08 de julho de 2026
Geral

Dívidas no comércio quadruplicam

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

O elevado nível de endividamento da população parece não estar sendo suficiente para frear o volume de novas contas contraídas e não pagas no comércio de Bauru. Segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), a inadimplência que atinge o setor mais do que quadruplicou em quatro anos, resultado do afrouxamento dos critérios para a concessão de crédito, medida adotada por muitos empresários para sustentar os níveis de consumo. 

 

Somente em 2014, R$ 12,514 milhões em dívidas foram inscritas no SPC da cidade. A quantia é 4,5 vezes maior do que os R$ 2,757 milhões em débitos não pagos contabilizados pelo órgão em 2010. O acumulado ao longo dos anos ultrapassava, em janeiro, a marca dos R$ 33 milhões. 

 

A facilidade de acesso ao crédito, associada ao consumismo e à falta de educação financeira, é apontada como o principal fator para explicar os números. É esta a análise feita pelo SPC e também pelo economista Reinaldo Cafeo, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib).

 

“Em alguns setores, com exceção das grandes redes, houve uma abertura da guarda. Ou seja, a análise para a concessão de crédito ficou menos rigorosa, uma forma de convencer o consumidor a comprar e, assim, conseguir dar vazão aos estoques de mercadorias”, comenta.

 

As dívidas resultam, em sua maioria, de contas no crediário não honradas e, em menor proporção, de chequem sem fundos emitidos. Para o gerente executivo do SPC, Édio Cássio Ramos, trata-se de uma inadimplência provocada por uma vida financeira desorganizada, em que o consumidor, endividado, precisa priorizar o pagamento de serviços e itens essenciais, como contas de água e energia, alimentação e saúde, entre outros. “O comércio, neste contexto, é o último a receber”, completa.

 

10% da população

 

Não apenas o montante de dívida acumulado ao longo de 2014 cresceu vertiginosamente, como também o valor devido por cada consumidor inscrito no SPC. E isso significa que, embora a quantidade de endividados também esteja aumentando, o rombo da dívida está crescendo em um ritmo ainda maior.

 

Em 2010, o débito médio era de R$ 594,13, quase metade dos R$ 1.099,72 devidos por cada inadimplente que ficou com o nome sujo no ano passado. Cafeo destaca que, nos últimos 12 meses, 64% das famílias brasileiras comprometeram sua renda com dívidas - não necessariamente atrasadas - junto a bancos e estabelecimentos comerciais. “Isso é reflexo da estratégia do governo dos últimos anos, de fomentar o crescimento da economia a partir do aumento do consumo das famílias. Mas elas não conseguiram se planejar e acabaram gastando mais do que deviam.”

 

Em Bauru, até 20 de janeiro, 36,5 mil pessoas estavam inscritas no SPC por não terem honrado débitos contraídos no comércio. É um universo que corresponde a cerca de 10% da população da cidade.

 

69% dos consumidores admitem ter dificuldades para controlar finanças

 

Dois em cada três consumidores (69%) admitem sentir algum tipo de dificuldade para realizar o controle de suas receitas, despesas e investimentos. É o que revelou estudo publicado recentemente pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil e pelo portal de educação financeira “Meu Bolso Feliz”. 

 

O levantamento, feito com 662 pessoas com mais de 18 anos e de todas as classes sociais em 27 capitais federais, também apontou que 35% dos entrevistados têm o costume de adquirir produtos sem avaliar sua condição financeira. Dois em cada dez (17%) revelaram que chegam ao fim do mês sem conseguir pagar as contas em dia. 

 

Outros 22% até conseguem honrar seus compromissos financeiros, mas não conseguem poupar um centavo de sua renda. Quando falta dinheiro para fechar as contas do mês, as três estratégias mais utilizadas pelos entrevistados são usar o limite do cartão de crédito para completar as despesas (19%), pedir dinheiro emprestado com amigos ou familiares (17%) e utilizar o limite do cheque especial (13%). 

 

“A pesquisa comprova que a administração eficiente do orçamento pessoal não é muito usual entre os brasileiros. Há uma parcela significativa de entrevistados que não faz um controle sistemático de seus rendimentos ou o fazem com uma frequência bastante aquém da adequada. A grande maioria não se sente totalmente segura para gerenciar os próprios recursos”, afirma a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.