08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O sonho acabou?


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Com a queda do muro de Berlim em 1989, muitos intelectuais cunharam a expressão de que o sonho havia acabado. A bipolaridade entre a URSS Socialista e o capitalismo norte-americano findou-se; a utopia chegara ao fim. Desde então, o Capitalismo entrou num processo de hegemonização onde milhares de sonhadores que acreditavam num mundo horizontal abandonaram suas bandeiras e gerações de militantes se adaptaram à nova realidade.

Passados 26 anos, o mundo que se edificou aprofundou suas desigualdades, milhares de pessoas continuam miseráveis, passando fome, crises e mais crises econômicas germinam a cada ano, e em cada nação os ricos continuam mais ricos, a exclusão social aprofunda a cada dia e a falta de perspectiva gerou uma geração apática, consumista e xenófoba. Hoje, a juventude está desprovida de sentimentos mais humanísticos, de solidariedade, prega, quando prega, a segregação, principalmente religiosa. A Europa mergulha na islamofobia, no nacionalismo radical que criaram figuras como Franco na Espanha, Salazar em Portugal, Mussolini na Itália e Hitler na Alemanha.

Em contrapartida, milhares de jovens se entregaram à frieza, ao individualismo exacerbado onde seu mundo, seu eu, basta. Para esses, o sentimento coletivo não existe, o sofrimento alheio não o impactam, os rumos de seu país não importam, pois querem apenas consumir e viver em suas ocas isoladamente. Esse quadro perverso criou paralelamente uma densa crise de representatividade, seja na Europa, na Ásia ou nas Américas.

Como também criou escravos digitais que preferem interagir virtualmente ao invés de pessoalmente e quanto mais interagem, mais isolados ficam. Também nasceu deste quadro uma geração de fúteis, delinquentes consumistas, parasitas sociais. Não há mais causas, não há mais bandeiras, não há mais sonhos, não há mais utopias, não há mais solidariedade, não há mais humanismo. O erro do socialismo baseado no autoritarismo de personalismo desfigurou os princípios que deveriam nortear sociedades mais fraternas, mais humanas e, conseqüentemente, uma sociedade socialmente mais justa. O sonho da justiça social, da irracionalidade capitalista que extermina sem pudor gerações e gerações à subumanidade não mais agrega as juventudes. Deste fim de era, não germinou nada mais nobre, nada mais edificante, nada mais sadio para as gerações que sucederam 1989. O vácuo foi preenchido por uma pobreza extrema de valores.

O que se culminará com o fim do sonho? O que essa geração produzirá de suas "crenças"? De sua imobilidade, de sua apatia, de sua falta de capacidade de produzir um mundo melhor?

Henrique Matthiesen