11 de julho de 2026
Cultura

"Reze pelas Mulheres Roubadas", vítimas oprimidas por narcotráfico

Sylvia Colombo
| Tempo de leitura: 2 min

Naquela pequena cidade, no interior do Estado de Guerrero (México), existe um salão de beleza chamado “A Ilusão”. Sua dona, Ruth, havia sonhado criar um lugar de onde as mulheres saíssem maquiadas e bem arrumadas.

Hoje, porém, resigna-se apenas a desajeitar os cabelos e estragar as unhas das meninas locais. “Este não é um salão de beleza, é um salão de feiura”, conclui.

Naquela região, por medo de terem as filhas sequestradas e escravizadas por narcotraficantes, as mães mancham os dentes das filhas com canetas “Pilot”, cortam seus cabelos como se elas fossem rapazinhos, e as escondem em casa ou as metem em buracos enquanto saem para trabalhar.

“Talvez eu tenha também que quebrar seus dentes”, vive repetindo a mãe de Ladydi, a garota protagonista de “Reze pelas Mulheres Roubadas” (Rocco), da escritora americana-mexicana Jennifer Clement.

Lançada agora no Brasil, a obra mistura jornalismo e ficção para contar como as mulheres do interior mexicano vivem a guerra contra o narcotráfico - conflito entre Exército e cartéis da droga que já deixou mais de 60 mil mortos e 30 mil desaparecidos no México desde 2006.

O Estado de Guerrero, um dos mais pobres do país, é também onde vêm estalando os mais sangrentos massacres, como a morte de 43 estudantes, em setembro último, numa ação conjunta entre autoridades locais, polícia e os cartéis.

“Eu me sinto um pouco profeta, porque para escrever este livro estive muito tempo em contato com as pessoas e a situação em Guerrero, e via que algo grave poderia acontecer logo. Sua publicação, em 2012, foi também um chamado de alerta”, conta Clement, 54, em entrevista à Folha, por telefone.

Nascida nos EUA, a escritora cresceu no México, estudou literatura em Paris, e ganhou projeção com a obra “Widow Basquiat” (viúva Basquiat), que reconstrói a trajetória do artista plástico Jean-Michel Basquiat (1960-88) por meio da história de sua parceira, Suzanne Mallouk, e da Nova York dos anos 80.

“Gosto de misturar investigação com poesia. No caso de ‘Reze pelas Mulheres Roubadas’, queria retratar as mulheres no contexto da cultura das drogas, mas chamando a atenção para a beleza que há nos detalhes do seu dia a dia”, explica.

Ladydi, assim batizada em homenagem à princesa britânica morta tragicamente em Paris em 1997, convive com o medo de ser sequestrada e uma espécie de encanto mórbido no qual vivem as poucas meninas que foram amantes de narcotraficantes, mas conseguiram voltar a seus lares depois.

A mãe de Ladydi é uma espécie de Úrsula Iguarán, a matriarca da linhagem dos Buendía, no romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez (1927-2014).

Possui força para levar a  família adiante depois que  o marido desaparece, mas  é extremamente mística e  intuitiva.