08 de julho de 2026
Articulistas

Beber e dirigir, até quando?

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar da Lei Seca, das campanhas e matérias na mídia, o binômio beber e dirigir marca forte presença no trânsito brasileiro. Durante as festas de fim de ano tem-se registrado inúmeros acidentes e mortes provocados por motoristas ébrios. Datas que deveriam ser comemoradas, para muitos se tornam motivos de muita dor.

Foi chocante ver aquele famoso cantor de dupla sertaneja, tão alterado, dar entrevista, depois de ter dirigido embriagado por mais de 70 km, até provocar um acidente. E o outro, que após atropelar dois idosos na calçada, mal conseguia falar algo com um mínimo de nexo!

Estudos mostram que bastam duas latas de cerveja para que o cérebro comece a sentir os primeiros sintomas da presença do álcool no organismo, modificando os reflexos e a coordenação motora, além de provocar sérias dificuldades de concentração. O fato é que existe uma correlação linear entre o aumento da alcoolemia e o risco de acidentes.

O brasileiro, de maneira particular, está muito associado à bebida. Pesquisa da Organização Mundial de Saúde coloca o Brasil na 80ª posição quando comparado a outros 185 países em termos de consumo anual de litros de álcool puro por habitante com idade superior a 15 anos. O mesmo estudo indica que o País detém a 25ª posição em termos do crescimento do consumo de bebidas alcoólicas.

O Observatório Nacional de Segurança Viária aponta que os acidentes de trânsito superam as mortes por homicídios ou câncer. Segundo dados do seguro DPVAT-Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre, o Brasil registra 31,3 vítimas fatais por 100 mil habitantes. Este dado é mais crítico do que o verificado no Catar, El Salvador, Belize e Venezuela. Estima-se que o álcool esteja associado a mais de 50% dos acidentes no Brasil.

Quantas vidas são ceifadas diariamente por causa da bebida na guerra cotidiana do trânsito! Esta guerra é incrivelmente inflada pela "arma" álcool. Mas, por que o brasileiro age desta maneira? Quais motivos o levam a ter comportamento inseguro, colocando em risco não só sua vida como a dos amigos e parentes, e também das demais pessoas?

Parece que a sensibilização através de campanhas, vídeos, outdoors etc. não têm surtido os efeitos esperados, uma vez que a educação para a segurança no trânsito brasileiro é pífia, não decola. Nem mesmo as punições (ainda amenas) da Lei Seca são eficazes. É preciso, neste momento, algo mais, talvez apelar para o sentimento, a religiosidade e a fé.

Afinal, os cristãos representam quase 87% da população brasileira e um dos principais mandamentos do cristianismo é claro: não matarás! Albino Luciani, ainda patriarca de Veneza, posteriormente papa João Paulo I, afirmava: "a guerra é a negação de Cristo". Pedro negou Cristo três vezes. Ao beber e dirigir cotidianamente Ele é negado recorrentemente.

É preciso uma profunda reflexão na vida dos brasileiros. Afinal, não se pode ter duas caras: aquela que assume comportamento belicoso e a outra que rende culto a Deus. "A César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Se não se faz o correto por não ter-se medo do peso das mãos da Justiça, que é excessivamente branda e não coloca ninguém na cadeia por ter matado no trânsito, que pelo menos se tenha temor da punição divina! Ela é justa e não falha!

O autor é especialista em trânsito e coautor do livro Segurança Viária, professor da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC