Dois empresários de Bauru, que pediram a não divulgação de seus nomes, participaram do Festival de Águas Claras, em 81. Um deles vai ser batizado de João e o outro de José para podermos contar a história. Eles eram estudantes e venderam camisetas no evento. A aceitação foi tão boa que com o lucro, eles viajaram para o Sul do País.
É com entusiasmo que eles contam a ‘façanha’ vivida na época. João, 22 anos, tinha acabado de chegar a Bauru. “Eu prestei vestibular para engenharia elétrica e entrei. Vim morar com uma irmã e cunhado. Vivia de mesada. Meus pais tinham poucos recursos financeiros.”
Ele era líder estudantil e participou de um Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Cabo Frio. “Eu era calouro quando conheci o José, ficamos amigos. Estava tendo uma campanha a favor dos índios, por conta da matança deles. No congresso dos estudantes teve uma manifestação pela sobrevivência dos índios. Lá adquiri alguns cartazes sobre a causa. Um dos cartazes originou a estampa da camiseta,” conta.
Logo que chegou em Bauru, o então calouro ficou sabendo do festival. “Eu tive uma ideia. Vou criar uma camiseta para vender para o público do festival. O José topou. Para pagar o primeiro lote de camisetas, emprestei um cheque do meu cunhado. Mandei estampar. Não era a camiseta oficial do evento.”
Eles começaram vender antes do festival. “Vendia aqui em Bauru, na faculdade, no bar Armazém, no bar Casagrande, que ficava ao lado do G Petisco e nos barzinhos. Chegamos a ir à Batista de Carvalho, que na época ficava fechada para o trânsito. Nós estendíamos (as camisetas) no chão e vendíamos.”
A venda deu um ‘lucrinho’ inicialmente. “A aceitação foi tão boa que subimos o preço. Não lembro por quanto era vendida. Sei que era em cruzeiros. Supondo que começamos a vender por R$ 10. Quando eu vi a fila, subimos para R$ 50. Continuou vendendo, subimos para R$ 80. O lucro foi de mais de 100%.”
No total foram vendidas 480 camisetas. “Nós ganhamos uma grana boa. Eu e José fomos para o Sul do País. Chegou em Camboriú montamos um tapete na feira hippie e vendemos o restante. Os argentinos estavam invadindo Santa Catarina. O que vendemos para eles foi coisa absurda.”
Duas estampas foram colocadas nas camisetas vendidas pelos estudantes no festival. Ambas tinham imagem de um índio. As frases:“Uma vez atirei num índio. Quando cheguei perto, ele ainda estava vivo. Com os olhos cheios de lágrimas, até parecia gente...(testemunho de um matador profissional) e “Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá.”
Pessoal tomava banho no lago
Para chegar à fazenda, onde o evento era realizado, os estudantes João e José foram levados por um motorista contratado pelo cunhado de João. “Não levei mochila de comida e bebida. O pessoal tomava banho pelado no lago. Durante o dia, o calor era estonteante. À noite era um frio que a gente quase morria. Dormíamos em barracas,” contou.