O Jardim Botânico Municipal de Bauru (JBMB) tem 20 anos de fundação, 18 deles com o entrevistado de hoje como diretor. Foi sob as sombras dos bambuzais que Luiz Carlos de Almeida Neto falou sobre o seu trabalho na instituição, um polo de conservação da flora do País e uma das principais atrações turísticas de Bauru e região. Ele ainda pincelou algumas passagens de sua vida pessoal para a reportagem.
Casado e pai de uma filha, a vida do “Luiz do Botânico”, em muitos momentos, confunde-se com a própria história do seu local de trabalho, tamanha é a sua dedicação. “Minha história com o Jardim Botânico teve início em 1997, quando assumi a direção. A primeira coisa que eu precisei fazer foi aprender o que é um jardim botânico, algo que não se aprende na faculdade. Este foi o meu primeiro desafio na direção”, relata. Leia mais, a seguir.
"Os jardins botânicos são grandes bancos genéticos"
Jornal da Cidade - Quais foram os caminhos que o levaram até a direção do JBMB?
Luiz Carlos de Almeida Neto - Eu fiz faculdade de agronomia com o sonho de trabalhar no Instituto Agronômico de Campinas. Eu me formei e fui para lá. Mas é um órgão público, ou seja, precisa de concurso para entrar. Fiquei alguns meses trabalhando na conservação de solos, aprendendo, o que era meu sonho de estudante. Mas o dinheiro foi ficando curto e acabei voltando para Bauru para estudar para concursos. Na época havia concurso para o Instituto Florestal e logo abriu outro para a Prefeitura Municipal de Bauru. Comecei a estudar e passei em primeiro lugar na prefeitura. O outro acabou até sendo anulado. Bom, mas foi uma surpresa, porque eu nunca achei que trabalharia na minha cidade.
JC - E assim teve início sua jornada profissional?
Luiz - Sim. Assim teve início minha primeira experiência profissional pós-faculdade, em 1994. Comecei na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), no viveiro municipal, onde trabalhava com a produção de mudas, principalmente ornamentais, e fazia paisagismo na cidade. Até que surgiu o meu primeiro desafio, que foi fazer um grande trabalho de paisagismo na avenida Nações Unidas. Foi uma experiência muito bacana, porque passei a pesquisar e a ver o que os grandes paisagistas estavam fazendo. Adquiri muita experiência na área. Hoje não resta quase nada do projeto inicial na avenida. Outra coisa bacana dessa época é que tive de buscar parcerias para a execução desse trabalho, o que me abriu os olhos para o grande potencial que é você ter parceiros. Experiência usada mais tarde no Jardim Botânico.
JC - Já no Jardim Botânico, quais foram os desafios enfrentados para tornar o espaço um dos orgulhos do bauruense?
Luiz - Minha história com o Jardim Botânico teve início em 1997, quando assumi a direção. A primeira coisa que eu precisei fazer foi aprender o que é um jardim botânico, algo que não se aprende na faculdade. Este foi o meu primeiro desafio na direção. Após descobrir o que é um jardim botânico, tracei uma área que no passado já havia sido desmatada para implantar as coleções ao longo desses 18 anos.
JC - E como um jardim botânico pode ser definido?
Luiz - No mundo todo, os jardins botânicos são instituições voltadas para a conservação de espécies da flora mundial. Em uma visão mais moderna, cada jardim botânico deve conservar o que existe de flora onde ele está inserido. No caso de Bauru são o cerrado, a floresta estacional (nossa mata atlântica de Interior) e a mata de brejo. A união de todos os jardins botânicos promove uma grande coleção de plantas. O grande barato dessas instituições é que as plantas das coleções têm procedências: de onde ela veio, quem coletou, quando, qual é a coordenada geográfica do material... Tudo é coletado com intuito conservacionista. Os jardins botânicos são grandes bancos genéticos.
JC - O Jardim Botânico de Bauru também desenvolve projetos de educação ambiental junto à população...
Luiz - Isso acontece porque, para você conservar as espécies, não basta somente ter as coleções. É preciso educar as pessoas, por isso temos ações educacionais. Outra necessidade é fazer pesquisas, então fazemos pesquisas em parceria com universidades e institutos de pesquisas. Abrir para o público é outra maneira de tentar conscientizar o cidadão. É por isso que o jardim é aberto.
JC - Entre essa interação com a comunidade está o aplaudido projeto “Um Canto no Botânico”. Como ele surgiu?
Luiz - Fizemos um encontro para comemorar o Dia do Turismo Ecológico. Convidamos algumas pessoas para uma visita monitorada, com trilha e tudo mais. E havia um coral. Ficou muito bonito e as pessoas gostaram muito. Foi quando eu percebi que o espaço poderia abrigar um projeto musical. Deu muito certo. Estamos indo para o sétimo ano.
JC - O JBMB faz parte da Rede Brasileira de Jardins Botânicos, certo?
Luiz - O País abriga 35 instituições como a nossa. É pouco. E a maioria está no Estado de São Paulo. Uma das metas da rede é fazer com que o número de jardins aumente. Há um intercâmbio entre esses espaços. Aqui nós temos um privilégio, que é ter uma reserva natural associada à nossa área. Muitos desses espaços não têm isso. A maioria da nossa reserva é ocupada por cerrado. Só de ambiente natural, o nosso jardim botânico conserva três tipos de vegetações, além da flora associada a elas, que é diferente. Bauru é área prioritária para a conservação de cerrado, e você ter um jardim botânico inserido nisso é de extrema importância.
JC - Futuros projetos?
Luiz - O bacana do botânico é que a gente sobe um degrau de estrutura a cada ano. Hoje temos os três prédios de coleções: samambaias, orquídeas e bromélias. Temos um centro de educação ambiental (para cursos, palestras), uma coleção de plantas aquáticas, jardim sensorial... Este ano vamos investir na coleção de árvores de palmeiras. Mas minha meta é construir, adequadamente, todas as seções do jardim. Equipá-las, ter profissionais... Na verdade, meu sonho, depois de finalizar a área de visitação pública, é criar todos os protocolos das coleções e de tudo o que funciona por aqui, e fechar isso com um plano diretor do JBMB. Assim, acredito que estarei cumprindo bem o meu papel na direção.
JC - A fotografia sempre foi o seu hobby, certo?
Luiz - Sim. Quando comecei a trabalhar, comprei uma câmera profissional, mas fui assaltado em uma das viagens que fiz. Fiquei com raiva e comprei uma ainda melhor! As pessoas achavam engraçado porque eu queria uma manual. Eu adorava viajar, e ainda adoro. E fotografava muito.
Meu sonho era ter um laboratório de revelação. Não realizei. E depois veio a fotografia digital, com tudo tão rápido e prático. Depois o casamento e a paternidade, ou seja, mudei meu foco para a família. O trabalho também me consome muito. E é outra paixão. Para mim, este trabalho é um imenso privilégio e prazer.
JC - O JBMB é uma instituição premiada.
Luiz - São várias conquistas. Em 2006, conseguimos um prêmio internacional sobre educação e conservação. Tivemos projeção nacional. Hoje, temos 20 empresas privadas que colaboram com o Jardim Botânico através do projeto “Amigos da Natureza”. Fazemos parte do Circuito Turístico do Centro Oeste Paulista. Em 2014, mais de 70 mil pessoas visitaram o Jardim Botânico e, em 20 anos de existência, já recebemos mais de 120 crianças de escolas.