10 de julho de 2026
Articulistas

O Brasil na rabeira do progresso

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Um dos fatores que mais afetam o desenvolvimento de uma organização são as interrupções ou mudança de rumo no curso das ações. Cada vez que há uma interrupção o prejuízo é certo ? perde-se o que já foi feito, mesmo que seja em parte; retarda ou inviabiliza os benefícios que eram esperados; perdem-se oportunidades inadiáveis, enfim, sempre há prejuízo. Às vezes esses prejuízos são tão grandes que é muito difícil avaliá-los, porque se desdobram numa cadeia de consequências. Imaginem os prejuízos ocasionados pelas interrupções das hidrelétricas de Belo Monte, no Pará e Jirau e Santo Antonio, em Rondônia. Só na de Belo Monte foi calculado um prejuízo de R$12 milhões por dia de paralisação. O atraso em Jirau e Santo Antonio deu prejuízo de mais de R$ 5 bilhões às distribuidoras. A ameaça de apagão é uma das consequências. O aumento na conta de luz pela necessidade de usar as usinas termoelétricas e a possibilidade de racionamento são outras consequências.

Se as interrupções são sempre prejudiciais às organizações, o que não dizer das interrupções no desenvolvimento de um país? O Brasil, que até ontem vinha sendo saudado porque estava se colocando em destaque entre os países em desenvolvimento, ao lado da China e da Índia, pela diminuição da pobreza e inclusão social, hoje está entrando em parafuso, deficitário e sem saber ao certo que rumo tomar. O escândalo astronômico da Petrobras, ?coroando? o período de governo petista, o esvaziamento do Tesouro Nacional pelos gastos sem controle e isenções fiscais, como tratamento emergencial da economia, provocaram uma brecha no desenvolvimento iniciado pelo Plano Real.

Estamos perdendo muito do que já havíamos conquistado. Fabiane Stefano, em matéria de capa da Exame diz que " a época de ouro do emprego no Brasil parece ter chegado ao fim. O país gerou apenas 150 mil novos empregos em 2014, o pior número em 12 anos. A notícia não poderia vir em pior hora: lá fora a tecnologia está tornando obsoletas muitas profissões, e milhões de pessoas correm o risco de ser substituídas por máquinas." Acrescenta que a expectativa para 2015 é ainda pior, em face das estimativas de uma recessão econômica e do contingente de 800 mil jovens prontos para ingressar no mercado de trabalho.

A perda com essa brecha no desenvolvimento vai muito além das preocupações econômicas. A Petrobras não vai falir e menos ainda o Brasil, tudo será recuperado, mas o custo das trapalhadas, deste possível final de ciclo petista, será o atraso de alguns anos no desenvolvimento do país. A perda de emprego não será apenas pela contração da economia. Se fosse só por isso seria temporária, mas agora o desemprego pela crise econômica deve ser somado à substituição do homem pela máquina. Para não ir muito longe, só aqui na nossa região, milhares de cortadores de cana foram substituídos pela máquina. Essa é uma tendência irreversível ? sempre que uma ocupação possa virar um programa de computador o homem será substituído pela máquina.

David Autor, professor de economia do MIT, em palestra, lembra que, "por ora as máquinas ainda deixam muito a desejar em tarefas que exigem raciocínio e julgamento" e cita o filósofo americano Elbert Hubbard, para quem "Uma máquina pode substituir 50 homens comuns. Mas nenhuma máquina substitui um homem extraordinário". O enfrentamento ao desemprego tecnológico está na educação, mas de onde o Brasil vai tirar esse homem extraordinário, depois do governo ter optado pelo ensino superior, injetando 30 bilhões de reais nas faculdades privadas para formar, ou melhor, para colocar no mercado mais de um milhão de profissionais despreparados? E agora quer melhorar o Ensino Médio sem pensar que a melhoria deve começar pelo Ensino Fundamental. Como um carma, sempre que o Brasil engrena uma fase de desenvolvimento precisa começar de novo, o que o deixa para trás dos outros países em desenvolvimento.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.