Os agentes econômicos e a sociedade com um todo esperavam por mudanças na condução da política econômica brasileira. Também não poderia ser de outra maneira, afinal, a presidente Dilma Rousseff e sua antiga equipe econômica foram incapazes de conduzir adequadamente a economia brasileira nos últimos quatro anos. E ela recebeu, diria, uma nova oportunidade da maioria da população, em sua reeleição. Em outras palavras: estão tentando resolver os problemas que não existiam antes de entrarem no governo, ou seja, a maior parte causada por eles mesmos.
Podemos denominar as recentes decisões da equipe econômica de política do "bate e assopra". Analisemos as medidas. Além dos cortes nos gastos, incluindo verbas aplicadas em programas sociais, uma contradição ao discurso eleitoral, o governo elevou a já elevada carga tributária brasileira. Ao reeditar a Cide (a contribuição sobre os combustíveis), por exemplo, joga pressão sobre o preço dos combustíveis. Aumento na gasolina leva consigo aumento no preço do etanol, realimentando a inflação. Outra decisão foi o aumento do IOF - imposto sobre operações de crédito. A medida reduz o apetite do consumidor, dificultando ainda mais as vendas, mantendo o nível da atividade econômica baixo, indicando, assim, baixo crescimento econômico.
Também os aumentos tributários no setor de cosméticos e, principalmente, nas alíquotas de importação trarão impacto aos preços correntes. Mais lenha na fogueira da inflação. É certo que as medidas vão na direção do ajuste fiscal, necessário, e na tentativa de resgatar a confiança dos agentes econômicos, mas tudo isso vem revestido de muitas indagações, como, por exemplo: e o enxugamento do Estado? A redução do número de ministérios? O corte seletivo de gastos? A redução do desperdício na aplicação de recursos públicos?
Entenderam o "bate e assopra"? Ao aumentar os tributos há realimentação da inflação e queda no crescimento da economia, portanto, o governo "bate". Quando procura com estas decisões resgatar a confiança dos agentes econômicos, principalmente no controle fiscal, buscando excedentes primários (receita menos despesas sem contar com juros da dívida) está "assoprando". Aparentemente, a estratégia atual é de canalizar para os primeiros meses deste novo mandato todas as medidas que pretendem realizar, mesmo que o preço seja, por exemplo, o aumento da inflação, para, na sequência, editar medidas que controlem esta escalada de preços, principalmente no aperto da política monetária. Mais um "bate e assopra". Neste contexto é preciso que todos do setor privado da economia pilotem adequadamente as empresas, as organizações, a própria carreira, ou seja, mesmo que atordoados, que fiquem atentos às mudanças e utilizem de toda a capacidade gerencial para mudar as estratégias estabelecidas. Será o caminho para sobrevivência. Uns podem classificar as decisões tomadas pela equipe econômica como pacote de maldade, outros de ajustes necessários. O certo é que conviveremos com momentos difíceis e deveremos utilizar ao máximo a nossa capacidade de enfrentar problemas.
Uma coisa é certa: tudo seria mais fácil se houvesse coerência, afinal, para fazer o oposto do preconizado em campanha eleitoral, seria melhor que fosse outro governante, evitando o que podemos chamar de estelionato eleitoral. Aparentemente, a equipe econômica não está nem aí com as propostas apresentadas pela então candidata Dilma Rousseff e optou por agir com liberdade, mesmo contrariando interesses da base aliada do governo. A dúvida: até quando? Entre o "bate e assopra", com tantas indagações presentes, opte pela cautela.
O autor é economista e articulista do JC