09 de julho de 2026
Articulistas

De como uma reunião de boêmios pode ajudar uma cidade

Henrique Perazzi de Aquino
| Tempo de leitura: 3 min

A vida do ex-presidente Getúlio Vargas sempre muito me interessou. Algo novo saindo sobre ele, procuro ler com a devida atenção. Dois últimos livros foram publicados: biografias escritas por Lira Neto, o Getúlio 1882-1930 - Dos Anos de Formação à Conquista do Poder e Getúlio 1930 - 1945 - Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo. Editados pela Cia das Letras são um tanto enfadonhos, cheios de muitos dados e datas, poucas análises. Aproveitei pouco, mas algo me chamou muito a atenção neste segundo livro. Trata de um grupo de intelectuais contratados pelo presidente em 1951 para pensar a modernização do País. Uma espécie de assessoria econômica. Pouco conhecimento tinha do assunto.
Foi um grupo e tanto! Pequeno. Formado por quatro pessoas. Quatro bastiões, todos um tanto anônimos no estabelecido cenário de declarada guerra contra o presidente, período até sua morte, em 1954. Quer queiramos ou não, Getúlio Vargas foi um visionário. Tinha em mente uma frente de trabalho, baseada num tripé: o aceleramento da industrialização, o fortalecimento do Estado e a defesa da independência nacional. Pensando grande, buscou gente qualificada para dar a sustentação no que tinha em mente. Todos tinham idade entre 30 e 40 anos, e foram levados para dentro do Palácio do Catete e colocados para jambrar, trilhando um trabalho baseado no sentimento nacionalista, inclusive no que dizia respeito à América Latina.
A leitura destes livros não me esclareceu o que mais queria saber: a respeito de como atuavam, quem eram de fato e quais foram os resultados práticos. Dias atrás descobri um novo livro: Os Boêmios Cívicos - A Assessoria Econômico-Política de Vargas (1951-1954). São 12 textos organizados por Marcos Costa Lima. Viajei na maionese e me segurei firmemente onde estava para não ter um surto saudosista. Cito o nome dos integrantes do quarteto inicial. Era formado pelo baiano Rômulo Almeida, nomeado chefe do grupo, o maranhense Ignácio Rangel, o paraibano Cleanto de Paiva Leite e o cearense Jesus Soares Pereira. Getúlio os chamou de "boêmios cívicos" ao observar uma luz acesa madrugada adentro numa das salas do Palácio, horário preferido para as incessantes reuniões do grupo.
A lindeza do agrupamento foi que, com as ideias ali emanadas, surgiram feitos grandiosos. O fortalecimento da Petrobras, do BNDES, os sistemas de crédito do Banco do Nordeste e do Brasil, além de embriões de variados organismos de Estado. Também a ideia da Eletrobras e a Comissão Nacional de Energia Nuclear. Ou seja, ali existia gente pensando e colocando em prática o tal do planejamento a longo prazo.
Foram boicotados, usurpados, vilipendiados, quase massacrados. Mas resistiram e estiveram com Getúlio até o fim. Quer contribuição maior para a construção do Estado brasileiro moderno? Muito do que temos aí até hoje nasceu ali. O que esse quarteto fez foi algo divinal dentro da história dos anônimos brasileiros, os tantos que não tiveram seus nomes registrados como protagonistas. Adorei conhecê-los e faço questão de divulgar isso como fato mais do que relevante.
Daí, neste último parágrafo venho de lá para a Bauru de hoje. Quando tivemos algo parecido em Bauru? Antecipo a resposta: Nunca! Imagine a belezura que seria um prefeito tentar fazer o mesmo dentro de sua administração. Constituir um grupo de notáveis e deixá-los à vontade para pensar e repensar essa cidade. Muito já se falou nisso, mas nunca nada existiu de fato. Teriam de ser verdadeiramente notáveis e não algo baseado em escolhas políticas, como se faz com um secretariado, por exemplo. Essa cidade merece ser pensada e planejada com esmero. Algo totalmente inovador. Merece ser construída com a argamassa de gente desprendida de interesses. Ganharíamos todos. Falta um prefeito instituir algo assim, comprar a briga dos contrários, sentar junto deles com certa regularidade e ir mudando os rumos de Bauru. Eis uma ideia para algo realmente transformador. Nem precisariam ser boêmios, mas se o fossem, melhor ainda. Rodrigo, atual prefeito bauruense precisa ler esse livro.

O autor é jornalista e professor de história