Otan, da CIA, seus aliados e equivalentes? Silêncio estranho e... suspeito.
Em vários atentados nos Estados Unidos, rapidamente se "identificaram" os supostos autores que foram imediatamente executados (mortos não podem se defender, muito menos denunciar).
Na França, aprovara-se legislação proibindo, às alunas o uso do véu nas escolas públicas. Houve também grandes manifestações islamofóbicas, seguidas de movimentos contrários. Por que, justamente quando muitos saem às ruas contra a islamofobia, ocorrem as violências que comoveram Paris e o mundo?
No Riocentro, não fosse a providencial falha, uma bomba conduzida por militares poderia ter matado mais de 20 mil pessoas e... a autoria teria sido imputada a manifestantes contra a ditadura em curso.
Quem conseguiu espaço para se manifestar quando muitos desses veículos violaram (e ainda violam) direitos das mulheres e da população não branca, por meio de fotos, artigos, charges, vídeos, comentários ofensivos?
Deixo claro que não compactuo com a violência, mas os enfoques que se seguiram parecem-me estranhos, senão suspeitos. É preciso que CIA, Otan e congêneres deixem de promover o terrorismo.

Iolanda Toshie Ide